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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Canção do amor livre

Canção do amor livre

Jacinta Passos

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.


Jacinta Passos [1914-1973], escritora baiana, publicou quatro livros de poemas - Momentos de poesia, Canção da Partida, Poemas políticos e A Coluna – e foi jornalista atuante. Feminista, comunista, internada em sanatórios como louca, enfrentou duros estigmas, com coragem e coerência.
Jacinta Passos é minha mãe. Ando feliz porque, em breve, sairá publicada sua obra completa. Irei dando notícia a vocês. Sua poesia - etérea, improvável, inútil segundo alguns - sua poesia permanece.

*Imagem: Amor e Psyché, de Alberto Canova, daqui