quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

De alguma nuvem, Feliz Natal


Há dias, iniciei a viagem de volta da Austrália. Minha impressão, porém, é a de que estacionei em alguma nuvem, a meio caminho entre Sydney e Maceió: ainda não aterrissei, realmente. Me sinto flutuando no ar, com estranhas ondulações pelo corpo, sem vontade de fazer coisa alguma, rebelde a horários, dormindo durante o dia e quase nada à noite, logo eu, ser essencialmente diurno, de repente transformada em ser das madrugadas (como agora, 2:36 da manhã), sem saber direito o que fazer. É o jet lag, me explicam, não há outro jeito a não ser conformar-se, passa.

Enquanto não passa, daqui da minha nuvem — que no início era modesta, mas agora, devido aos vários dias em que nela me encontro e às voltas que o mundo dá, tornou-se bem grande, confortável, dotada de vários compartimentos, sempre fofa —, daqui da minha nuvem, em meio às várias impressões da linda Austrália (que, a certo momento, deixei de relatar aqui no blog, porque simplesmente não conseguia viajar e escrever ao mesmo tempo, a aventura da viagem sobrepondo-se à da escrita), daqui da minha nuvem, entre visões de cangurus, koalas, walabies, demônios da Tasmânia, praias deslumbrantes a rodear desertos interiores, cidades pujantes, energia de população jovem e país rico, em meio a essas impressões — que cada vez mais se misturam às visões dos coqueiros, jegues, cajus e mangas, praias paradisíacas, carroças, miséria de grande parte da população, afetividade, espetáculos de cores, ruídos altos e luminosidade escancarada do meu Nordeste brasileiro — , daqui desta minha nuvem particular envio a vocês todos, queridos amigos, abraços carinhosos e votos de um

Natal de paz, solidariedade e alegrias!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Flagrantes de Sydney, Austrália

[Da série Uma brasileira na Austrãlia]
Vagabundeando pela cidade, a gente descobre:
Os parques são muitos, lindos e preservados. Este é o Hyde Park (há tendência a repetir os nomes londrinos), bem no centro da cidade. A bandeira é um outdoor, um anúncio. Todos os anúncios públicos têm de ser assim, em forma de bandeiras, pregadas nos postes. Isso impede a poluiçâo visual e enfeita a cidade.

Linguagem universal...
(Trata-se de uma joalheria)

Parece um hotel, mas é um pub (bar). A cidade está cheia deles, o povo aqui bebe bem. Como na Inglaterra, antigamente os pubs funcionavam também como hotéis, decerto para abrigar os bêbados que não conseguiam sair do lugar... Hoje, os bêbados que se virem - mas os letreiros continuam os mesmos, confundindo-nos.

Tudo é muito bem sinalizado. Difícil se sentir perdido, na cidade ou no campo.

Deus também precisa descansar. ..

* Fotos de Luiz Carlos Figueiredo

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sydney, onde água e cidade se encontram







[Da série Uma brasileira na Austrália]

Sempre se caracterizou por ser bom porto. Sua baía acalma as águas nem sempre pacíficas do Pacifico, trazendo-as para uma infinidade de reentrâncias, pequenas penínsulas, praias, escarpas íngremes, áreas verdes, nas quais a cidade se espalha e se oferece, indolente e esplêndida, aos nossos olhos, nos tirando o fôlego.

Água, sol, mar, regiões verdes e urbanismo se encontram e se harmonizam em Sydney. A cidade foi sendo construída aos poucos, nota-se que nela nada surgiu de repente: a ponte é da década de 1920, a Opera House, iniciada na década de 50, ficou pronta em 1973, o trem ligando o aeroporto a vários bairros veio em 2000, com as Olimpíadas, a reurbanização de áreas ainda prossegue.

Habitada pelos aborígenes do grupo Eora desde tempos imemoriais, no final do século XVIII a área de Sydney foi ocupada pelos ingleses, que aqui mandaram até o início do século XX, quando a Austrália se tornou país independente, membro da Commonwealth (até hoje a rainha Elizabeth tem o maior prestígio por aqui).

Situada no único país ocidental no Extremo Oriente, cidade inglesa na Ásia, Sydney hoje reúne uma mistura incrível de gente do mundo inteiro. Seus cerca de 4 milhões e meio de habitantes abrigam europeus das mais variadas origens (das ilhas britânicas, mediterrâneos, escandinavos, ultimamente muitos da Europa de Leste), asiáticos de tudo quanto é parte, os de olhinhos puxados - e tome Timor Leste, ilhas Fiji, Cambodja, Tailândia, muuuuuuuuuuuuutos chineses, fui observando a diversidade de seus tipos e o tamanho da minha ignorância -, e os de olhinhos não puxados, que tanto podem ser de Samoa como do Libano, do Irã, da Índia ou do Afeganistão... Brasileiros também, claro! Concentram-se na linda praia de Bondi (pronuncia-se "Bondai"), que se parece com muitas das nossas.

