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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Desejos (como todos os dias)



— Pai, afasta de mim a tentação...

Dolores sussura mais uma vez a súplica, apressando o passo em frente à padaria. Não posso vê-lo de novo, não posso, não agüento... Esmaga o dinheiro na mão, procurando fixar o pensamento nas compras do...

[Este texto continua aqui]

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Escrever por prazer

Caricatura daqui


Uns escrevem para se expressar, outros para se suportar, outros para ensinar... Mil são as motivações para escrever. Alguns escrevem para divertir, a si mesmo e aos outros: escrevem por prazer. É o caso de Bernardo Guimarães e Maria Judith Ribeiro, no livro "Morte Abjeta" ...

(Continua aqui)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

As nossas áfricas

(Maracatu final da aula-espetáculo de Ariano Suassuna - de branco, no canto do palco. Foto de Luiz Carlos Figueiredo)

Só pra assistir à abertura já valeu a pena ter ido à Fliporto, a IV Feira Literária de Porto de Galinhas, PE. Consistiu de uma aula-espetáculo do grande escritor Ariano Suassuna, atualmente com 81 anos de idade, que é Secretário de Cultura do Estado. Com inteligência, originalidade, humor imbatível e vitalidade, Ariano conduziu o espetáculo Nau - Sagração nº 2, um passeio...

(O texto continua aqui)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Até breve






Amigos, a partir de quinta, 6 de novembro, até pelo menos domingo à noite, 9 de novembro, estarei ausente daqui. Vou assistir à Fliporto, Feira Literária Internacional de Porto de Galinhas, PE, cujo tema, este ano, me pareceu particularmente interessante: a diáspora africana e o diálogo literário entre África e América Latina. Estarão presentes vários escritores africanos e brasileiros, além de gente que gosta de ler, durante quatro dias reunidos no belo litoral pernambucano. Depois eu conto. Abraços.

sábado, 18 de outubro de 2008

Mais tempo do que eu poderia suportar


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Não quer saber? Então não clicaqui, ora!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Diálogos (im)possíveis 6



[Ainda sobre lobisomens. Num livro on line que escrevi para crianças, intitulado Lobisominho, a cada quinze dias um capítulo ia ao ar. Ao final de cada capítulo, eram feitas perguntas às crianças, para conhecer suas impressões e estimular sugestões sobre o desenrolar da história. Essa experiência de contato direto com os leitores, aliás, foi sensacional. Aprendi muito com as crianças sobre construção de personagens, desenvolvimento de enredos, sobre o que gostam ou não de ler, etc. Aproveitei muitas das suas sugestões, oferecidas sempre com generosidade, entusiasmo e enorme imaginação, livre das limitações adultas.]

No final do primeiro capítulo, perguntei às crianças:
— Você acredita em lobisomem?
Resposta enviada por uma menina de oito anos:
— Eu acredito. Mas eles não existem.
(Ilustração de Fábio Moino para Lobisominho)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Mário Faustino

Quer rever ou conhecer o poeta Mário Faustino?
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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Enredos e tramas

Criei um novo blog, o Enredos e Tramas, com textos de ficção mais compridos, meus e de outros autores. Um blog pra quem gosta e tem tempo de se esparramar pelos livros, textos, palavras, letras, pra quem curte ler e discutir literatura. Se chegue, venha conhecer o blog e Meninas, seu primeiro conto. Para isso, basta clicar aqui [Aprendi! Obrigada, Albano.]

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Coração escarlate

Um segundo antes de a lâmina romper o céu e encobrir para sempre o sol, ainda conseguiu pensar que tudo aquilo era uma tremenda injustiça. Afinal, nada tinha a ver com os malditos conflitos entre muçulmanos e judeus, sendo apenas um turista, atordoado pela beleza milenar de Jerusalém. Foi seu último pensamento. Os nervos explodiram, o pescoço dilacerou-se, na calçada o sangue maculou pela bilionésima vez a terra santa. A dor infinita rasgou-lhe o corpo. Ainda levou a mão à garganta, num derradeiro gesto – inútil como a guerra. O tremor rompeu-lhe os últimos filamentos do pescoço, e então sua cabeça morena, pequena e pontuda começou a rolar ladeira abaixo, distanciando-se do corpo, no alto.
Escutou o que confusamente lhe pareceram repiques de sinos, ou trombetas misturadas a marés, e mergulhou para sempre no outro mundo. Silêncio. Leopoldo sentiu-se pairar no vácuo, ele próprio ou o que restava dele ou a sua essência – não sabia – suspenso acima do mundo. Ao mesmo tempo viu-se dentro do antigo corpo, ensangüentado em solo palestino. Percebeu-se também no interior da cabeça, estraçalhada agora contra um poste, que lhe interrompera a rolagem ladeira abaixo. Os olhos da antiga cabeça estavam arregalados de espanto e medo.
Descobrir-se em tantas dimensões confundia. Não sabendo quem era, Leopoldo deixou-se flutuar no espaço. Não sentia mais dor, só letargia. Teve certeza de que ingressara em outra dimensão quando enxergou a si mesmo – ou ao que um dia fora, ou ao que havia sido e ainda era, ou ... – de uma perspectiva aérea, e divisou lá embaixo, embaralhados entre si, fragmentos de sua vida.

