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quinta-feira, 26 de março de 2009

Para Marcus, Nilson e todos - Confissões

Quando eu era pequena, vivia perguntando pros adultos: “Você gosta de mim?” A grande maioria dizia que sim, mas isso não me bastava. Eu insistia: “Mas quanto você gosta de mim?” Perguntava também à professora, aos pais, tios, amigos de família: “Você gosta mais de mim ou de Sicraninha/Fulaninho?”
Eu também achava que, se alguém não vinha ao meu aniversário ou não me levava pra passear conforme prometera, não era porque não pôde, estava doente/ocupado etc (essas coisas nem me passavam pela cabeça), mas por que... não gostava de mim! Quando ouvi pela primeira vez “Ninguém me ama, ninguém me quer”, de Dolores Duran, me identifiquei imediatamente. Aquilo era eu!
[Aqui deveria entrar uma retumbante gravação do You Tube, da Nora Ney cantando a música da Dolores, mas não consegui trazer o vídeo pra cá... Alguém me ensina, pelamordedeus?]

Cresci. Amadureci emocionalmente. Amei, amo, sou amada, muita gente gosta de mim, alguma gente não gosta, muita gente gosta de mim mas não de tudo o que faço/digo/escrevo, eu gosto de muuuuuuita gente, eu não gosto de alguma gente, eu gosto de muita gente mas não gosto de tudo o que esta gente muito amada faz/diz/escreve... e me sinto confortável com tudo isso, acho natural. O aprendizado e a vivência do amor, nas suas faces e travessuras, me trouxeram conhecimento e conforto. Hoje, sei e sinto que sou amada e apreciada, e que amo e admiro muito gente. Mas tem horas... Ih, tem horas em que aquela menininha viva, sapeca, olhar atento, cabelo curto, aquela menina reaparece inteirinha. Ela desmonta todos os meus aprendizados e certezas afetivas. Intromete-se de repente nos meus papos, nos meus escritos, pra perguntar, sem mais nem menos : “Por que ela não gosta de mim? Por que ele não me visita? Por que ela/ele visita mais Sicrana/Sicrano do que eu? Por quê?"
[Acho que os amigos baianos já devem ter percebido: isso tudo tem relação com o comentário que a minha menininha fez no blag do Nilson, a respeito do Marcus Gusmão. Desculpem, Nilson e Licuri! A idéia era só acompanhar a brincadeira geral, mas aí a menininha pulou no meio e.... e.... ]

[Aqui deveria entrar outra gravação do You Tube, da mesmo "Ninguém me Ama", cantada agora por Fernando Lobo]
*A menininha, aos 4 anos

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Canção do amor livre

Canção do amor livre

Jacinta Passos

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.


Jacinta Passos [1914-1973], escritora baiana, publicou quatro livros de poemas - Momentos de poesia, Canção da Partida, Poemas políticos e A Coluna – e foi jornalista atuante. Feminista, comunista, internada em sanatórios como louca, enfrentou duros estigmas, com coragem e coerência.
Jacinta Passos é minha mãe. Ando feliz porque, em breve, sairá publicada sua obra completa. Irei dando notícia a vocês. Sua poesia - etérea, improvável, inútil segundo alguns - sua poesia permanece.

*Imagem: Amor e Psyché, de Alberto Canova, daqui

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Como eu soube que ela me amava


Eu só senti que ela me amava aos dez anos de idade. Minha mãe chegou ao Rio de supetão, sem avisar ninguém. Ao saber que eu decidira pular a quinta série, e em breve prestaria exame de admissão ao ginásio, arregaçou as mangas, colocando seu lado professora em ação. Passou a me dar aulas todas as tardes, na sala do apartamento onde eu morava com papai. Foi excelente professora: metódica, paciente, clara, exigente. Ensinava principalmente matemática, sua especialidade, justo a matéria em que eu era mais fraca. Lembro-me com muito prazer dessas nossas aulas. Eu gostava de estudar, e ela, de ensinar. Em volta da grande mesa preta, junto à janela da sala, nós duas fomos nos conhecendo melhor, começando a nos admirar, nos reencontrando.

Fiz os exames escritos. Junto com os outros candidatos, certo dia compareci ao colégio. Todas as crianças em fila, a diretora começou a ler os nomes dos aprovados, que deveriam passar ao segundo andar, para os exames orais. De jeito nenhum eu queria ficar ali, no meio dos reprovados, cidadã de segunda classe, escória do mundo! Demorou uma vida pra diretora chegar ao “J” e chamar meu nome.