É isso: na extrema diferença deste lugar do outro lado do mundo, nós, brasileiros, nos identificamos imediatamente com a informalidade da cidade, a energia do seu povo jovem, incluindo muitas crianças - devido à necessidade de aumentar a pequena população de 22 milhões, o país oferece incentivos em dinheiro para cada criança nascida aqui, por ocasiâo do nascimento e até os cinco anos de idade - , nós nos identificamos na hora com o jeito litorâneo, sorridente, o clima quente, a beleza das águas, a pouca roupa, o modo acolhedor e, principalmente, com a mistura de gente que é a cidade de Sydney.

Por causa do Rio de Janeiro e de outras lindezas da costa, nós somos exigentíssimos em matéria de topografias de cidades litorâneas. Com ou sem razão, torcemos o nariz para todas as maravilhas do tipo que nos apresentam no mundo, como Nice, Istambul, Tripoli, etc., pensando sempre: Ah, mas o Rio é mais bonito! Sydney, porém, balança nossa concepção ufanista. Ontem me peguei pensando: Essa baia é tão linda quanto a da Guanabara...
*Fotos de Luiz Carlos Figueiredo, ainda sem tratamento.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Na rota do sol - Austrália


[da série Uma brasileira na Austrália]

A viagem até Sydney foi menos cansativa do que imaginávamos - muitas horas, sim, mas tivemos sorte, Luiz (meu marido e companheiro de viagem) e eu viemos confortavelmente deitados em bancos de três lugares. Donde se conclui, mais uma vez, o óbvio: o bom do mundo é dos ricos e dos muito ricos, que, nas suas primeiras classes e classes executivas, sempre viajam esparramados... Achei a Qantas excelente, os comissãrios de bordo, simpáticos, não pararam de oferecer comidinhas, bebidinhas e agrados, tornando o vôo o melhor possível.

Para mim, o mais interessante da viagem foi vivenciar o dia mais longo da minha vida - embarcamos às 14.30hs em Buenos Aires, e, depois de viajarmos quase quinze horas, ainda continuávamos à luz do dia, ainda víamos o sol! Voamos, portanto, não apenas em direção ao futuro, mas junto com o sol. Foi lindo.

Levei uns dias para me acostumar à diferença brutal de fusos horários. Para mim, o melhor foi deixar o organismo à vontade, dormindo e acordando quando quisesse, e assim aos poucos ir entrando no eixo (ou saindo de vez). Demorei dias para postar aqui por uma só e simples razão, mas desesperante - como não trouxe meu laptop, não conseguia escrever em português, nos computadores que encontrava. Alguém menos anarfanet do que eu teria resolvido isso com facilidade. Agora, entretanto, que mais ou menos consegui me ajeitar neste teclado aqui, pretendo tirar a diferença.

Estou absolutamente fascinada pela cidade de Sydney.
Razões no próximo post.

*Vejam na foto (de Luiz Carlos Figueiredo) como cidade e mar se integram.

domingo, 15 de novembro de 2009

Viajando rumo ao futuro - Austrália

Daqui a poucas horas, começarei uma viagem rumo ao futuro. Sim, parto para a Austrália, logo ali, do outro lado do globo terrestre, no Oceano Pacífico. Nessa época do ano, a Austrália está 14 horas à frente de Maceió , onde moro, 13 horas à frente das áreas do Brasil com horário de verão. Por isso é que, todo 31 de dezembro, assistimos primeiro, na TV, os fogos iluminarem a linda Opera House de Sydney. Quando eu chegar em Sydney, meu avião terá feito a extraordinária rota do futuro, e meus conterrâneos no Brasil estarão no... passado!

