
Ultimamente, tenho me envergonhado um bocado do Brasil. Me sinto mal diante da nossa miséria, da nossa absurda concentração de renda e de terras, da nossa corrupção, desta violência cega que nos assola, da falta de respeito aos cidadãos, das colossais carências na educação e saúde públicas, dos nossos crimes contra o meio-ambiente. A lista enorme é do tamanho da minha amargura, vergonha, desconforto, revolta. Não vejo esses problemas como obra específica deste governo ou do anterior, vejo-os como males antigos, que governo nenhum parece tentar ou conseguir resolver.
Contudo, vez por outra sou surpreendida por alguma notícia boa. Aí me dá uma alegria, uma esperança doida de que nem tudo está perdido, de que nosso país tão grande, rico em recursos naturais, com um povo tão criativo, ainda vai resolver ou atenuar alguns de seus problemas básicos.
Ontem, me aconteceu uma dessas experiências realmente boas. Devido a um problema doloroso nos músculos e nervos das mãos e braços, que me obrigou a três pequenas cirurgias no ano passado, busquei atendimento médico na rede sarah de hospitais, em Salvador. Para quem não conhece, trata-se de uma rede nacional de hospitais públicos, com unidades em várias cidades do Brasil, voltada para o tratamento de doenças do aparelho locomotor.
Pois bem: exatamente ao contrário do que costuma acontecer em nossos hospitais públicos, tudo lá funcionou muito bem, ontem. De forma rápida, cortês e eficiente, uma funcionária fez meu cadastro e me orientou a aguardar o horário da consulta. Esperei num local sem nenhum luxo, mas agradável, amplo, arejado e impecavelmente limpo, eu e mais uma grande quantidade de pessoas, a maioria, dava para perceber, gente pobre, do povo, muitos com problemas motores seríssimos.
Aproveitei para conversar com essas pessoas a respeito de suas experiências no hospital. Pasmem, só ouvi elogios: os médicos (muito melhor remunerados do que nos outros serviços públicos do país, portanto, de muito melhor nível, no conjunto) são ótimos, competentes e compreensivos; as consultas, sessões de fisioterapia e cirurgias começam no horário marcado, ou com pequeno atraso. Ouvi frases assim: “Estou me sentindo muito melhor do que quando o tratamento começou”; “Eu já fiz cirurgia, agora estou fazendo fisioterapia”; “Fiquei internada, depois de um tempo voltava pra casa nos fins de semana, agora venho aqui três vezes por semana, e, a partir do próximo mês, só uma vez por semana – eu não andava, voltei a andar”; “Quebrei 32 ossos num acidente terrível, agora estou quase inteiro”; “O hospital empresta pra gente cadeira de rodas, muleta, andador, cama especial, o que precisar, depois a gente devolve”. Minha própria experiência ontem foi excelente: como paciente, me senti bem cuidada e orientada; como ser humano, me senti respeitada.
Acreditem: tudo isso é gratuito. Gratuito, não, pois, como escrito no site da rede sarah, a instituição “tem como objetivo retornar o imposto pago por qualquer cidadão, prestando-lhe assistência médica qualificada e gratuita, formando e qualificando profissionais de saúde, desenvolvendo pesquisa científica e gerando tecnologia.”
Não sei se a qualidade que encontrei ontem é a mesma todos os dias, em todas as unidades do sarah, para todas as pessoas. Só sei que, ontem, minha esperança no país reacendeu. Se foi possível conseguir tanto em um lugar específico, será possível conseguir a mesma qualidade e eficiência em outros lugares, atividades, setores. Pela primeira vez em muito tempo, senti orgulho do nosso Brasil. Êta sentimento bom!
*Imagem daqui