Avistou-se desembarcando sozinho em Jerusalém, o cinqüentão elegante, desenvolto, habituado a circular nas altas rodas do mundo, casaco preto longo, cabelos grisalhos. Mas - de onde estava, Leopoldo agora via – dois buracos trazia por olhos, no coração, mandacarus, e aquele espanto desolado nas mãos. Ombros baixos e boca amarga, a do homem que chegara a Jerusalém.
À época, não sabia a razão da partida repentina, contrariando sócios e clientes, temerosos por sua segurança. Não era judeu nem tinha interesse especial por Israel. Aquela vontade súbita de ir, e pronto: entrara na agência de viagem, comprara a passagem, marcara hotel. Leopoldo agora vê, inscrito a sangue no corpo desembarcado há dias na cidade: saudade da morte.
“Se você está decidido a se destruir, Léo, então realmente eu não posso fazer mais nada”, revê o desespero amoroso no olhar do amigo, o único capaz de intuir sentimentos e desígnios que até ele, Leopoldo, desconhecia.
Sentia um cansaço mortal. De todos e tudo. Muros altos da rua onde morava, desertos que nunca vira. Difícil mover-se. Solidões. Vontade de detonar a ciranda de poder, sedução e dinheiro em que a vida se transformara. Quase enlouquecera o pessoal da agência. Ninguém mais o entendia. Anúncios de néon, hologramas, pop-ups, gigantescas modelos absolutamente iguais em poses para os clics, colunistas, colunáveis... Futilidades. Lixo. Ir pra onde? Procurar o quê? Interferências dos sócios, faniquitos das mulheres, brigas terríveis com todos, no trabalho, em casa, em público. Madrugadas inteiras pelas ruas úmidas de São Paulo, mãos enterradas nos bolsos, cabeça baixa em meio às putas, travestis e mendigos que sequer via, talvez por isso não o molestassem. Fedor. Entulhos. Sede, mas sede de água pura, água de mina.

Saudade insuportável de Helena, que um dia se enchera das suas traições, jogara as roupas na mala e fora embora chorando. Crateras no corpo inteiro. Helena de rosto lavado, Helena descalça, olho no olho, Helena gosto de pitanga com hortelã, cabelos secos ao vento. Helena inteira, corpo de mulher em canção de menina. Ele, mil estilhaços que feriam plantas, luas, fêmeas... Procurando o quê? Não sabia. Caríssimas garotas de programa, alpinistas sociais, portentos de quem devia puxar o saco, ninguém mais tinha nome em sua vida. Rondas de festas, clientes, jantares, fusões, poder, almoços de negócio, trabalho, cocktails, vaidades, traições, dietas, mais trabalho, recepções, disputas, liftings, trabalho insano, jantares de negócio com direito a todas as sacanagens, fortunas, prêmios, seduções. Sua vivacidade esvaindo-se em anúncios, escorrendo em outdoors, em campanhas, em sites, em marketing político... Puta que pariu!

Um dia quisera mais. Um dia sonhara com coisas realmente bonitas. Leopoldo agora admirava pipas colorindo céus, jovens ao redor de uma mesa recheada de risadas e projetos sociais, vontade de mudar o mundo, compromissos... Coisas que valiam a pena, iluminavam semblantes. Cadê Helena? Helena se casou, Helena se mudou. Cantava cirandas com olhos sorridentes. Decerto se escondeu em algum sítio poeirento, plantando chuchu sem agrotóxico. “A cara dela”, pensara com desdém, vontade de sair gritando de dor, enquanto pensava. Mãos vazias. Dois buracos em cada mão, olhos desolados e aquele desespero por onde sua energia escoava, transformada em cartão postal.

Ondas de ar concêntricas envolveram Leopoldo. Encantado, percebeu: o ser alado em que se transformara podia girar de todas as formas, em parafuso, em mergulho, em dobradura, de ponta-cabeça... Ângulos inusitados do mundo lá embaixo, da cidade santa, do seu corpo e cabeça separados em Jerusalém. Deixou-se flutuar, expandindo as novas possibilidades.
Súbito, lembranças muito antigas do seu ser. Leopoldo se viu transportado a um tempo quando flutuava nu, despreocupado, livre, nutrido por um cordão mágico que o estimulava a crescer, a explorar o útero em volta. Uma paz, uma proteção inexistentes nele, desde que fora expulso daquele vácuo primordial.
Sentiu-se puxado para baixo com violência. “Ainda não pertenço inteiramente a este mundo”, foi a sensação ou idéia ou inspiração ou reminiscência que o assaltou, enquanto despencava velozmente rumo ao corpo, desamparado em Jerusalém. Em volta dele, soavam as primeiras sirenas de polícia, passantes fugiam em todas a direções.
Momento quase religioso, o do retorno ao corpo. Pela primeira vez, Leopoldo deu-se conta da sua extrema fragilidade. Cisco no universo, capaz no entanto de carregá-lo e conferir-lhe uma identidade durante toda uma existência “Esse corpo era eu”, sentiu, ondas de amor formando-se à volta.