Do Brasil, pode-se ir à Austrália via África do Sul, via Oceano Pacífico, ou via Emirados Árabes (pela Emirates). Meu marido Luiz, grande companheiro de vida e aventuras, e eu vamos pela rota do Pacífico, um pouco mais próxima (!), e que dispõe da comodidade de um vôo direto desde Buenos Aires (Buenos Aires-Sydney), pela Qantas, a empresa australiana (sempre me perguntei onde foi parar o "u"). Assim, faremos Maceió-SPaulo hoje, S. Paulo-B.Aires amanhã cedo, depois passaremos 4 horas perambulando pelo aeroporto de Ezeiza, até embarcar para Sydney, onde chegaremos no final da tarde de terça-feira, seja lá o que isso signifique. Coisa simples: 21 horas e meia de vôo, de ponta a ponta, fora os intervalos entre os vôos e a chegada ao aeroporto de S.Paulo 3 horas antes do embarque, para a viagem internacional. Se virem passando pelo céu uma mão solta de brasileira, dando adeus, é a minha. Despregou-se do meu corpo durante a travessia.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Viajar é narrar


Sou leitora antiga e ávida de literatura de viagem, adoro acompanhar emoções e aventuras das pessoas em terras estranhas, desconhecidas para elas. Sou daquelas fanáticas mesmo, gosto de tudo no gênero, desde clássicos como as viagens de Heródoto, as mansas inverdades de Marco Pólo, os relatos de viajantes estrangeiros no Brasil, A ilha do tesouro, Passagem para a India etc., até aquelas narrativas enlouquecidas, inventadas, de piratas, náufragos e mocinhas raptadas por bandidos terríveis vivendo todos em ambientes exóticos e perigosíssimos, escritos na mais legítima subliteratura...

Tenho me lembrado disto porque estou me preparando para uma viagem de um mês para, literamente, o outro lado do mundo: a Austrália. Ando com vontade de registrar aqui no blog minhas aventuras e desventuras, em textos curtos e o mais desprovidos possível de auto censura, dos filtos do politicamente correto, das informações exatas etc.: afinal, o que mais me encanta em relatos de viagem é justamente o estranhamento.
"Uma brasileira na Austrália". Que tal? Vale a pena? Será que consigo?
*Imagem: criação de Rooney Mathews, que encontrei neste blog sobre brinquedos.

sábado, 31 de outubro de 2009

Viajar é sonhar


Amigos, muitíssimo obrigada a todos os que passaram por aqui nos últimos dias, dando uma força, deixando uma mensagem carinhosa, torcendo, rezando ou fazendo pensamento positivo pelos meus doentes. Quero lhes dizer que deu certo: meu pai está bem melhor, vai ser transferido para um quarto comum de hospital; e o jovem André teve a terrível pneumonia debelada ontem. Sinto-me grata, muito grata, feliz, otimista, coração limpo. Obrigada. É muito bom não se sentir só. Creio que dentro de poucos dias, terei a alegria de estar de volta aos blogs de vocês, leitora ávida. Por enquanto, ainda passo os dias no hospital, onde meu laptop não pega, e, mesmo se pegasse, a imaginação foge. Saúde a todos vocês!.

[Da série sobre viagens]

A viagem

Quem é alguém que caminha
Toda a manhã com tristeza
Dentro de minhas roupas, perdido
Além do sonho e da rua?
[...]
Alguém me diz toda a noite
Coisas em voz que não ouço.
- Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

João Cabral de Melo Neto, O engenheiro, 1945 (primeira e última estrofes).
* Imagem daqui

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Palavras ao vento


Amigos, estou em Salvador, Bahia, acompanhando meu pai em sua recuperação: dias mais esperançosos, dias menos, novas esperanças... Como ele é escritor e foi jornalista, grande amante da literatura, conversávamos ontem sobre as palavras preferidas de cada um em português. A dele é "bunda". As minhas, entre tantas possíveis: lágrima, buginganga, resplendor. Quais são as suas palavras preferidas?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pra começar bem o dia 9

Com a melhora do estado de saúde de meu pai e do jovem André, hoje sou a Alegria, aqui simbolizada neste quadro de Manas Roy. Um bom dia para os meus dois queridos, que se sintam ainda melhor, e para vocês todos também!

domingo, 18 de outubro de 2009

Esperança é a coisa com penas



Esperança

A "Esperança" é a coisa com penas
Que na alma se empoleira -
E canta uma cantiga sem palavras -
E nunca pára - a vida inteira –

Emily Dickinson [fragmento]
(tradução de dama)

Hope
Hope is the thing with feathers
That perches in the soul,
And sings the tune--without the words,
And never stops at all
Emily Dickinson [fragment]

*Imagem daqui

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Poesia e natureza


[Hoje, apreensiva com a situação de duas pessoas muito queridas que estão doentes, peço saúde para elas. Invoco os dons da poesia e da natureza, duas das mais belas coisas da vida.]

I think that I shall never see
A poem lovely as a tree.

