quinta-feira, 11 de junho de 2009

Colo


Têm dias, sabe, em que me sinto completamente sozinha no mundo. Tô fazendo alguma coisa — passeando, por exemplo, ou estudando —, aí me bate uma solidão absoluta, como se ninguém existisse no planeta, apenas eu, perdida entre as altas dunas amarelas de um deserto ...

[Continua aqui]

terça-feira, 9 de junho de 2009

Tarô pessoal, carta 3


O outro
Imagine você me conhecendo, olhando meu olho, bem dentro, bem fundo. Imagine o susto, o
grande susto do abismo. Um passo em falso na escada, você me vendo. Um lance de dados, jogado completamente ao acaso. Palavras que somem, pernas tropeçando no escuro, e o muro, o grande muro. Imagine o absurdo: alguém sem forma sair do limbo. Para quê? Tal coisa só se pergunta ao Destino. De preferência em silêncio.
Aeronauta

Feche os olhos. Concentre-se bem. Sinta seu coração. Escute seus batimentos, entenda o que eles estão lhe dizendo. Agora pergunte ao Destino, em silêncio: quem é este outro que eu faço tudo para ignorar e destruir, mas insiste em viver, em me ver, em me olhar bem dentro do meu olho? Ele me liberta ou me sufoca?

[A primeira parte (até “De preferência em silêncio.”) foi copiada do blog aeronauta, do post “em silêncio”, com concordância da autora, a quem agradeço. Acho um texto lindo, como outros de aeronauta, esta que vive entre nuvens e segredos. A segunda parte (“Concentre-se... sufoca?”) foi escrita por mim, e serve ao tarô pessoal, minha trajetória de vivências e descobertas que estou construindo e partilhando
com vocês. Falando nisso: quem é mesmo esse outro que te habita?]


* Imagem: theyxas, photobucket.

domingo, 7 de junho de 2009

Quinquilharias




Em toda parte do mundo há estas lojas entupidas de quinquilharias, bugigangas, tralhas, pequenos e variados objetos de pouco valor... adoro!
Na minha ignorância, pensei que a palavra "quinquilharia" — acho-a engraçada, me lembra sons de guizos, de pulseiras de metal batendo umas nas outras — fosse nossa, mas vejo que veio do francês. E "bugiganga"... do espanhol. No mundo inteiro juntamos (e vendemos) quinquilharias, ainda bem...

* Foto que tirei na pequenina cidade de Uzès, Provence, França. Aos sábados, durante a feira que ocupa as suas ruas, Uzès inteira recende a alfazema, a ervas, a pão quente, a queijos de cabra e aos pequenos mistérios do cotidiano, garimpados nas conversas dos compadres.

sábado, 6 de junho de 2009

Pra começar bem o dia 5



Memória amorosa

Quando ele aparece
bonito e mudo se posta
entre moitas de murici.
Faz alto-verão no corpo,
no tempo dilatado de resinas.
Como quem treina para ver a Deus,
olho a curva do lábio, a testa,
o nariz afrontoso.
Não se despede nunca.
Quando sai não vejo,
extenuada por tamanha abundância:
seus dedos com unhas, inacreditáveis!

Adélia Prado

Não é absolutamente lindo este poema? Surpreendente, original? Gosto muito dele, por isso hoje o compartilho com vocês.

[Adélia Prado. Poesia reunida. S.Paulo: Siciliano, 1991, p. 346.]

terça-feira, 2 de junho de 2009

Mulher do peito de grama



Meu peito é meu
medidor de sentimentos
esta ferida imensa ferida
custa a cicatrizar

Mas hoje está
hoje está
nascendo grama em meu peito

Fecho os olhos na cama
me cobre um negro céu de estrelas
ah!
mulher do peito de grama

Janaína Amado
[Este blog está me deixando inteiramente incauta, insensata, desmiolada: além de andar cometendo poemas, ainda os posto aqui!]
* Imagem: Marc Chagall, detalhe de vitral, Museu Chagall, Nice, França

sábado, 30 de maio de 2009

Sertão



Se eu soubesse que chorando
Empato a tua viagem
Meus olhos eram dois rios
Que não te davam passagem


Cabelos pretos anelados
Olhos castanhos delicados
Quem não ama a cor morena
Morre cego e não vê nada

Letra e música de Antônio dos Santos, o Volta Seca, cangaceiro do bando de Lampião. Adoro estes versos, principalmente a primeira estrofe.
Escute aqui a gravação original, cantada pelo próprio Volta Seca. Para saber mais sobre essa beleza de disco , clique em Cantigas de Lampeão.