De repente, foi aspirado para dentro do corpo. Barulhos ensurdecedores de gases, correntezas, fluidos. Assustado, moveu-se instintivamente. Um deslocamento o jogou dentro da cavidade escura, de espessas paredes. Reconheceu aquelas paredes pelo tato e olfato. Tocou e cheirou meticulosamente cada calosidade, ruga, mancha, aspereza, curva, reentrância. Uma, duas, cem vezes. Emocionado, percebeu que eram marcas internas do tempo, calendários do seu corpo.
O buraco fétido aparecera, estava claro agora, quando completara a lucrativa fusão da sua agência com os italianos, deixando à míngua o primeiro sócio. E a ferida que ainda supura parece tão... antiga! Leopoldo enxergou o menino pequeno, rostinho colado à janela, vendo o corpo esguio da mãe, abraçado a um desconhecido, desaparecer para sempre dentro do nevoeiro de São Paulo.
Foi tragado por uma correnteza vermelha, densa, que o conduziu até o lugar mais macio, acolhedor e feliz onde jamais estivera. Enfim relaxado, pôde entregar-se às madressilvas encarnadas, aos sussurros mansos dos rios, aos foles que jamais paravam de tocar, às pétalas aladas sobre a neve, aos desvarios de bocas entreabertas, às curvas dos cachos de crianças, aos arrepios das nucas, à vegetação rarefeita dos cumes das montanhas. Soube-se instantaneamente desejado, perdoado, consolado, aceito - amado.

Do mundo das madressilvas encarnadas, Leopoldo enxergou sua antiga cabeça, espatifada contra um poste de Jerusalém. Amorosamente a envolveu - a ela, que por toda aquela vida o guiara até a fama e a fortuna, mas jamais lhe concedera sequer um segundo de amor, perdão, esperança ou compaixão. Limpou-a com cuidado de todas as sujeiras, da terra e do sangue que nela se haviam grudado, e também do seu excesso de miolos. Beijou-a, fechou-lhe para sempre os olhos e a reuniu ao antigo corpo, recompondo a figura que um dia fora ele.
Nesse momento, Leopoldo divisou a menina palestina que acabava de nascer. Vinha ao mundo num beco escuro da medina, em meio à noite de guerra, horror e mísseis. Era apenas um corpinho nu, chorando sobre a calçada. Leopoldo envolveu a menina em sua onda quente, e nela enterrou seu bem mais precioso, aquele em que acabava de se transmutar, um coração escarlate. Janaína Amado

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Cascas-grossas

Não sei você, mas eu detesto grossura.
E adoro criança.

Cascas-grossas

Lagartixa jacaré

Lagartixa jacaré
rinoceronte

Lagartixa jacaré
rinoceronte
dragão

Lagartixa jacaré
rinoceronte sapo
dragão

Lagartixa jacaré
rinoceronte sapo
tartaruga
dragão

Lagartixa jacaré
rinoceronte sapo
tartaruga
elefante
dragão

Lagartixa jacaré
rinoceronte sapo
tartaruga
elefante besouro
dragão

Será que
debaixo da
casca grossa
eles têm um
coração?


Janaína Amado

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Palavras existem para ocultar

Palavras existem para ocultar, para mentir. Narrativa é an­tes de tu­do dissimulação, arte de ilu­dir, má­gi­ca: como diabos conseguiram serrar ao meio a mu­lher -- juro que vi­mos, com es­ses olhos que a ter­ra há de comer! -- , e ela ressur­ge agora à nos­sa fren­te in­tei­ra, re­lu­zente sob ho­lo­fo­tes, o maiôzinho es­car­la­te sal­pi­ca­do de mi­çan­gas ver­de-es­cu­ro? Hein?
Se o truque é revela­do, aca­ba a graça. Talvez por isso tão cir­cuns­pec­tos os cien­tis­tas e pro­fes­so­res uni­ver­si­tá­rios, de quem se espera a dis­se­ca­ção, catalogação e re­ve­la­ção dos se­gre­dos do mundo, a com­pe­ten­te ex­po­si­ção pública de truques varia­dos: os truques da lin­gua­gem, os da so­cie­da­de, os dos ani­mais....
Se­gre­do re­ve­la­do, mun­do desencantado. Fic­ção é mis­tério, tru­que. Entre os vários significados do verbo latino fin­go, estão "fin­gir" e "in­ven­tar".
Narremos, pois. Inventemos.
Sem ilusões de verdade, acreditando no truque.