Deixei a fila toda orgulhosa, os pesados sapatos pretos batendo no cimento do chão, plaft, plaft. Ali, no primeiro degrau da escada, encostada na parede, de repente eu a vi. Até perdi a respiração, de tanta surpresa, confusão, descoberta.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

Foi a única vez em que vi minha mãe chorar.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Mário Faustino

Quer rever ou conhecer o poeta Mário Faustino?
Então clicaqui!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Nunca se casaram


Nunca se casaram. Quando se conheceram, no trabalho, ela era recém separada, se arrepiava só de pensar em casamento. Ele, jovem rebelde com causa, também não fazia questão nenhuma. Gringo recém desembarcado, tonto com os violentos sabores e a bagunça brasileira, apaixonou-se de cara pela morena séria e linda, linda como jamais vira uma, oclinhos de aro fino, bloco na mão a secretariar os diretores da empresa, e uma ginga e um perfume e uma pele completamente lisa que o enlouqueciam.
Deixava-se ficar depois do expediente só pra terem uma chance de conversar, mas ela era difícil, não dava papo. Foi salvo por um comentário distraído, “Tenho de aperfeiçoar meu inglês, a empresa vai entrar agora numa área que não conheço”. Mais que depressa lhe ofereceu a aula de inglês mais barata da cidade, e ainda topou chegar ao trabalho mais cedo, no único horário livre dela.

Aula prá cá, aula prá lá, ela também caiu de amores pelo gringo aventureiro e bem-humorado, dono de um português arrevesado mas carinhoso, o único pra quem sua filha pequena corria rindo, braços abertos antecipando o abraço. Abandonou por uns tempos seriedade, equilíbrio, responsabilidade, pesos que desde pequena carregava nos ombros, como sina. Com ele saltou de pára-quedas, escalou montanhas, matou dia de trabalho, fez trilhas em matas, tomou banho de mar sob a lua, nua. Quando ele recebeu uma proposta de trabalho em outra cidade, foram morar juntos. Mas não se casaram, nem mesmo quando nasceu a filha.

Então ele começou a beber. No início socialmente, um chopp aqui, um whisky ali, depois dois, três copos, cinco, oito, vinte. Apaixonou-se pela cachaça, experimentando todas. A seguir já bebia sozinho noite adentro, em casa primeiro, depois solitário pelas ruas. Voltava de manhã, sujo, rasgado, sem dinheiro e sem estima. Quase morreu, em dois acidentes que provocou. Perdeu tudo: emprego, bens, ela, as filhas, alegria virou vergonha, culpa. Buraco. Um dia, decidiu voltar para seu país. Colocou tudo o que possuía numa mochila e foi ao encontro da mãe, velha e quase cega, que não via há anos.

Sozinha, duas filhas para terminar de criar, ela se valeu da responsabilidade, seriedade, organização, coragem e capacidade de trabalho que nunca a haviam abandonado. Foi em frente. Tocou a vida, pagando as contas, orientando as filhas, um caso amoroso aqui, outro ali – continuava linda –, no coração um vazio danado. Ele ligava com frequência, interessado nela, nas meninas, perguntando dos amigos, contando vagamente de sua vida, estava sendo importante voltar às origens... Ainda não podia ajudá-las financeiramente, ganhava o mínimo. Às vezes, ele falava enrolado – e ela sabia o cheiro do álcool pelo telefone.
Num aniversário da filha, ele apareceu de surpresa. Passou uma semana com elas. A convivência foi muito boa. “Parece até que a alegria voltou aqui pra casa”, ela se pegou devaneando no jardim. Mas se crispou ao ouvir o portão bater duro lá fora: começava mais uma rodada noturna dele. No ano seguinte, ela e as filhas foram visitá-lo, afinal as meninas sentiam muita falta dele. Não bebeu naqueles dias, ao menos que ela visse.
No Natal, recebeu de presente uma passagem, para encontrá-lo na Espanha, lugar especial na história deles. Foi sob os arcos romanos de Segóvia que voltaram a fazer amor, cada um sentindo de novo aquele gosto inconfundível na boca, na alma. A partir daí passaram a viajar juntos uma vez por ano, pelo Brasil e exterior, dependendo das finanças dele, às vezes em companhia das filhas. Ele continuava bebendo, embora menos. Procurava se controlar, mas um belo dia largava tudo e saía sozinho na noite rumo ao seu inferno pessoal. Como se viam só por uma semana, um mês no máximo, e como esses dias eram em geral deliciosos, ela suportava. Só não queria viver junto, muito menos se casar. As amigas invejavam: “Esse é o casamento ideal!”.