Joyce Kilmer, 1886-1918 (fragmento)

(Penso que nunca verei
Um poema tão bonito como uma árvore)

* Imagem daqui
** Poema enviado pela amiga Amélia Pais

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Tarô pessoal, carta 6


Cavalo-marinho

Como o camaleão, mudo de cor segundo as necessidades. Meus rituais de acasalamento consistem em cambalhotas. Dentro do meu grupo, os machos, não as fêmeas, é que guardam os ovos, numa bolsa situada na ... cauda! Quando esses ovos se rompem, os machos expelem as crias em violentas contrações.

Meus olhos são independentes, posso mover cada um deles separadamente, para onde, quando e como quiser. Sou chamado cavalo, porém vivo na água. Nado em pé, sempre na vertical. Ao nascer, sou transparente. Quando adulto, trago na cabeça filamentos, como crinas. Mas tenho também barbatanas. Meço cerca de um centímetro ao nascer, quando adulto sou pequeno e frágil, mas ainda assim fui escolhido pelos deuses para guiar a imponente, impressionante carruagem do grande Poseidon (Netuno), deus dos mares.
Eu sou O Improvável, aquele que tem pouquíssimas probabilidades de acontecer. No entanto aconteço, existo, sou parte da vida do planeta, encanto.
Você vai me deixar entrar em sua vida?
* Imagem daqui

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ti-ti-ti

. Não sei vocês, mas eu comecei este blog completamente anarfanet. Um ano depois, considero-me anarfanet funcional, rs. Se não fossem meus gurus internéticos, a quem recorro em casos de desespero, estaria perdida em algum lugar aí da blogosfera. Pois bem: o Alan, do analisando, blogueiro que está se propondo a fazer análises gratuitas de outros blogs , está agora apresentando uma idéia interessante: a partir de amanhã, começará um desafio, um treinamento de 7 dias sobre como melhorar blogs, que os blogueiros inscritos na experiência podem seguir. A cada dia, o/a blogueiro/a inscrito/a lê e pratica a lição, dando um passo pra aperfeiçoar seu blog, cada qual em seu ritmo e grau de ignorância ou esperteza. Ah, e, como na escola, tem uma porção de prêmios pros esforçados. Quem quiser se inteirar ou participar da experiência, clicaqui. Não conheço pessoalmente o Alan, mas gostei da idéia dele.

. O Namibiano Ferreira, poeta angolano que vive na Inglaterra, está organizando a terceira antologia de poetas lusófonos. As duas anteriores foram sucessos. Clique aqui para conhecer o regulamento.

. Rebeca e JotaCê me ofertaram um selo. Devido ao meu estado analfabético, ainda não consegui encontrar o dito selo, rs. Mas sei que ele existe, e agradeço muito aos dois, que vivem uma história de amor aberta, em pleno blog. Quando encontrar o selo, eu o colarei abaixo.

. Desculpem-me, amigos blogueiros, por eu estar vistiando pouco os blogs de vocês. É que ando em processo de concentração total, em revisão final do livro de minha mãe, Jacinta Passos, programado para sair em março de 2010. Isso tem tomado 90% do meu tempo, mas vai valer — já está valendo! — a pena. Vocês vão adorar o livro, tenho certeza. Beijão a todos.

* Imagem de autoria do grande artista norte-americano Norman Rockwell (1894-1978)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

domingo, 4 de outubro de 2009

Pra começar bem o dia 8


Amo você
baixinho
assim
com um leve toque
promessa interativa
ilhós
estalagem
garoa

Gizelda Morais
(Rosa no Tempo, S. Paulo, Ed. Scortecci, 2003)
*Imagem daqui

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Celebrar


Neste momento, não consigo nem quero ter qualquer visão crítica. Só desejo comemorar, junto com os cariocas e os outros brasileiros, a escolha da mui linda e amada cidade do Rio de Janeiro, minha cidade do coração, para sede das Olimpíadas de 2016. Viva o Rio!
* Imagem daqui

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Às vezes a gente se esquece de como ela é bonita


Amigos, cliquem no título deste post: é tão bom a gente se lembrar da beleza da nossa morada.

domingo, 27 de setembro de 2009

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O precário equilíbrio da vida


Amigos, tenho estado longe deste blog de que tanto gosto. É que andei por outras plagas, outros espaços, em viagens e atividades necessárias à minha vida. Há bons frutos dessas andanças, entre eles a notícia de que o livro que organizei da poeta Jacinta Passos, minha mãe, está com lançamento previsto para março de 2010, em edição conjunta Edufba/Corrupio. Acho que o livro ficará lindo, pois conta com uma equipe de alta qualidade profissional, e realmente envolvida com o projeto, o que para mim é essencial.

