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domingo, 18 de abril de 2010

Pra começar bem o dia (12)


Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.


Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre

[Leia trecho de entrevista do grande escritor português Manuel Alegre aqui.]
*Imagem: Brigitte Bouron, Barque sur la Mer

sexta-feira, 19 de março de 2010

Pra começar bem o dia (11)


Neste retorno de viagem, quando ainda não aterrissei completamente – imagens de lá e de cá se confundem em nuvens e estranhos sentimentos–, compartilho com vocês este poema, escrito por um poeta que admiro e sempre leio:

&

Não é sempre que estamos para papos
com anjos: o da espada
auriflamante era só engraçado.

Diz-se que até um anjo
da guarda, ao olhar-se no espelho, caiu
na gargalhada.

Mas se algum anjo bater na sua janela
ou escrever nela alguma algaravia,
não ria: talvez sejam palavras
belas.

Antônio Brasileiro, Pequenos assombros
(Bahia, Edições Cordel: 2001)


*Imagem: Domenico Beccafumi - detalhe de São Miguel caçando os anjos rebeldes, 1528.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Qualquer coisa que cresce e que transborda


"O cabelo faz da mulher um ser misterioso que carrega na cabeça, na parte do corpo que é mais nítida e mais marcada, uma coisa recebida como um mar e confusa como uma floresta. Está fora do corpo, é uma espécie de jardim privado, onde o dono exerce à vontade sua fantasia e sua desordem. É qualquer coisa que cresce e que transborda como se estivesse livre do domínio da alma."

Gustavo Corção
(Três alqueires e uma vaca, Rio: Ed. Agir, 1961)


Sou de uma geração que não gosta nem um pouco das idéias de Gustavo Corção, o pensador católico ultraconservador, que defendeu tudo o que nós queríamos mudar: o modelo único da família nuclear, o catolicismo tradicional, a política de direita, a propriedade privada como base da sociedade, a ortodoxia, etc. Isso não me impede de encantar-me com este pequeno trecho de autoria de Corção, achando-o bonito, sensível, original. Como somos todos múltiplos e contaditórios... ainda bem.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Simpatia é quase amor


O que eu vou dizer em casa? Concentra mais não sai

Bangalafumenga Suvaco de Cristo Fazer o quê

Maluco Beleza (pacientes de um sanatório)

Meu bem, volto já! Já fui bom nisso

Se der certo continua Imprensa que eu gamo

Urubu Cheiroso Eu sou eu e jacaré é bicho d´água

Deixa arder e depois não berra


VIVA OS BLOCOS DE CARNAVAL DE RUA, COM SUA ANARQUIA, SUA ALEGRIA E SEUS NOMES CRIATIVOS!!!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Pra começar bem o dia (10)


Rotação

As horas não ocorrem
ao mesmo tempo
em todos os cantos

Entretanto
cada canto
tem a seu tempo
as mesmas horas

Jorge Cooper

[Cultuado por pequeno grupo de poetas e aficionados da poesia, pouco conhecido ainda do público, Jorge Cooper (1911-1991), poeta alagoano filho de pai inglês, viveu no Rio de Janeiro e em Maceió. É uma das vozes refinadas da poesia brasileira do século XX.]
* Imagem: Salvador Dali, A persistência da memória

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pra começar bem o dia 9

Com a melhora do estado de saúde de meu pai e do jovem André, hoje sou a Alegria, aqui simbolizada neste quadro de Manas Roy. Um bom dia para os meus dois queridos, que se sintam ainda melhor, e para vocês todos também!

domingo, 4 de outubro de 2009

Pra começar bem o dia 8


Amo você
baixinho
assim
com um leve toque
promessa interativa
ilhós
estalagem
garoa

Gizelda Morais
(Rosa no Tempo, S. Paulo, Ed. Scortecci, 2003)
*Imagem daqui

sábado, 1 de agosto de 2009

Domingo - Pra começar bem o dia 6


Filosofia

Hora de comer — comer!

Hora de dormir — dormir!

Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?

— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

Ascenso Ferreira

O pernambucano Ascenso Ferreira (1895-1965) é um dos maiores poetas brasileiros. Com humor, sátira e originalidade, criou versos definitivos a partir de temas populares. É urgente a republicação de sua obra integral.
* Imagem daqui.

sábado, 6 de junho de 2009

Pra começar bem o dia 5



Memória amorosa

Quando ele aparece
bonito e mudo se posta
entre moitas de murici.
Faz alto-verão no corpo,
no tempo dilatado de resinas.
Como quem treina para ver a Deus,
olho a curva do lábio, a testa,
o nariz afrontoso.
Não se despede nunca.
Quando sai não vejo,
extenuada por tamanha abundância:
seus dedos com unhas, inacreditáveis!

Adélia Prado

Não é absolutamente lindo este poema? Surpreendente, original? Gosto muito dele, por isso hoje o compartilho com vocês.

[Adélia Prado. Poesia reunida. S.Paulo: Siciliano, 1991, p. 346.]

terça-feira, 17 de março de 2009

Pra começar bem o dia 4


Caracola

Me han traído una caracola.


Dentro le canta
un mar de mapa.
Mi corazón
se llena de água
com peccecillos
de sombra y plata.


Me han traído una caracola.


(Frederico Garcia Lorca)

Búzio

Trouxeram-me um búzio.


Dentro dele canta
um mar de mapa.
Meu coração
se enche de água
com peixinhos
de sombra e prata.


Trouxeram-me um búzio.

(Tradução de William Agel de Melo)

[Frederico Garcia Lorca, Canciones (Canções), em: Obra Poética Completa. Brasília, Editora da UnB, 1987, 3ª edição, tradução de William Agel de Melo.]
Foto: Paulo Queiroz Ribeiro

terça-feira, 3 de março de 2009

Pra começar bem o dia 3


"Fiz a cama na varanda

Me esqueci do cobertor

Deu o vento na roseira (ai meus cuidados!)

Me cobriu toda de flor"

Texto: "Fiz a cama na varanda", xote, Dilu Mello e Ovídio Chaves, 1944; existem várias versões da letra e da música. Imagem: "A Primavera", de Sandro Botticelli, original na Galleria degli Uffizi, Florença. Porque o vento leva as flores, que passeiam pelo mundo.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pra começar bem o dia

João, João
você filosofa, filosofa,
mas não tem essência.
Você é purinho
plano de imanência.

(Noemi Jaffe, Todas as coisas pequenas. S.Paulo, Hedra, 2005)