Aqui, você ouve "Acorda Maria Bonita", bem mais animada, cantada também por Volta Seca:



Hoje acordei sertaneja. Inspirada talvez pela literatura de Herberto Salles, de que tanto gosto, talvez por fotos de sertanejas que andei vendo. E porque, para além da geografia, sertão faz parte do imaginário da gente brasileira, lugar íntimo, relicário, origem, princípio e fim, tempo remoto, futuro, raiz e flor aonde precisamos e gostamos de vez em quando de voltar.
Acordei sertaneja.

*Imagem daqui

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Terra molhada





Não pude deixar de me deslumbrar. Depois de atravessar um jardim de cheiro bom, cheguei a uma sala simples, bonita. Senti imediatamente paz. As luzes e sombras das luminárias da artista traziam certo mistério ao ambiente. Mesmo com pessoas falando, ouvi silêncio. Nada ali se oferecia, era preciso ir descobrindo aos poucos os incensários, castiçais, pinturas, azulejos, esculturas, os pormenores no chão, teto, paredes... De repente, tive a sensação de que o tempo parara, seduzido talvez pelo mais remoto dos materiais, o barro, de que são feitas quase todas as peças da artista. Às vezes, o barro é combinado com limalha de ferro, rendas, tecidos, o que surpreende e agrada aos sentidos. Invenção e delicadeza, tradição e beleza, coerência e criatividade — lugar de arte.

Falo do atelier Terra Molhada, em Maceió, onde a artista Hilda cria e expõe suas obras. As fotos, de Luiz Carlos Figueiredo, dão uma idéia da produção atual da artista. Para conhecer o trabalho de Hilda, ligue (82) 9321.0441, para marcar uma visita.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Tocando a vida


Não eram lembranças. Não havia nomes, personagens, enredos, histórias, nada que ela pudesse identificar.
Eram lampejos. Raios que irrompiam de repente em sua vida, dentro da escola, no banho, lavando louça, no trabalho, onde estivesse surgiam e sumiam aqueles clarões, estilhaços, sem que...
[O texto continua aqui]

terça-feira, 19 de maio de 2009

Nos passos de Van Gogh



Meu marido e eu somos apaixonados por Van Gogh. Nesta última viagem, visitamos o Monastere Saint-Paul de Mausole, em Saint-Rémy de Provence, França, o sanatório para onde Van Gogh voluntariamente se dirigiu, e onde ficou internado durante um ano, de maio de 1889 a maio de 1890.
Tudo ali é tocante. Afastado da cidade, próximo a um sítio arqueológico romano (Glanum), o prédio do sanatório parece emergir de outro tempo. As grossas, gastas paredes encobrem sofrimento. Uma larga escadaria leva ao segundo andar, onde ficava o quarto de Van Gogh: como o outro, o mais famoso, aquele de Arles que ele pintou com uma cama e uma pequena cadeira de palha ao lado, este quarto também é pequeno, apertado, pobre. Uma cama de ferro, uma pequena janela para a horta e o jardim dos fundos, uma mesinha estreita, não há lugar para mais. Junto à porta, uma fotografia antiga denuncia o mesmo quarto mais próximo do que teria sido à época em que o pintor o habitava: paredes descascadas, a cama de ferro dura, hospitalar.
Sinto opressão. O que sentiria o artista, tomado pelas dores das suas próprias alucinações? Sentiria frio? Provavelmente não, já que era um homem do norte da Europa... eu divago. Mas devia sentir frio na alma! E uma solidão completa, absoluta, aqui perdido dentro de si mesmo e da incompreensão de todos os que o cercavam, loucos e sãos. De algum modo, contudo, conseguia arrancar de si perspectivas, cores, pontos de fuga, tintas com as quais construiu, a partir daquele cenário, alguns dos mais belos quadros da humanidade.
No “roteiro Van Gogh” que o sanatório/museu atual criou, vemos, junto à paisagem que quase não se modificou, os quadros que Van Gogh pintou dela. Comparando quadro e paisagem, percebemos que as pinturas são infinitamente mais intensas, coloridas, intrigantes, dramáticas, doloridas, como a paisagem não consegue ser. E sentimos então toda a magia da arte.

domingo, 17 de maio de 2009

Miseravelmente derrotada pelo teclado francês!