Ele esteve presente em todas as datas importantes da família. A cada vez deixava um pouco mais de coisas, pois sabia que voltaria em breve. Quando a filha resolveu se casar, tomou a decisão: retornou de vez ao Brasil, não queria ver o futuro neto crescer longe. Ela concordou com uma permanência curta dele na casa, até que se ajeitasse em algum outro lugar. A permanência foi se estendendo, ficando longa, longa... E ela não podia deixar de sentir como era bom acordar ao lado dele.

A última vez em que bebeu foi num aniversário da filha. Teve ajuda médica para isso, mas antes também tivera, e não adiantara. Não bebe há quase dois anos. A casa deles voltou a ser alegre. Ela se permite de novo ser um pouco irresponsável, mais leve, cabeça de vez em quando nas nuvens, na música... Ele, mais equilibrado, sabendo do que precisa, recuperou trabalho e bom humor.
Eu disse "nunca se casaram"? Pois se casaram há pouco, quando souberam que ganhariam um neto. Acharam que, afinal, não ficava bem se tornarem avós solteiros...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Diálogos (im)possíveis 5

(Foto publicada originalmente aqui)
Diálogo na sombra

– Que dissestes, meu bem?
– Esse gosto.
Donde será que ele vem?
Corpo mortal.
Águas marinhas.
Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.
— De quem falas amor, do mar ou de mim?

[Jacinta Passos, Canção da Partida. S.Paulo: Edições Gaveta, 1945. Este livro será reeditado em breve]

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Diálogos (im)possíveis 4

(Foto: Floresta européia onde Pedro Lobisomem nasceu)
O diálogo (im)possível de hoje está aqui.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Diálogos (Im)possíveis

[Após a história do imigrante japonês aí embaixo, fiquei pensando: muitos diálogos começam impossíveis, mas podem se tornar possíveis. Os imigrantes japoneses não chegaram por baixo e incompreendidos a um mundo que também não compreendiam, e hoje estão aí, brasileiros como todos nós? Outros diálogos até começam bem, porém se tornam impossíveis... Assim, a série iniciada como “Diálogos Impossíveis” passa daqui pra frente a se chamar “Diálogos (Im)possíveis”. Ficará a seu cargo decidir qual dos dois.]

— Você me ama?
— Não.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Y se ama como se come


Ama-se como se come, diz o ditado.
Minha irmã acha que o marido se apaixonou por ela ao vê-la comer uma maniçoba, deliciosa iguaria de carne de porco misturada às folhas tenras, trituradas, da mandioca. É provável: meu cunhado, ótimo cozinheiro, afeiçoa-se às morcelas, tripas, cozidos e pães da deliciosa e pesada culinária portuguesa. Minha irmã, com graça, diz que o marido acharia sexualmente desanimador ver uma mulher jantar apenas uma folhinha de alface. Ele tem razão: comer só uma folha de alface sugere mania de regime, portanto mulher excessivamente vaidosa, intolerante, triste, com tendência à anorexia, desprovida das carnes, molhos e generosidades indispensáveis ao bom sexo.
Mas, e eu, como fico nessa história de amores e comidas? Adoro saladas! No universo da exaltação das maniçobas e que tais, minha reputação amorosa, assim como a de todos os outros amantes da salada, seria atirada ao limbo? Metida em brios, faço uma apaixonada defesa das possibilidades eróticas das saladas.
Duvida? Então, comece misturando amorosamente, bem devagar, prestando atenção ao que faz, os lindos tons e subtons verdes das folhas ao vermelho-paixão da beterraba, ao alaranjado-coração da cenoura, à malícia do tomate, às azeitonas – que, antes de mordidas, devem ser saboreadas vagarosamente por toda a boca -, sem se esquecer, claro, dos picantes pimentões. Sinta o aroma inconfundível do manjericão, que, mesclado ao do orégano, fará você se perguntar onde diabos já sentiu aqueles cheiros maravilhosos, em qual jardim, qual alcova, qual marinha...
Antes de saber a resposta, você já estará acrescentando as uvas, que não embriagam mas conduzem certamente ao mundo excitante dos vinhos e suas semi-verdades. Ao final, derrame em tudo bastante azeite da melhor qualidade – o método deve variar, de uma só vez só, ou gota a gota, bem devagarinho. Não se esqueça de envolver toda a salada no azeite, para que fique bem molhadinha, com aquele inconfundível ar mediterrâneo. Polvilhe finalmente sal, porque sem sal a vida não tem graça.
O melhor de tudo: ao final, você se sentirá leve, leve, absolutamente em forma para qualquer exercício do amor, bem ao contrário do que aconteceria após uma maniçoba...