Mas ontem, em meio às atividades boas, uma notícia vinda de longe me arrancou o coração, me quebrou a espinha, me deixou até agora sem fôlego. O André, filho de uma amiga muito querida, um jovem que eu conheci pequeno brincando com meus filhos, de repente descobriu que está com um câncer linfático em estado avançado. Neste momento, encontra-se internado numa UTI de um hospital em Barcelona, tomando altas doses de quimioterapia, lutando para sobreviver, ao lado da família. Sei que muitos de vocês não o conhecem pessoalmente, mas sei também que a maioria de vocês já experimentou essa sensação de extrema fragilidade diante da vida, esse desamparo absoluto, essa emoção que nos irmana a todos, de impotência, vulnerabilidade e esperança. Dirijam um pensamento bom para André e sua recuperação. Os que souberem rezar, rezem por ele.
*Imagem daqui.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sobre gatos e palavras


"Os gatos são palavras com pêlo. Os gatos, como as palavras, rondam à volta dos humanos sem nunca se deixarem domesticar. É tão difícil meter um gato num cesto quando temos um trem para pegar do que ir à nossa memória caçar a palavra exata e convencê-la a tomar o seu lugar na página em branco. Palavras e gatos pertencem ambos à raça dos inefáveis."

Erik Orsenna
(* inefável = aquilo que não se pode nomear ou descrever, tamanha a sua beleza ou estranheza; indescritível, indizível.)
[Erik Orsenna, Dois Verões, ainda sem tradução no Brasil.]
Li o trecho no ótimo blog português bibliotecário de babel . Aqui, abrasileirado por mim.
Imagem daqui
Sobre o intelectual e escritor francês Erik Orsenna, clique aqui (em francês; não encontrei sites sobre ele em português).

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Gatos não morrem

Já tive muitos cachorros, jamais gatos. No entanto, tenho a maior simpatia pelos gatos, animais de personalidade. Alguns de meus amigos mais queridos são apaixonados por gatos. Minha filha Janice teve um gato, que dormia com ela, os dois abraçados, apesar de ela ser alérgica. Acho que, à época do início difícil da adolescência, ela concentrou naquele gato quase todo o afeto que possuía.
Vejam que delícia este poema sobre gatos, escrito por Nelson Ascher para uma amiga cujo gato havia morrido:


Elegiazinha

Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
— se somem — é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

Nelson Ascher
(Parte alguma. São Paulo: Companhia das Letras, 2005)

* Imagem daqui

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Diálogos (im)possíveis 14


Recém-casada e muito jovem, eu desejava fazer da minha casa no Rio uma cópia da casa de meus pais. Como havia ganho de presente de casamento uma dessas sinetas de mesa, desejei usá-la, para chamar a empregada, à hora de servir e tirar a mesa (ai que vergonha, não sei como estou tendo coragem de contar isso no blog). A pessoa que trabalhava lá em casa era Maria, uma pernambucana recém chegada do alto sertão, em seu primeiro emprego como doméstica. Expliquei a ela que, toda a vez em que ouvisse a sineta, era porque eu a estava chamando à mesa. Certo dia, escuto um barulho altíssimo na cozinha. Corro para lá e, ao chegar, avisto Maria balançando freneticamente a sineta.

— Maria, que maluquice é esta?

— Ué, a senhora não disse que a sineta era pra chamar? Tô lhe chamando!

(Pano rápido. A sineta é jogada no lixo e jamais substuída.)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pra começar bem o dia 7


Predestinação

Entra pra dentro, Chiquinha!
Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que você vai
você acaba prostituta!

E ela:
— Deus te ouça, minha mãe...
Deus te ouça ...

(Ascenso Ferreira, Xenhenhém, obra do modernismo nordestino)
*Imagem: Di Cavalcanti, "As Cores do Brasil"

