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sábado, 1 de maio de 2010

Maceió, cidade-poesia


No último dia 29, a capital de Alagoas foi envolvida pela poesia. Iniciativa do Projeto Papel no Varal, que já vem acontecendo há um ano na cidade. A idéia é simples, por isso mesmo funciona: folhas de papel com poemas – de diversos autores e épocas – são penduradas em cordas, à moda de varais, para as pessoas lerem. Até agora, os varais poéticos ficavam no local onde iria acontecer o evento – restaurante, livraria, casa de cultura, parque etc. No dia marcado, as pessoas ali se reuniam, e quem quisesse pegava no varal o poema que desejasse, e o lia para os outros. Alguns eventos foram temáticos: erótico, infantil, etc. Sucesso total.

Desta vez, o acontecimento se espalhou pela cidade inteira, virou intervenção urbana, com o mote “Poesia de todo canto, poesia pra todo mundo”. Foram preparados muitos varais, quem quisesse pegava o seu em local indicado e o pendurava onde quisesse, para a população ter acesso a eles. Houve colaboração de escolas, grupos de teatro, grupos de bicicleta, poetas, faculdades, atores, lojas, os jovens aderirindo em massa… Eu me senti orgulhosa de morar em Maceió.

O assunto ganhou matéria no Bom-Dia Brasil e no Estadão. O Papel do Varal é coordenado pelo poeta, engenheiro e professor Ricardo Cabús; a coordenação desta Intervenção Urbana foi de Tayra Macedo. Fotos de Alice Jardim.


Bicicletas e poemas


 Parada de ônibus poética.


Poemas em locais improváveis....

Vídeo aqui

terça-feira, 2 de março de 2010

Bicharada, ou os tempos da história




Foram só 80 km até lá, mas meus amigos e eu tivemos a impressão de ter feito uma longuíssima viagem no tempo, rumo è época em que os mitos eram absolutos. O lugar é Boca da Mata, pequena cidade no interior de Alagoas. Ali mora a família de Manoel da Marinheira, hoje com 93 anos, artista popular que criou a arte de esculpir feras, felinos e outros animais em troncos de jaqueira. Ele ensinou o ofício aos 20 filhos, e alguns deles, entre os quais André (de camiseta vermelha na foto de cima), Sebastião e Manoel Filho (de óculos escuros e camiseta azul), seguem sua arte.
Ao chegarmos, surpreendemos Manoel da Marinheira Filho esculpindo na madeira um lobisomem devorando um carneiro. Sua mãe, Nancy (de vestido estampado), alegre e afetiva, logo nos foi contando muitas histórias de lobisomens que, sim, vivem ali mesmo em Boca da Mata (nome apropriado, pensei), e sim, devoram pessoas e depois desviram em gente, e… As histórias se sucediam, contadas pelos membros da família, que nos envolveram a todos naquele mundo afetivo de bichos que existem e bichos que não existem, de frutas e rios, mesclados aos fatos da vida contemporânea – membro da família que migra para São Paulo, retorna e remigra, japonês de São Paulo trazido por um familiar que abre em Boca da Mata, sem sucesso, um restaurante japonês, gente pobre lutando para melhorar de vida... Histórias de vários tempos, em torno da beleza dessa arte única em madeira, que eles criam.


Manoel da Marinheira, o inventor de tudo, já velhinho, recebe o carinho dos bisnetos.

Na saída da cidade, no Balneário Águas de São Bento, uma bela fazenda, está exposta a coleção particular de Jorge Tenório, industrial nascido em Boca da Mata, contendo peças de Manoel da Marinheira, de seus filhos e discípulos. Pasmem: catalogada, bem cuidada e aberta ao público, a coleção tem mais de 850 peças! É uma bicharada sem fim, uma beleza de arte deste Brasil quase desconhecido.


Sala dos bichos deitados.

Os bichos são variados!



Olhem só esta porca e seus porquinhos. Há também jacarés, pássaros, elefantes... o que couber na imaginação.


Sala dos móveis : mesas , bancos de jardim que mais parecem tronos, belezas sem fim.
* Fotos: Luiz Carlos Figueiredo

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A nova habitante da casa






Desde ontem habita nosso apartamento esta simpática leoa. Foi feita pelas mãos de Ivanilson, de um tronco de jaqueira. Ivanilson aprendeu seu ofício com mestre Manuel da Marinheira, hoje com 92 anos, natural de Boca da Mata, interior de Alagoas. Manuel da Marinheira passou à família e à gente próxima a ele, habitantes de Boca da Mata, sua grande habilidade em esculpir, principalmente animais, aqueles que ele conhece – como tatus e calangos –, e aqueles de que apenas ouviu falar em histórias, como leões, tigres e leoas. Seus descendentes (como o filho André da Marinheira) continuam o belo artesanato, que já virou tradição.
Minha leoa, comprada na Artnor, em Maceió, ainda não tem nome. Aceitam-se sugestões.
* Fotos de Luiz Carlos Figueiredo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A arte de Tânia Pedrosa


A alagoana Tânia de Maya Pedrosa não sabia que nasceu artista. Certo dia, casada e mãe de filhos, obedecendo a um impulso comprou tintas e tela, e começou a pintar. Escondido. Ninguém na família sabia. Sentia vergonha dos quadros que produzia, achava que não tinham valor algum. Queria só expressar seus sentimentos.