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Coração escarlate

Um segundo antes de a lâmina romper o céu e encobrir para sempre o sol, ainda conseguiu pensar que tudo aquilo era uma tremenda injustiça. Afinal, nada tinha a ver com os malditos conflitos entre muçulmanos e judeus, sendo apenas um turista, atordoado pela beleza milenar de Jerusalém. Foi seu último pensamento. Os nervos explodiram, o pescoço dilacerou-se, na calçada o sangue maculou pela bilionésima vez a terra santa. A dor infinita rasgou-lhe o corpo. Ainda levou a mão à garganta, num derradeiro gesto – inútil como a guerra. O tremor rompeu-lhe os últimos filamentos do pescoço, e então sua cabeça morena, pequena e pontuda começou a rolar ladeira abaixo, distanciando-se do corpo, no alto.
Escutou o que confusamente lhe pareceram repiques de sinos, ou trombetas misturadas a marés, e mergulhou para sempre no outro mundo. Silêncio. Leopoldo sentiu-se pairar no vácuo, ele próprio ou o que restava dele ou a sua essência – não sabia – suspenso acima do mundo. Ao mesmo tempo viu-se dentro do antigo corpo, ensangüentado em solo palestino. Percebeu-se também no interior da cabeça, estraçalhada agora contra um poste, que lhe interrompera a rolagem ladeira abaixo. Os olhos da antiga cabeça estavam arregalados de espanto e medo.
Descobrir-se em tantas dimensões confundia. Não sabendo quem era, Leopoldo deixou-se flutuar no espaço. Não sentia mais dor, só letargia. Teve certeza de que ingressara em outra dimensão quando enxergou a si mesmo – ou ao que um dia fora, ou ao que havia sido e ainda era, ou ... – de uma perspectiva aérea, e divisou lá embaixo, embaralhados entre si, fragmentos de sua vida.

Avistou-se desembarcando sozinho em Jerusalém, o cinqüentão elegante, desenvolto, habituado a circular nas altas rodas do mundo, casaco preto longo, cabelos grisalhos. Mas - de onde estava, Leopoldo agora via – dois buracos trazia por olhos, no coração, mandacarus, e aquele espanto desolado nas mãos. Ombros baixos e boca amarga, a do homem que chegara a Jerusalém.
À época, não sabia a razão da partida repentina, contrariando sócios e clientes, temerosos por sua segurança. Não era judeu nem tinha interesse especial por Israel. Aquela vontade súbita de ir, e pronto: entrara na agência de viagem, comprara a passagem, marcara hotel. Leopoldo agora vê, inscrito a sangue no corpo desembarcado há dias na cidade: saudade da morte.
“Se você está decidido a se destruir, Léo, então realmente eu não posso fazer mais nada”, revê o desespero amoroso no olhar do amigo, o único capaz de intuir sentimentos e desígnios que até ele, Leopoldo, desconhecia.
Sentia um cansaço mortal. De todos e tudo. Muros altos da rua onde morava, desertos que nunca vira. Difícil mover-se. Solidões. Vontade de detonar a ciranda de poder, sedução e dinheiro em que a vida se transformara. Quase enlouquecera o pessoal da agência. Ninguém mais o entendia. Anúncios de néon, hologramas, pop-ups, gigantescas modelos absolutamente iguais em poses para os clics, colunistas, colunáveis... Futilidades. Lixo. Ir pra onde? Procurar o quê? Interferências dos sócios, faniquitos das mulheres, brigas terríveis com todos, no trabalho, em casa, em público. Madrugadas inteiras pelas ruas úmidas de São Paulo, mãos enterradas nos bolsos, cabeça baixa em meio às putas, travestis e mendigos que sequer via, talvez por isso não o molestassem. Fedor. Entulhos. Sede, mas sede de água pura, água de mina.

