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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Diálogos (im)possíveis 17





com o que é que a gente sonha antes de morrer
biblia Raquel mostra os peitos
hostilizo meus ocos
documento de abandono de tratamento ortodontico
cacete do fred flintstones
homem bate a cabeça e abre ao meio em concreto ao tentar um
quanto uma mulher tem que medir de peito
como chegar humilhar com estilo menina xingando menino
quando morreu Milor Fernandes
arcadesenho da garça engolindo o sapo e o sapo apertando o p
contos de xoxota da tia
acordei as 4 horas
cursos de costura industrial

Não, (ainda) não enlouqueci. As frases acima são palavras-chave, keywords que leitores desavisados registraram no google e, sabe-se lá Deus por que, os conduziram até meus blogs. Acontece com vocês também?

*Imagem daqui

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Diálogos (im)possíveis 16


[Diálogo verídico, relembrado hoje, em conversa gostosa com minha prima Paloma.]
A costureira da família ia sempre lá em casa, consertar roupas, trocar zíperes, alargar e encompridar nossas roupas de crianças que cresciam. Quitéria era baixa, gorda, suada, tinha por olhos dois pequenos traços, que sumiam quando se ria, mostrando os dentes estragados. Nós a achávamos muito velha, mas devia andar pela casa dos 40 e poucos anos. Um dia, avisou à minha tia:
— Amanhã eu não posso vir. A minha filha, que eu não vejo faz quase 15 anos, está chegando do Recife. Eu vou buscar ela.
O tio, que passava por ali e ouviu a conversa, perguntou, gaiato:
— Quitéria, então você tem uma filha? E eu, que pensei que você fosse virgem!
Ela respondeu na bucha, rindo, os olhinhos sumidos:
— Seu Jorge, e eu lá tenho paciência pra isso?
*Imagem trazida daqui.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Diálogos (im)possíveis 15

[Este foi verídico, aconteceu em Salvador, Bahia – e onde mais poderia ter acontecido? Só os nomes foram trocados:]

A senhora entrou no táxi, disse o endereço. O taxista deu partida no carro, olhou com cuidado a passageira pelo retrovisor, e perguntou, com um sorriso:
— Dona Amélia, a senhora não está me reconhecendo?
Ela viu por trás a cabeça raspada do jovem, o pescoço grosso, braços fortes ao volante...

— Meu filho, não estou reconhecendo, não. Desculpe, estou velha, não enxergo mais direito, a memória falha…

— Pois eu sou o Neto, filho da Maria, que trabalhou na sua casa!

— Claro, meu filho, agora me lembro! Nunca lhe esqueci! Mas como é que eu podia lhe reconhecer, se a última vez em que lhe vi você era um menino? Tinha o quê, uns 12 anos? Pois é! Que coisa boa lhe rever, que moço bonito você ficou! E como vai sua mãe?

A partir daí desenvolveu-se entre os dois intenso e amistoso diálogo. Neto havia passado a infância na casa de dona Amélia, até os doze anos de idade, quando sua mãe decidira voltar para o interior, e ele a acompanhou. Mais tarde resolvera tentar a vida em Salvador, ralara um bocado até virar taxista, agora estava casado, com dois filhos… Já dona Amélia enviuvara, seus filhos haviam se formado e se casado, ela tinha netos e até uma bisneta… A conversa ia longe, muito animada, um contando pro outro as novidades, quando o táxi chegou ao destino.
— Meu filho, sempre que quiser, apareça, quero conhecer sua família. E diga a sua mãe para, quando vier a Salvador, vir me visitar. Quanto foi a corrida, Neto?
E o Neto, voz calorosa:

— Ora, dona Amélia, vá tomar no cu! E eu lá vou cobrar corrida da senhora?

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Diálogos (im)possíveis 14


Recém-casada e muito jovem, eu desejava fazer da minha casa no Rio uma cópia da casa de meus pais. Como havia ganho de presente de casamento uma dessas sinetas de mesa, desejei usá-la, para chamar a empregada, à hora de servir e tirar a mesa (ai que vergonha, não sei como estou tendo coragem de contar isso no blog). A pessoa que trabalhava lá em casa era Maria, uma pernambucana recém chegada do alto sertão, em seu primeiro emprego como doméstica. Expliquei a ela que, toda a vez em que ouvisse a sineta, era porque eu a estava chamando à mesa. Certo dia, escuto um barulho altíssimo na cozinha. Corro para lá e, ao chegar, avisto Maria balançando freneticamente a sineta.

— Maria, que maluquice é esta?

— Ué, a senhora não disse que a sineta era pra chamar? Tô lhe chamando!

(Pano rápido. A sineta é jogada no lixo e jamais substuída.)

sábado, 21 de março de 2009

Diálogos (im)possíveis 13


— Ele tem três meses de vida.
— Quem, o bebê?
— Não. O velho.