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Foi maravilha



Amigos: já de volta a Maceiócio, quero dizer que foi bom demais ter comparecido, em Salvador, ao lançamento de Continhos para cão dormir, de Maria Guimarães Sampaio, e Caixa Preta, de Nilson Galvão, da P55 Edições, ambos pela coleção "Cartas Bahianas", que apresenta livros pequenos, em formato de lindos envelopes, com conteúdos variados e textos de bom nível, alguns bastante inovadores.
Eu gostei do alto astral do lançamento, da alegria que reinou por lá, do mundão de gente que apareceu, da solidariedade que se sentia — quase se pegava —, de todos estarem alegres com o sucesso do acontecimento, rindo a toda hora, uns pros outros. Gostei de abraçar muitos amigos e vários e-amigos (ou é-amigos, como dizemos no Nordeste), com quem tantas vezes troquei textos, impressões, sentimentos, e agora sei também como cheiram, se são sorridentes ou mais sérios, zen ou aflitos, como são os desenhos de suas sobrancelhas, seus projetos de vida, suas famílias, nesse acerto entre imaginação e realidade, jogo que abre caminho para novas imaginações, novas perguntas ... Achei Nilson mais descontraído do que imaginava, Menina da Ilha igualzinha à ótima ideia que eu fazia dela, aeronauta achei duas, a fortaleza do rosto sertanejo junto à delicadeza do corpo miúdo, e fiquei com pena de ela não ficar pra nossa pizza no final (é, lá também terminou em pizza), Bernardo eu adorei abraçar, Marcus, o grande organizador, também, Ivonete eu sentia como se já conhecesse, achei falta de Martha, e de abraço em abraço emocionado fui fortalecendo amizades, Maria feito menina, até fita no cabelo no final ela amarrou. Tantas imagens ainda nos meus olhos, Kátia Borges, Vera, Soraya, Ju, o bilhetinho de Renata ... alegria. Sei mais um pouco deles, eles sabem um pouco mais de mim, e seguimos esse caminho de descobertas, encontros, surpresas: criações.


Sem fim

Quando formos ao rio de Heráclito,
vamos perguntar pelo que pode ser.
O que pode ser meu caro Heráclito,
O que pode ser, rio de mim.

Como pode uma tarde de sábado,
ou um rio de janeiro sem fim,
ou as águas de março no âmago
desse rio vermelho carmim.
(Nilson Galvão, Caixa Preta)


"Maria de Lourdes encosta vassoura no portal: Dona Norma, vou ali oiá a batucada. Roupa lascada. Pés estropiados. Boca bem beijada. Quarta-feira-de-cinzas dona Norma readmitiu Maria de Lourdes. Em novembro batizou Lurdinha."
(Maria Guimarães Sampaio, Continhos para cão dormir I)

[Sem fotos, pois a anta aqui se esqueceu da máquina. A imagem escolhida transmite o ambiente que senti]

terça-feira, 1 de setembro de 2009

É hoje!

Minha gente, me abalei de Maceió até Salvador só para comparecer a este lançamento, a este grande encontro, não só com Maria e Nilson, mas com vários e-amigos e amigos. Livros de primeira, gente de primeira: vá também, vale a pena!

domingo, 30 de agosto de 2009

As crianças e as ruas


[Amigos, desculpem ter aparecido pouco por aqui ultimamente. Um conjunto de coisas me afastou, mas já estou de volta, alegre e com saudade.]
Fui criada no Rio de Janeiro, para onde meus pais se mudaram quando eu tinha três anos de idade. O Rio é a minha cidade afetiva, a que me traz mais memórias recuadas, aquela em que melhor me reconheço. Não este Rio de agora, dilacerado por conflitos sociais e pela degradação que atinge todas as suas esferas e teima em destruir — felizmente, ainda sem conseguir — uma das mais belas e acolhedoras paisagens do mundo.
No Rio onde cresci, nós, as crianças, brincávamos na rua. Isso mesmo: montes de crianças espalhadas ao mesmo tempo pelas calçadas, dá pra imaginar isso no Rio de hoje? E eu não morava em subúrbio afastado ou área semirural, não. Fui criada em Copacabana, na Av. Princesa Isabel, a rua do túnel novo. Ali, e poucos sabem disso, há duas ou três vilas, com casas. Uma senhora idosa, que morava numa delas, aborrecida com a algazarra que aprontávamos, costumava chegar à janela, furiosa, e nos enxotava:
— Saiam daqui, já!
Pois nós, mãozinhas nas cinturas, respondíamos: — O que é, hein? Tá pensando que a rua é sua, é?
A rua era nossa.
Paulatinamente, devido a uma série de fatores conjugados — crescimento da violência urbana, piora do trânsito, superpopulação, aumento do tráfico de drogas, diminuição dos espaços públicos, entre outros — as crianças foram sendo expulsas das ruas. Cada vez mais confinadas às casas, apartamentos, praças cercadas, escolas, pequenos pátios murados, isolados... Espaços não apenas menores, como internos, interiores, e muito vigiados. Neles, a presença de adultos é constante, o que deixa poucas possibilidades às crianças para interagirem livremente, descobrindo o mundo a partir de seus interesses, necessidades e desejos. E ainda cria um bocado de estresse para elas como para os adultos, pois, obrigados a conviver mais do que gostariam, se irritam e se castram mutuamente.
Os espaços urbanos foram ficando tão distantes da infância que, hoje, a expressão “meninos de rua” designa crianças muito pobres, sem estrutura nem apoio familiar, financeiro ou social. As ruas, que já foram minhas e dos meus amigos, tornaram-se espaços degradados.
* Imagem: Cândido Portinari, "Meninos brincando"

domingo, 23 de agosto de 2009

Viajar é perder-se


[Continuando a série sobre viagens]

Viagem

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.

