Este blog está hoje de luto, pela imensa dor dos moradores do Rio, Niterói e suas regiões metropolitanas. Um abraço solidário e comovido a todos os que perderam amigos e parentes nesta tragédia brasileira que não parece ter fim, pois se repete, em maior ou menor grau, todos os anos.
Literatura, história e o que mais der na cabeça: um blog que acredita na magia, liberdade, prazer e mistério da invenção e da criação.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Tarô pessoal, carta 8
Desamparo
Como andar pelo mundo assim sem um amor, um talismã, um cajado, sem um único amigo, um cahorro, uma ovelha, sem ao menos a lembrança de um lugar para chamar de meu? Como seguir assim trôpego e vazio, este buraco por peito, no rosto a ventania sem nome que traz areia, seca os rios e engole as lágrimas que não me descem? Como vagar assim sem liberdade, decidir sem desejo, continuar arrastando vida afora esta pesadíssima, insuportável sensação de não me sentir amado, pior ainda: não merecer ser amado?
Quando eu, a carta do Desamparo, o escolhe, amigo, não resta dúvida: é hora de você baixar armas, e sair correndo a pedir colo e abraço, onde eles estiverem. Você vai se surpreender duplamente: com a enorme quantidade de desamparados e com a enorme quantidade de amor no mundo.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Mãe que fosse

Há histórias que eu só escuto na Bahia. Não sei se são os personagens, se é o jeito de contar, se é o enredo... sei que são histórias baianas.
Esta se passou em Santo Amaro da Purificação e, me dizem os baianos, é verídica. Lindaura foi a Santo Amaro visitar a família da irmã, que não via há bem uns dois anos. Abraçou a irmã e o cunhado, beijou as sobrinhas, espantou-se com o crescimento do sobrinho:
— Tadeu, você está um homem, já! Quando eu lhe vi pela última vez, você era uma menino, agora já está um rapazinho! Deixa eu ver, já tem até bigode! – exclamou a tia, passando o dedo no buço de Tadeu que, do alto dos seus 13 anos de idade, abaixou a cabeça, morto de vergonha.
À noite, Tadeu levantou-se para ir ao banheiro. Atravessava o longo corredor da casa – daquelas casas antigas de Santo Amaro, salinha de entrada, longo corredor com quartos dos dois lados, ao final a sala de jantar/cozinha, onde fica a família toda e, só depois, o banheiro -, quando passou pelo quarto onde dormia a tia. Devido ao forte calor a porta estava aberta, e a tia, uma quarentona bem apanhada, dormia descoberta, deixando à mostra o corpo moreno muito bem torneado.
No auge da explosão dos hormônios, o jovem Tadeu não resistiu: entrou no quarto e caiu em cima da tia. Ela acordou assustada e, ao entender o que se passava, deu-lhe a maior bronca:
– O que é isso, menino? Que maluquice! Me respeite! Eu sou sua tia!
Ao que Tadeu respondeu:
– Mãe que fosse!
No dia seguinte, a tia contou a história em família, rindo. Em pouco tempo, toda Santo Amaro sabia do caso. Quando Tadeu passava, gritavam-lhe, para seu desespero:
- Mãe que fosse!
O apelido grudou de tal forma que, dizem, Tadeu Mãe-Que-Fosse teve de mudar-se, nunca mais voltando a Santo Amaro.
[Escrevendo da Bahia]
* Aos leitores portugueses: lembrando que, no Brasil, “apelido” é o mesmo que “alcunha”.
Esta se passou em Santo Amaro da Purificação e, me dizem os baianos, é verídica. Lindaura foi a Santo Amaro visitar a família da irmã, que não via há bem uns dois anos. Abraçou a irmã e o cunhado, beijou as sobrinhas, espantou-se com o crescimento do sobrinho:
— Tadeu, você está um homem, já! Quando eu lhe vi pela última vez, você era uma menino, agora já está um rapazinho! Deixa eu ver, já tem até bigode! – exclamou a tia, passando o dedo no buço de Tadeu que, do alto dos seus 13 anos de idade, abaixou a cabeça, morto de vergonha.
À noite, Tadeu levantou-se para ir ao banheiro. Atravessava o longo corredor da casa – daquelas casas antigas de Santo Amaro, salinha de entrada, longo corredor com quartos dos dois lados, ao final a sala de jantar/cozinha, onde fica a família toda e, só depois, o banheiro -, quando passou pelo quarto onde dormia a tia. Devido ao forte calor a porta estava aberta, e a tia, uma quarentona bem apanhada, dormia descoberta, deixando à mostra o corpo moreno muito bem torneado.
No auge da explosão dos hormônios, o jovem Tadeu não resistiu: entrou no quarto e caiu em cima da tia. Ela acordou assustada e, ao entender o que se passava, deu-lhe a maior bronca:
– O que é isso, menino? Que maluquice! Me respeite! Eu sou sua tia!
Ao que Tadeu respondeu:
– Mãe que fosse!
No dia seguinte, a tia contou a história em família, rindo. Em pouco tempo, toda Santo Amaro sabia do caso. Quando Tadeu passava, gritavam-lhe, para seu desespero:
- Mãe que fosse!
O apelido grudou de tal forma que, dizem, Tadeu Mãe-Que-Fosse teve de mudar-se, nunca mais voltando a Santo Amaro.
[Escrevendo da Bahia]
* Aos leitores portugueses: lembrando que, no Brasil, “apelido” é o mesmo que “alcunha”.
** Imagem daqui
domingo, 28 de março de 2010
Conversa a dois
Imagem de autoria do maravilhoso artista australiano Shaun Tan. O que será que estes dois conversam? me peguei perguntando.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Hoje acordei...6
Hoje acordei…… a deusa Nu Wa.
Arrasto meu corpo
querendo brincar.