Certa ocasião, recebeu, como hóspede da família, o alemão Ludger Stockman, formado em Artes. Ao ver entreaberta a porta de um depósito nos fundos da casa, Stockman ali entrou, deparando-se com os quadros de Tânia. O crítico alemão adorou a pintura colorida, criativa, original, garantindo a Tânia que ela era, sim, artista, e das grandes. Ela, porém, não acreditou muito: em 1998, incentivada por Antônio Nascimento, enviou dois quadros para a Bienal Naïf do Brasil, mas nada disse à família, pois achava que jamais seriam selecionados; contou só ao amigo, cúmplice e também artista Lula Nogueira. Qual não foi a sua surpresa, quando se descobriu não apenas aceita na Bienal, mas com um de seus quadros como capa do catálogo, e detentora do prêmio de pintura.

A carreira de Tânia de Maya Pedrosa deslanchou, na Europa e no Brasil. Ela não mais parou de pintar, ganhando diversos prêmios internacionais (como o Prêmio Europa de Arte Primitiva, entre outros) e brasileiros. O magnífico quadro a óleo que ilustra este post, expressando o imaginário do litoral e sertão nordestinos, é de sua autoria. Clique aqui para conhecer um pouco mais sobre a artista.

Tânia de Maya Pedrosa sempre incentivou os artistas populares de seu Estado. Não apenas escreveu livros sobre eles, como possui uma extraordinária coleção de arte primitiva nordestina, em especial alagoana, que precisa com urgência merecer espaço público adequado, onde possa ser admirada pelos que amam arte.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Terra molhada





Não pude deixar de me deslumbrar. Depois de atravessar um jardim de cheiro bom, cheguei a uma sala simples, bonita. Senti imediatamente paz. As luzes e sombras das luminárias da artista traziam certo mistério ao ambiente. Mesmo com pessoas falando, ouvi silêncio. Nada ali se oferecia, era preciso ir descobrindo aos poucos os incensários, castiçais, pinturas, azulejos, esculturas, os pormenores no chão, teto, paredes... De repente, tive a sensação de que o tempo parara, seduzido talvez pelo mais remoto dos materiais, o barro, de que são feitas quase todas as peças da artista. Às vezes, o barro é combinado com limalha de ferro, rendas, tecidos, o que surpreende e agrada aos sentidos. Invenção e delicadeza, tradição e beleza, coerência e criatividade — lugar de arte.

Falo do atelier Terra Molhada, em Maceió, onde a artista Hilda cria e expõe suas obras. As fotos, de Luiz Carlos Figueiredo, dão uma idéia da produção atual da artista. Para conhecer o trabalho de Hilda, ligue (82) 9321.0441, para marcar uma visita.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Graciliano


Fico contente quando vejo iniciativas culturais importantes. Ontem, fiquei. Na terra de Graciliano Ramos, Alagoas, foi lançada Graciliano, revista de cultura e ciência destinada ao público universitário e àqueles que desejam mais informações e pontos de vista sobre os assuntos tratados. Dirigida pelo historiador e sociólogo Luiz Sávio de Almeida, com visual moderno e atrativo criado por Fernando Rizzotto, com artigos assinados por especialistas, porém escritos em linguagem clara, atraente, a revista é uma publicação da Imprensa Oficial, presidida por Marcos Kümmer e atualmente subordinada à Secretaria de Planejamento e Orçamento, sob a batuta do secretário Sérgio Moreira. Bom ver o dinheiro retornar à sociedade em forma de cultura, multiplicador de conhecimentos.
O primeiro número é inteiramente dedicado a Graciliano Ramos. O segundo será sobre teatro. Vida longa à revista, muitos e muitos gracilianos!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O lobisomem de Viçosa






















(Fotos: Luiz Carlos Figueiredo)