Saudade insuportável de Helena, que um dia se enchera das suas traições, jogara as roupas na mala e fora embora chorando. Crateras no corpo inteiro. Helena de rosto lavado, Helena descalça, olho no olho, Helena gosto de pitanga com hortelã, cabelos secos ao vento. Helena inteira, corpo de mulher em canção de menina. Ele, mil estilhaços que feriam plantas, luas, fêmeas... Procurando o quê? Não sabia. Caríssimas garotas de programa, alpinistas sociais, portentos de quem devia puxar o saco, ninguém mais tinha nome em sua vida. Rondas de festas, clientes, jantares, fusões, poder, almoços de negócio, trabalho, cocktails, vaidades, traições, dietas, mais trabalho, recepções, disputas, liftings, trabalho insano, jantares de negócio com direito a todas as sacanagens, fortunas, prêmios, seduções. Sua vivacidade esvaindo-se em anúncios, escorrendo em outdoors, em campanhas, em sites, em marketing político... Puta que pariu!

Um dia quisera mais. Um dia sonhara com coisas realmente bonitas. Leopoldo agora admirava pipas colorindo céus, jovens ao redor de uma mesa recheada de risadas e projetos sociais, vontade de mudar o mundo, compromissos... Coisas que valiam a pena, iluminavam semblantes. Cadê Helena? Helena se casou, Helena se mudou. Cantava cirandas com olhos sorridentes. Decerto se escondeu em algum sítio poeirento, plantando chuchu sem agrotóxico. “A cara dela”, pensara com desdém, vontade de sair gritando de dor, enquanto pensava. Mãos vazias. Dois buracos em cada mão, olhos desolados e aquele desespero por onde sua energia escoava, transformada em cartão postal.

Ondas de ar concêntricas envolveram Leopoldo. Encantado, percebeu: o ser alado em que se transformara podia girar de todas as formas, em parafuso, em mergulho, em dobradura, de ponta-cabeça... Ângulos inusitados do mundo lá embaixo, da cidade santa, do seu corpo e cabeça separados em Jerusalém. Deixou-se flutuar, expandindo as novas possibilidades.
Súbito, lembranças muito antigas do seu ser. Leopoldo se viu transportado a um tempo quando flutuava nu, despreocupado, livre, nutrido por um cordão mágico que o estimulava a crescer, a explorar o útero em volta. Uma paz, uma proteção inexistentes nele, desde que fora expulso daquele vácuo primordial.
Sentiu-se puxado para baixo com violência. “Ainda não pertenço inteiramente a este mundo”, foi a sensação ou idéia ou inspiração ou reminiscência que o assaltou, enquanto despencava velozmente rumo ao corpo, desamparado em Jerusalém. Em volta dele, soavam as primeiras sirenas de polícia, passantes fugiam em todas a direções.
Momento quase religioso, o do retorno ao corpo. Pela primeira vez, Leopoldo deu-se conta da sua extrema fragilidade. Cisco no universo, capaz no entanto de carregá-lo e conferir-lhe uma identidade durante toda uma existência “Esse corpo era eu”, sentiu, ondas de amor formando-se à volta.

De repente, foi aspirado para dentro do corpo. Barulhos ensurdecedores de gases, correntezas, fluidos. Assustado, moveu-se instintivamente. Um deslocamento o jogou dentro da cavidade escura, de espessas paredes. Reconheceu aquelas paredes pelo tato e olfato. Tocou e cheirou meticulosamente cada calosidade, ruga, mancha, aspereza, curva, reentrância. Uma, duas, cem vezes. Emocionado, percebeu que eram marcas internas do tempo, calendários do seu corpo.
O buraco fétido aparecera, estava claro agora, quando completara a lucrativa fusão da sua agência com os italianos, deixando à míngua o primeiro sócio. E a ferida que ainda supura parece tão... antiga! Leopoldo enxergou o menino pequeno, rostinho colado à janela, vendo o corpo esguio da mãe, abraçado a um desconhecido, desaparecer para sempre dentro do nevoeiro de São Paulo.
Foi tragado por uma correnteza vermelha, densa, que o conduziu até o lugar mais macio, acolhedor e feliz onde jamais estivera. Enfim relaxado, pôde entregar-se às madressilvas encarnadas, aos sussurros mansos dos rios, aos foles que jamais paravam de tocar, às pétalas aladas sobre a neve, aos desvarios de bocas entreabertas, às curvas dos cachos de crianças, aos arrepios das nucas, à vegetação rarefeita dos cumes das montanhas. Soube-se instantaneamente desejado, perdoado, consolado, aceito - amado.