Amigos, amigas, juro que a minha intenção era ótima: ir registrando aqui no blog, à medida que aconteciam, experiências e impressões da viagem maravilhosa que estava fazendo a Portugal e à França, em abril. Até que comecei bem, postando as primeiras sensações de Lisboa, aquela vertigem de se reconhecer no país do outro. Ao chegar à França, ainda postei um pequeno texto.
Até ser completamente derrotada pelo mais letal inimigo dos interneteiros: o teclado francês (azerty), muito — muuuito — diferente do teclado que usamos. Francês gosta de ser original, eu sei — mas precisava criar um teclado diferente do que o resto do mundo usa? Nos cibercafés, eu teclava “Estou no sanatório de Saint Rémy, onde Van Gogh se internou voluntariamente...”, e aparecia na tela algo como “Erwwg nh swnwyu...”. Demorava tanto tempo para eu corrigir o texto, ou para tentar escrevê-lo corretamente — tempo pago em euros —, que logo desisti. Além disso, não é em todo lugar, como aqui, que havia cibercafés. Eles eram raros no sul da França — pasmem!
Assim que cheguei ao Brasil, tive de me submeter a uma cirurgia, que me imobilizou a mão esquerda. Ainda não tirei os pontos, mas já consigo teclar estas bem traçadas linhas (pois no teclado internacional he he), pra ir matando as saudades de vocês. Prometo recuperar o tempo perdido, não à maneira de Proust, mas à minha mesmo: relendo os textos atuais e antigos dos blogs amigos e postando frequentemente. Beijos!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Por ai

Amigos, o queijo, o vinho, o champagne e tantas outras coisas deste pais sao uma maravilha, mas o teclado eh uma merda. Assim, este pequeno texto segue sem acentos mesmo. Eh uma pequena nota escrita na pequena cidade de Villefranche-sur-mer, ao lado de Nice, no sul da Franca, por onde ando agora. Ciber cafes sao raros por aqui (frances nao eh muito chegado a tecnologias), e com este teclado fica impossivel escrever muito, entao quero lhes dizer so isto: este pequeno porto do Mediterraneo me lembra pinturas - nao por acaso artistas como Matisse, Leger, Chagall e outros se sentiram atraidos pela luz e beleza do lugar -, e as altas montanhas, coladas aqui atras, incrustradas de pequenos vilarejos medievais murados, me lembram historias, de uma historia muito antiga. E nao sei por que hoje me deu uma nostalgia danada do Brasil. E - sei por que - saudades de voces todos.
(Vai sem imagem hoje, porque o computador do ciber cafe nao permite colar nada. Mas quem se interessar, procure p.f. Villefranche-sur-mer no google, peca imagens, e veja que gracinha de tirar o folego eh isto aqui)

sábado, 4 de abril de 2009

Reconhecimentos


Nesta cidade me perco e me reencontro a cada esquina, para novamente perder-me. Conheço estes becos que dão em outros becos, que sobem por ruas estreitas ao cimo de cada uma de suas sete colinas, conheço este castelo a espreitar-me lá do alto, majestoso, as paredes azulejadas de azul sobre ouro, e carmim e verde com motivos do século XVII. Ah, conheço as águas deste rio-mar que define a ceidade, assim como o burburinho do seu pequeno comércio de portas estreitas e muitos artigos expostos, a irritação dos seus velhos, o caos do seu trânsito. Conheço também a nova juventude - diferente da antiga, pois esta nova afina-se com as útimas idéias e modas e gostos da Europa -, assim como os gigantescos shopping centers, as novas estações de metro, as sofisticações que antes não havia. Tudo, novo e antigo, envolto pelo aroma inconfundível das castanhas, dos azeites, do bacalhau preparado por tantas imaginações, sobretudo a melhor, aquela crescida dentro dos lagares, o à lagareira.
Reconheço tanto Lisboa porque aqui morei durante um ano e meio, e porque visitei a cidade algumas vezes. Mas reconheço também Lisboa porque a vi muito antes de aqui vir, a vi na minha Salvador natal, em Goiás Velha, Diamantina, Lençóis, São Luiz... nas muitas Lisboas brasileiras.