Orides Fontela (do livro Rosácea, 1986)

Apesar de pouco conhecida do público, a paulista Orides Fontela (1940-98) é uma das melhores poetas brasileiras do século XX. Teve uma vida difícil, devido a problemas ecônomicos e mentais — faleceu em um sanatório —, mas sua poesia mereceu prêmios importantes, como o Jabuti e o da Associação Paulista de Críticos de Arte. A obra de Orides Fontela está agrupada no volume póstumo Poesia reunida (S.Paulo: 7 Letras/Cosacnaify, 2008), um livro em que vale a pena viajar, redescobrir-se, perder-se.
*Imagem: "Scape", pintura de Stephen Linhart

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A arte de Tânia Pedrosa


A alagoana Tânia de Maya Pedrosa não sabia que nasceu artista. Certo dia, casada e mãe de filhos, obedecendo a um impulso comprou tintas e tela, e começou a pintar. Escondido. Ninguém na família sabia. Sentia vergonha dos quadros que produzia, achava que não tinham valor algum. Queria só expressar seus sentimentos.

Certa ocasião, recebeu, como hóspede da família, o alemão Ludger Stockman, formado em Artes. Ao ver entreaberta a porta de um depósito nos fundos da casa, Stockman ali entrou, deparando-se com os quadros de Tânia. O crítico alemão adorou a pintura colorida, criativa, original, garantindo a Tânia que ela era, sim, artista, e das grandes. Ela, porém, não acreditou muito: em 1998, incentivada por Antônio Nascimento, enviou dois quadros para a Bienal Naïf do Brasil, mas nada disse à família, pois achava que jamais seriam selecionados; contou só ao amigo, cúmplice e também artista Lula Nogueira. Qual não foi a sua surpresa, quando se descobriu não apenas aceita na Bienal, mas com um de seus quadros como capa do catálogo, e detentora do prêmio de pintura.

A carreira de Tânia de Maya Pedrosa deslanchou, na Europa e no Brasil. Ela não mais parou de pintar, ganhando diversos prêmios internacionais (como o Prêmio Europa de Arte Primitiva, entre outros) e brasileiros. O magnífico quadro a óleo que ilustra este post, expressando o imaginário do litoral e sertão nordestinos, é de sua autoria. Clique aqui para conhecer um pouco mais sobre a artista.

Tânia de Maya Pedrosa sempre incentivou os artistas populares de seu Estado. Não apenas escreveu livros sobre eles, como possui uma extraordinária coleção de arte primitiva nordestina, em especial alagoana, que precisa com urgência merecer espaço público adequado, onde possa ser admirada pelos que amam arte.

domingo, 16 de agosto de 2009

Um ano de blog

Este blog está fazendo um ano. Jamais pensei que escreveria esta frase.

Foi minha amiga Maria Sampaio quem insistiu comigo pra criar o blog. Nunca havia pensado nisso, não tinha sequer (confesso!) paciência pra ler blogs... Mas ela insistiu com jeito, e de repente me encontrei blogueira. Estava numa fase de mudanças, recém chegada de uma temporada ensinando história nos Estados Unidos, com muita vontade de voltar à literatura mas sem saber direito como, ao mesmo tempo querendo começar algo novo mas sem saber exatamente o quê... Nasceu assim este acreditandonotruque, em meio às minhas incertezas e ao carinho amigo. Logo depois, para abrigar textos mais longos, dos quais não desejo abdicar, criei o enredosetramas. Aos poucos, à medida que os e-amigos me ensinavam a lincar, colocar imagem, trazer vídeos do you tube etc. — sim, a ignorância aqui era e permanece crassa, ampla, irrestrita e resistente —, fui visitando outros blogs e recebendo leitores no meu.