[Imagem daqui]

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Diálogos (im)possíveis 12


— Aquele ali é teu pai?
— Não, é o segundo marido da minha mãe.
— Sei. E a que está com a mão no queixo, é tua mãe?
— Aquela? Não, não — aquela é a filha mais velha do meu antigo padrasto.
— Tua mãe, cadê?
— É aquela lá atrás, a que está carregando o neném.
— Estou vendo! Bonita, a tua mãe. O neném que ela carrega é teu irmão?
— É, sim, mas não do jeito que você pensa. O neném é filho do meu pai com a terceira mulher dele, aquela que está do outro lado da sala, brincando com minha única irmã por parte de mãe. As outras crianças, em volta dela, são primos dos meus primos, que também considero meus primos.
— !
— Ué, de repente você ficou mudo!
— É que estou achando a minha família tão sem graça...
[Pequenina explicação, só porque o assunto deu o que falar aqui: o parênteses do título indica que esses diálogos (im)possíveis podem ou não existir ou ter existido, dependendo do diálogo - isto é, de quem falou -, e dos leitores - isto é de quem ouviu, rs. Tudo, assim, é possível, como tudo é impossível: depende. Sempre acreditando no truque, he he ... ]
* Imagem daqui

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

sábado, 13 de dezembro de 2008

Diálogos (im)possíveis 10


[Este diálogo foi encontrado não por mim, mas pelo Mariano, do ótimo blog A Peneira do Rato. Foi escrito por Dostoievski. Refere-se a um de meus assuntos prediletos:]

Stavrogin:
— ...no Apocalipse, os anjos juram que o tempo não mais existirá.
Kirillov:
— Sei disso.É uma verdade indiscutível, afirmada com toda clareza e exatidão. Quando a humanidade alcançar a felicidade, não existirá mais o tempo, pois dele não mais se terá necessidade. Perfeitamente verdadeiro.
Stavrogin:
— Onde vão colocá-lo, então?
Kirillov:
— Não vão colocá-lo em lugar nenhum. O tempo não é uma coisa, é uma idéia. Ele morrerá na mente.

(Dostoievski, Fiodor. Os Demônios. São Paulo: Editora 34, 2004. Em edição e tradução anterior brasileira, este mesmo livro havia sido intitulado Os Possessos]

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Diálogos (im)possíveis 9

[Tenho 21 anos, estou recém casada no Rio de Janeiro. De repente Elza, a empregada, sai gritando apartamento afora, braços pra cima, agitadíssima. Logo começa a bater a cabeça na parede, com força. Elza não responde às minhas perguntas, dando a impressão de que sequer me ouve ou vê. Cada vez mais agressiva, espatifa copos no chão e esmurra os vidros das janelas.
Apavorada, sozinha com ela no apartamento, me tranco num quarto e ligo para o Instituto Pinel, hospital para doentes mentais próximo ao meu prédio. Peço que mandem com urgência enfermeiros, para buscar uma pessoa que está em surto.
Dez minutos depois, toca a campainha. Elza, que se debate na cozinha, ao ouvir a campainha imediatamente se posta ao meu lado. Quando abro a porta do apartamento, estamos nós duas juntas, de pé, frente a dois fortíssimos homens de branco e uma maca.]


— Quem é a pessoa pra ser levada ao Pinel? – pergunta um dos enfermeiros.
— Ela! –Elza e eu respondemos ao mesmo tempo, uma apontando a outra.

[Juro que aconteceu].

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Diálogos (im)possíveis 8

(Imagem daqui)
— Qual é a sua ilha?
—Santa Catarina.
— E a sua?
— Itamaracá.
— A sua?
— São Luiz.
— A minha é Ilha Bela.
— Pois a minha é a ilha-do-faz-de-conta, entre o sertão e o mar, a que tem chão de esteira, búzios sem conta e cabelos ao vento, ilha-de-dentro, ilha-mar, onde Judas não perdeu as botas nem o gato comeu a língua, ilhéu, ilhaminha, ilhatua, lua de mar, caramujos, ilhotinha, ilhão — Ítaca, Itacaré, Itacarezinho, terra dos jacarés, nossilha, nonossa, tuilha, trilha, trilhas conduzem ao vulcão de fogo que não queima, cheiro de pão quente saído indagorinha do forno, espirais, brisa, brasas, labareda, água, casa e maresia, algumas cabras, estandarte, biscoitos de polvilho doce, muita imaginação e louvor.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Diálogos (im)possíveis 7

[Minha mãe era comunista, defensora ardorosa das idéias do PCB. Meu pai também, embora tenha se desligado do Partidão em 1957. Informações sobre as maravilhas do mundo comunista eram comuns na minha família desde que eu me entendi por gente. As bonecas russas de madeira que saíam uma de dentro da outra, ao lado de fotos e distintivos da Cortina de Ferro, misturavam-se às minhas bonecas brasileiras de pano.
Minha mãe tratou logo de reforçar esses ensinamentos, durante as aulas que me deu para o exame de admissão ao ginásio (relatadas no último post). Ela aproveitou bem o tempo para concluir a doutrinação da filha.
Na prova oral de geografia, aconteceu o seguinte diálogo:]



— Diga o nome de três países europeus com suas capitais, ordenou o professor.
— União Soviética/ Moscou, Tchecoslováquia/Praga, Polônia/Varsóvia, respondi na bucha, sem pestanejar.