Do mundo das madressilvas encarnadas, Leopoldo enxergou sua antiga cabeça, espatifada contra um poste de Jerusalém. Amorosamente a envolveu - a ela, que por toda aquela vida o guiara até a fama e a fortuna, mas jamais lhe concedera sequer um segundo de amor, perdão, esperança ou compaixão. Limpou-a com cuidado de todas as sujeiras, da terra e do sangue que nela se haviam grudado, e também do seu excesso de miolos. Beijou-a, fechou-lhe para sempre os olhos e a reuniu ao antigo corpo, recompondo a figura que um dia fora ele.
Nesse momento, Leopoldo divisou a menina palestina que acabava de nascer. Vinha ao mundo num beco escuro da medina, em meio à noite de guerra, horror e mísseis. Era apenas um corpinho nu, chorando sobre a calçada. Leopoldo envolveu a menina em sua onda quente, e nela enterrou seu bem mais precioso, aquele em que acabava de se transmutar, um coração escarlate. Janaína Amado

sábado, 30 de agosto de 2008

Olhos verdes


A mãe dela dizia sempre: “Os olhos dele são verdes”, mas ela sabia que não. “São pretos, tá me ouvindo? Eu é que sei”, respondia, naquela irritação típica de adolescente com mãe. Às vezes pensava: “Os olhos pretos dele são como rochas, que suportam o mar, o mundo. Me protegem. Com os olhos pretos dele, nunca vou afundar na vida”.
Encontraram-se ainda muito jovens, ela quase menina, ele pouco mais velho, estudante universitário. Paixão. Descoberta da vida, adivinhação do sexo (que não fizeram, ela prometera à mãe, os tempos eram outros), conversas íntimas, sonhos de casamento, afinal os pais aprovavam, tudo nos conformes, previsível, como os pretos olhos dele.
Deu tudo errado.
Ela buscou outros chãos, curiosa aventurou-se pelo mundo, sôfrega de emoções, conhecimento, felicidade. Afundou, reergueu-se para novos mergulhos, píncaros e vales, no meio um longo casamento que deixou lembranças difíceis mas filhas lindas. Mudanças, recomeços, vitórias, realizações profissionais, pessoais. E também aquela persistente insatisfação, aquela busca que não parava nunca de pedir, de exigir dela que procurasse, que insistisse, que não desistisse. Não sabia bem o quê, do quê. E como não sabia, não encontrava. Ficava só aquele oco, o sentimento da falta.
Ele seguiu seu caminho longe, dedicou-se seriamente à carreira, chegou ao ápice ali. Casamento também longo e infeliz, também filhos lindos. E uma tristeza... que não passava. Em frente ao mar da sua cidade, muitas vezes se perguntou por onde ela andaria, em que outros mares navegava – e o que via era só horizonte vazio. Uma tristeza que nunca o deixava.
Reencontraram-se há pouco, quarenta anos depois. Tudo de repente fez sentido. Redescoberta da vida, do sexo selvagem e manso como só os experientes sabem. Quanta história pra contar! Agora caminham os dois por aí de mãos dadas, felizes, felizes. Só querem saber de namorar, nada de casamento formal. E ela descobriu que os olhos dele são, sim, verdes. Como relvas, que não agüentam o mundo mas onde ela pode se deitar, rolar, afundar no prazer, na alegria, relaxar -- enfim se aconchegar.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Barack Obama: um caso de amor

Tenho um caso de amor assumido com Barack Obama desde o segundo semestre do ano passado. Nada poderia me deixar mais feliz e esperançosa do a sua indicação para candidato democrata à presidência dos Estados Unidos. Não se enganem: ele pode mudar os rumos do seu país e, por tabela, do mundo.
Voltarei ao assunto.