Adoro lobisomens. O principal personagem masculino de meu romance Dandara é um faiscador que, nas noites de lua cheia dos meses de trinta dias, se transforma em lobisomem. Escrevi um livro para crianças, intitulado... Lobisominho. Jamais duvidei da existência desses seres enigmáticos que incendeiam nossas imaginações, confrontando-nos com nossos medos e instintos básicos. Lobisomens estão por aí há séculos, já foram vistos por milhares — bem, talvez centenas — de pessoas. Entre elas, meu filho Bernardo, aos três anos de idade, e meu sogro Deodato, ótimo pescador, que me fizeram relatos detalhados, saborosíssimos, de seus encontros com lobisomens. Há quem desacredite do relato de crianças e pescadores, mas é evidente que esses incréus nada sabem da vida.
Ainda recentemente, conheci um novo lobisomem. Foi na cidade de Viçosa, interior de Alagoas (já notaram que lobisomens não nascem em litorais? Vai ver, têm medo d´ água), quando visitávamos a movimentada feira de sábado, capitaneados pelo poeta Sidney Wanderley, conhecedor de tudo e todos em sua terra natal. Nos deliciávamos com a profusão de cores, odores, sabores, entre queijos, jacas, cocos, melancias, macaxeiras — nada se compara a uma feira de sábado no interior do Nordeste —, quando Sidney cumprimenta vivamente um passante e o faz parar , nos dizendo: “Este é meu amigo José Neto, pintor de profissão. Ele conhece o lobisomem de Viçosa.”
Então acontece bem ali à nossa frente o milagre, epifania. Zé Neto, pacífico avô a fazer compras na feira, de repente se transforma no lobisomem que descreve e conhece tão bem. Não é mais ele quem está ali, em sua camiseta escrita em inglês e enormes óculos escuros, mas um aterrador, enlouquecido lobisomem que em noites de lua cheia sai dos becos para assombrar os moradores da cidade, imenso, peludo, dentes pontiagudos, assim ó, garras à mostra, arfante, dono de um urro ouvido até em Capela, até em Mar Vermelho tem gente que escuta o urro deste lobisomem esfomeado, pelos da cara espetados, focinho tremendo, sempre pronto a atacar as pessoas, a morder, a estraçalhar... Uma noite ele correu atrás da mãe, queria comer a própria mãe! Sim, todos aqui sabem quem é este perigoso lobisomem: umpobre que gosta de ficar vagando sozinho, à noite. Não, ele não concorda que seja o lobisomem, mas ninguém acredita nele, afinal todo mundo aqui já viu...
A platéia cresce, crianças se aproximam para ouvir Zé Neto. O poeta Sidney se empolga, ao recordar o medo que o menino Sidney sentia do monstro. Por um breve tempo, ele também se transmuta em lobisomem.
Desse encontro ancestral saio encantada. Prometo voltar, pois Zé Neto informa que em Viçosa vive também uma lobismulher.
[Pra comprovar a veracidade do relato, aí vão as fotos: Zé Neto/lobisomem mostrando as garras; lobisomem em posição ereta; lobisomem com a pata fechada; a platéia aumenta; o poeta também conta sua história; vista parcial de Viçosa: em qual dessas casas habita o terrível lobisomem?]

sábado, 27 de setembro de 2008

Roda de leitura







(Fotos de Luiz Carlos Figueiredo)
Hoje me emocionei, ao visitar um atelier de ceramistas na pequena cidade de Capela, interior de Alagoas. Capitaneado pelo excelente João das Alagoas, que começa a ganhar algum destaque na mídia nacional, o atelier atualmente reúne seis artistas, que trabalham tanto sozinhos quanto em conjunto. Gente do povo, gente talentosa que luta contra dificuldades de toda sorte para exercer sua arte.
Aproximei-me de uma das ceramistas, Maria Luciene da Silva Siqueira, a Sil, muito concentrada no trabalho. Examinando a peça que ela esculpia, percebi tratar-se de uma cena doméstica: uma casa pobre, um grupo de pessoas reunido à frente da casa, dois cachorros deitados no chão, gente na janela... Espere!
"Quem é essa figura central aqui, o que ela tá fazendo?", perguntei à Sil.
"Ah, essa é a contadora de histórias. Isso aqui é uma roda de leitura, ela está lendo pra sua família."
Não é de emocionar? Tanta gente reclamando do declínio de leitores no Brasil, e a Sil esculpindo roda de leitura em Capela.
Vejam como é bonita a obra da Sil. As fotos são: a artista junto à sua peça, ainda inacabada; o conjunto da roda de leitura; e um close, para vocês verem como as pessoas que participam da roda estão adorando ouvir histórias, estão felizes.
Tanta gente reclamando da baixa vendagem de livros, e a Sil esculpindo roda de leitura em Capela.
Quem quiser falar com a Sil, ligue para (82) 9991-5250.