Amigos, viajo, daí o silêncio por aqui. Estou em
Goiânia, Planalto Central. Sou do litoral, nasci em Salvador, fui criada no Rio de J
aneiro, moro hoje em
Maceió, me chamo
Janaína, sou de
Oxum e adoro o mar. Sou água, sou mar, pro mar quero voltar, litorânea.
Vivi no entanto vários anos neste Planalto Central, em
Goiânia e em Brasília. O céu mais lindo do Brasil. E um planalto tão imenso e plano que, quando morava aqui, sentia, meio perdida: no final desta planura tem de ter mar, tem de ter. Andava em
direção ao horizonte, andava, andava, corria de carro... Mas mar? Nunca tinha, não
sinhô. O mar mais perto está a mil e quinhentos quilômetros daqui.
O que o Planato Central tem é este céu escandalosamente largo, muita terra, este espaço vasto que tonteia a gente. E cerrado. Cerrado tinhoso: árvores retorcidas,
baixinhas, que insistem em crescer na terra ácida (hoje corrigida, para o plantio da soja). Cerrado espantosamente pobre, pra quem, como eu, veio do litoral. Cerrado espantosamente rico, descobri com o tempo, que só concorda em revelar aos poucos, e mesmo assim muito devagar, os seus segredos infindos, cerrado de descobertas: bichos, pássaros,
estranhíssimos cupins, tons de terracota, de amarelo, laranja,
marrom. E estes
ipês, amarelos e vermelhos, de repente,
desavergonhadamente iluminando o nada, a vida.
O cerrado é meu interior, descobri ontem aqui sob a lua, durante este retorno. Por fora sou mar, por dentro, cerrado. Mar de cerrado.
Até a volta, ainda esta semana.