Ainda hoje me lembro da expressão surpresa do professor Almir, seguida de um sorrisinho, cabeça baixa. Acho que ele era simpatizante...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Diálogos (im)possíveis 6



[Ainda sobre lobisomens. Num livro on line que escrevi para crianças, intitulado Lobisominho, a cada quinze dias um capítulo ia ao ar. Ao final de cada capítulo, eram feitas perguntas às crianças, para conhecer suas impressões e estimular sugestões sobre o desenrolar da história. Essa experiência de contato direto com os leitores, aliás, foi sensacional. Aprendi muito com as crianças sobre construção de personagens, desenvolvimento de enredos, sobre o que gostam ou não de ler, etc. Aproveitei muitas das suas sugestões, oferecidas sempre com generosidade, entusiasmo e enorme imaginação, livre das limitações adultas.]

No final do primeiro capítulo, perguntei às crianças:
— Você acredita em lobisomem?
Resposta enviada por uma menina de oito anos:
— Eu acredito. Mas eles não existem.
(Ilustração de Fábio Moino para Lobisominho)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Diálogos (im)possíveis 5

(Foto publicada originalmente aqui)
Diálogo na sombra

– Que dissestes, meu bem?
– Esse gosto.
Donde será que ele vem?
Corpo mortal.
Águas marinhas.
Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.
— De quem falas amor, do mar ou de mim?

[Jacinta Passos, Canção da Partida. S.Paulo: Edições Gaveta, 1945. Este livro será reeditado em breve]

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Diálogos (im)possíveis 4

(Foto: Floresta européia onde Pedro Lobisomem nasceu)
O diálogo (im)possível de hoje está aqui.

domingo, 21 de setembro de 2008

Diálogos (im)possíveis 3


O Sol pergunta pra Lua:
— Por que foges de mim?
Muito espantada, responde a Lua:
— Fugir? Mas se tudo o que eu quero é alcançar você!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Diálogos (Im)possíveis 2


Numa pequena cidade da costa leste dos Estados Unidos, um americano chega para assistir a uma apresentação da orquestra local. O teatro está vazio. O americano se dá conta de que chegou uma hora antes do espetáculo. Abre a porta do auditório e se acomoda na fila do meio, para esperar o início da apresentação.
Minutos depois, chega um chinês que mora nas redondezas. Constatando que não há ninguém por ali, vê a porta do auditório aberta, vai até lá e enxerga o solitário americano. Silenciosamente, o chinês caminha até o americano e senta ao seu lado.
— Mas que diabos, com tanto lugar vazio, este chinês vem sentar justo ao meu lado! – pensa o americano, profundamente incomodado.
O chinês passeia os olhos pelo auditório, pensando, também profundamente incomodado:
— Como é triste uma sala vazia!

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Diálogos (Im)possíveis

[Após a história do imigrante japonês aí embaixo, fiquei pensando: muitos diálogos começam impossíveis, mas podem se tornar possíveis. Os imigrantes japoneses não chegaram por baixo e incompreendidos a um mundo que também não compreendiam, e hoje estão aí, brasileiros como todos nós? Outros diálogos até começam bem, porém se tornam impossíveis... Assim, a série iniciada como “Diálogos Impossíveis” passa daqui pra frente a se chamar “Diálogos (Im)possíveis”. Ficará a seu cargo decidir qual dos dois.]

— Você me ama?
— Não.

sábado, 13 de setembro de 2008

Diálogos impossíveis


[Neste ano em que se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil, esta pequena história, verídica, ouvida há poucos dias no interior de São Paulo, é dos primeiros anos dos japoneses aqui. Ela dá uma idéia da distância abissal entre os dois mundos que então começavam a se tocar:]

O japonês desembarcou em Santos. Na alfândega, o fiscal implicou:
— O que é isto que você traz aí? – apontou para um pacote no colo do outro.
O japonês não entendeu a pergunta, mas entendeu o dedo apontado do fiscal. Agarrou seu pacote com força.
— Você não pode entrar sem eu saber o que tem nesse pacote. Anda, abre!
Assustadíssimo, sem emitir um som o japonês agarrou-se ainda mais ao pacote.
O fiscal perdeu a paciência: rasgou o papel, abriu a tampa de uma espécie de vaso, enfiou o dedo lá dentro, colocou o dedo na boca e, não reconhecendo o gosto, decidiu:
— Você não sai daqui enquanto eu não souber o que é isto! E mandou o auxiliar buscar o único sujeito na cidade que entendia japonês.
Tempos depois, chegou o intérprete.
— Pergunta pra esse japonês idiota o que é que ele está trazendo aí!
Resposta do intérprete:
— Ele disse que são os restos mortais do pai...