Hoje acordei…
… com vontade de voar.

Hoje acordei…
… bolha de sabão.
Ar que flutua na
imaginação.
Hoje acordei…
sapo-cururu.
Inveja da borboleta!
sapo-cururu.
Inveja da borboleta!
*Imagens (de cima para baixo): daqui, daqui (National Geographic), daqui e daqui (National Geographic).
segunda-feira, 22 de março de 2010
Não confio mais no sedex

Há dias tento escrever este texto, mas não consigo. Não sei se devido à minha frustração com o assunto, ao fato de eu chorar toda a vez em que penso nele, à minha profunda sensação de impotência... Vou tentar vencer ...
(O texto continua aqui)
sexta-feira, 19 de março de 2010
Pra começar bem o dia (11)
Neste retorno de viagem, quando ainda não aterrissei completamente – imagens de lá e de cá se confundem em nuvens e estranhos sentimentos–, compartilho com vocês este poema, escrito por um poeta que admiro e sempre leio:
&
Não é sempre que estamos para papos
com anjos: o da espada
auriflamante era só engraçado.
Diz-se que até um anjo
da guarda, ao olhar-se no espelho, caiu
na gargalhada.
Mas se algum anjo bater na sua janela
ou escrever nela alguma algaravia,
não ria: talvez sejam palavras
belas.
Antônio Brasileiro, Pequenos assombros
(Bahia, Edições Cordel: 2001)
*Imagem: Domenico Beccafumi - detalhe de São Miguel caçando os anjos rebeldes, 1528.
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pra começar bem o dia
sexta-feira, 5 de março de 2010
O último dinossauro da Terra
O dinossauro chegou bem devagar
com aqueles olhos mansos
balançando o corpo pesado
cabeçona caída, boca fechada.
De tão encolhido, nem se via o rabo.
Estava muito triste, o dinossauro.
Solitário. Há mais de cinquenta anos
caminhava em seu passo firme e lento
com aqueles olhos mansos
balançando o corpo pesado
cabeçona caída, boca fechada.
De tão encolhido, nem se via o rabo.
Estava muito triste, o dinossauro.
Solitário. Há mais de cinquenta anos
caminhava em seu passo firme e lento
pelas savanas africanas — e nada.
Não encontrara nenhum companheiro.
Nenhum bicho igual a ele.
Descobrira zebras girafas leoas javalis
Não encontrara nenhum companheiro.
Nenhum bicho igual a ele.
Descobrira zebras girafas leoas javalis
que, aborrecido, derrubava com o
dedo mindinho da pata esquerda
— e às vezes, desgostoso,
nem comia.
Tigres camelos mastodontes
— isso sim havia. Jacarés
também. Simpatizou com estes.
Mas jacarés não são dinossauros
não senhor. A verdade crua:
no mundo não existia
um único dinossauro como ele.
Nem unzinho.
Cinquenta anos de solidão nas
savanas africanas é tempo demais,
até para um ser habituado
às durezas da vida um
casca-grossa como ele.
Arrasado0 vazio entristecido
o último dinossauro da Terra
desistiu de viver. Por que habitar
um mundo sem amigos um
dedo mindinho da pata esquerda
— e às vezes, desgostoso,
nem comia.
Tigres camelos mastodontes
— isso sim havia. Jacarés
também. Simpatizou com estes.
Mas jacarés não são dinossauros
não senhor. A verdade crua:
no mundo não existia
um único dinossauro como ele.
Nem unzinho.
Cinquenta anos de solidão nas
savanas africanas é tempo demais,
até para um ser habituado
às durezas da vida um
casca-grossa como ele.
Arrasado0 vazio entristecido
o último dinossauro da Terra
desistiu de viver. Por que habitar
um mundo sem amigos um
mundo onde não havia ninguém
para tocar as estrelas, junto a ele?
O dinossauro deitou-se sobre folhas,
à sombra da mais alta árvore da África.
Encolheu lentamente as patas
largou no chão o pescoço grosso
e fechou para sempre os olhos cansados.
O dinossauro deitou-se sobre folhas,
à sombra da mais alta árvore da África.
Encolheu lentamente as patas
largou no chão o pescoço grosso
e fechou para sempre os olhos cansados.
Virou pássaro.
PS - Amigos, viajo hoje - para o interior, paulista e mineiro. Volto daqui a uma semana, até lá.
terça-feira, 2 de março de 2010
Bicharada, ou os tempos da história

