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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Palavras existem para ocultar

Palavras existem para ocultar, para mentir. Narrativa é an­tes de tu­do dissimulação, arte de ilu­dir, má­gi­ca: como diabos conseguiram serrar ao meio a mu­lher -- juro que vi­mos, com es­ses olhos que a ter­ra há de comer! -- , e ela ressur­ge agora à nos­sa fren­te in­tei­ra, re­lu­zente sob ho­lo­fo­tes, o maiôzinho es­car­la­te sal­pi­ca­do de mi­çan­gas ver­de-es­cu­ro? Hein?
Se o truque é revela­do, aca­ba a graça. Talvez por isso tão cir­cuns­pec­tos os cien­tis­tas e pro­fes­so­res uni­ver­si­tá­rios, de quem se espera a dis­se­ca­ção, catalogação e re­ve­la­ção dos se­gre­dos do mundo, a com­pe­ten­te ex­po­si­ção pública de truques varia­dos: os truques da lin­gua­gem, os da so­cie­da­de, os dos ani­mais....
Se­gre­do re­ve­la­do, mun­do desencantado. Fic­ção é mis­tério, tru­que. Entre os vários significados do verbo latino fin­go, estão "fin­gir" e "in­ven­tar".
Narremos, pois. Inventemos.
Sem ilusões de verdade, acreditando no truque.