Foram só 80 km até lá, mas meus amigos e eu tivemos a impressão de ter feito uma longuíssima viagem no tempo, rumo è época em que os mitos eram absolutos. O lugar é Boca da Mata, pequena cidade no interior de Alagoas. Ali mora a família de Manoel da Marinheira, hoje com 93 anos, artista popular que criou a arte de esculpir feras, felinos e outros animais em troncos de jaqueira. Ele ensinou o ofício aos 20 filhos, e alguns deles, entre os quais André (de camiseta vermelha na foto de cima), Sebastião e Manoel Filho (de óculos escuros e camiseta azul), seguem sua arte.
Ao chegarmos, surpreendemos Manoel da Marinheira Filho esculpindo na madeira um lobisomem devorando um carneiro. Sua mãe, Nancy (de vestido estampado), alegre e afetiva, logo nos foi contando muitas histórias de lobisomens que, sim, vivem ali mesmo em Boca da Mata (nome apropriado, pensei), e sim, devoram pessoas e depois desviram em gente, e… As histórias se sucediam, contadas pelos membros da família, que nos envolveram a todos naquele mundo afetivo de bichos que existem e bichos que não existem, de frutas e rios, mesclados aos fatos da vida contemporânea – membro da família que migra para São Paulo, retorna e remigra, japonês de São Paulo trazido por um familiar que abre em Boca da Mata, sem sucesso, um restaurante japonês, gente pobre lutando para melhorar de vida... Histórias de vários tempos, em torno da beleza dessa arte única em madeira, que eles criam.
Ao chegarmos, surpreendemos Manoel da Marinheira Filho esculpindo na madeira um lobisomem devorando um carneiro. Sua mãe, Nancy (de vestido estampado), alegre e afetiva, logo nos foi contando muitas histórias de lobisomens que, sim, vivem ali mesmo em Boca da Mata (nome apropriado, pensei), e sim, devoram pessoas e depois desviram em gente, e… As histórias se sucediam, contadas pelos membros da família, que nos envolveram a todos naquele mundo afetivo de bichos que existem e bichos que não existem, de frutas e rios, mesclados aos fatos da vida contemporânea – membro da família que migra para São Paulo, retorna e remigra, japonês de São Paulo trazido por um familiar que abre em Boca da Mata, sem sucesso, um restaurante japonês, gente pobre lutando para melhorar de vida... Histórias de vários tempos, em torno da beleza dessa arte única em madeira, que eles criam.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Hoje acordei...5
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Qualquer coisa que cresce e que transborda

"O cabelo faz da mulher um ser misterioso que carrega na cabeça, na parte do corpo que é mais nítida e mais marcada, uma coisa recebida como um mar e confusa como uma floresta. Está fora do corpo, é uma espécie de jardim privado, onde o dono exerce à vontade sua fantasia e sua desordem. É qualquer coisa que cresce e que transborda como se estivesse livre do domínio da alma."
Gustavo Corção
(Três alqueires e uma vaca, Rio: Ed. Agir, 1961)
(Três alqueires e uma vaca, Rio: Ed. Agir, 1961)
Sou de uma geração que não gosta nem um pouco das idéias de Gustavo Corção, o pensador católico ultraconservador, que defendeu tudo o que nós queríamos mudar: o modelo único da família nuclear, o catolicismo tradicional, a política de direita, a propriedade privada como base da sociedade, a ortodoxia, etc. Isso não me impede de encantar-me com este pequeno trecho de autoria de Corção, achando-o bonito, sensível, original. Como somos todos múltiplos e contaditórios... ainda bem.
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Gustavo Corcão,
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
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