Sou poeira na blogosfera, este universo infindo, tão ou mais poderoso do que o outro, o concreto. Neste ano, porém, descobri um mundo. Conhecidos que se transformaram em amigos, amigos que trouxeram novos amigos, gente de várias partes do mundo interessada nas mesmas coisas que eu, gente escrevendo muitíssimo bem, gente me incentivando e sendo incentivada, trocas, textos conduzindo a textos conduzindo a textos conduzindo a textos, o poder das imagens, poesia, rapidez, música, o conhecimento de experiências formidáveis feitas mundo afora, os aprendizados, diálogos, palavras apressadas, besteirol, risos, surpresas — muitos favos de mel, poucos travos de jiló —, participação em campanhas, minha literatura reaparecendo, ressurgindo em mim. Vontade de ousar, de cantar, de me jogar neste universo ao mesmo tempo instantâneo e duradouro, efêmero e influente, assustador e apaixonante, poderoso e frágil, ilusório, real.

Nesta blogosfera sempre a descobrir, que se comunica com o restante do mundo virtual e com o mundo concreto mas também representa um espaço específico, com regras próprias, neste admirável mundo novo o que mais me encanta é descobrir um grupo de sentimentos velhos como o mundo, tais como amizade, acolhimento, respeito pelo diálogo: amor, enfim.

No começo, de leitores eu só tinha Maria e alguns parentes. Depois, via meu primo Caco (o único lord da família), apareceram o Valter Ferraz, que inventou uma rádio, e sua mulher, a blogueira Aninha Pontes. A esses primeiros leitores dedico meu primeiro ano de blog. E, simbolizando todos vocês, meus leitores — vocês são a razão de ser do blog, sem vocês não há blog —, dedico este primeiro ano de blogagem também ao fiel, solitário, silencioso leitor ou leitora que vive em local marcado como “desconhecido” no meu contador de visitas. Sei apenas que me lê com frequência, de lá do extremo norte de Mato Grosso, perto de Sinop, em plena floresta amazônica.

Juro por Deus que, no segundo ano de blog, vou aprender a ser sucinta.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Lá se vai São Gonçalinho


Lá se vai São Gonçalinho
Lá se vai São Gonçalinho
Fora de seu oratório
Fora de seu oratório
Acompanhado de anjo
Acompanhado de anjo
Também de Nossa Senhora
Também de Nossa Senhora

[Cantado em procissões no interior do Brasil, especialmente no Nordeste, incluindo-se as barrancas do rio São Francisco; São Gonçalo, português, é santo casamenteiro de mulheres velhas.
Canto copiado do romance A Dama do Velho Chico, do escritor baiano Carlos Barbosa (Rio: Bom Texto Editora, 2009), que acabo de ler, e recomendo com entusiasmo.]
*Imagem: Procissão de São Gonçalo em Sergipe, aqui

sábado, 8 de agosto de 2009

Boa notícia!


Amigos, recebi ontem uma notícia muito boa, que desejo compartilhar com vocês: a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) aprovou o pedido que fiz de apoio à publicação do livro Jacinta Passos – Canção Atual.

Jacinta Passos (1914-1973) foi uma expressiva intelectual da Bahia, que publicou quatro livros de poemas e se tornou uma das mais ativas jornalistas do Estado. Seus livros — elogiados à época por intelectuais do porte de Mário de Andrade, Antônio Cândido, Aníbal Machado e muitos outros — estão esgotados há vários anos. Sua vida, marcada por tragédia pessoal e pela luta incansável em prol de justiça social, transformações políticas e melhoria da situação das mulheres, é pouco conhecida.

Além dos poemas publicados em vida, acrescidos de notas explicativas, a edição aprovada trará a produção jornalística de Jacinta Passos, seus textos inéditos, sua biografia e a fortuna crítica sobre sua obra, ao lado de ensaios escritos especialmente para a publicação, de autoria de intelectuais conhecidos. O volume será publicado pela Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba) e pela Editora Corrupio.

No dia 11 de setembro, assinarei o convênio com a Fapesb, e a partir daí trataremos da edição. Jacinta Passos é minha mãe. Sinto enorme alegria em ter podido contribuir para que sua arte, pensamentos e trajetória biográfica possam estar de novo ao alcance de leitores — novos leitores, que decerto saberão amá-la, compreendê-la e estudá-la.
*Foto de Jacinta Passos, início da década de 1940. Fotógrafo desconhecido.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Resistir, quem há de?


Resistir, quem há de? Entramos.


Dona Rosa revela-se ótima costureira. Brilho e requinte.
* Fotos: Luiz Carlos Figueiredo

sábado, 1 de agosto de 2009

Domingo - Pra começar bem o dia 6


Filosofia

Hora de comer — comer!

Hora de dormir — dormir!

Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?

— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

Ascenso Ferreira

O pernambucano Ascenso Ferreira (1895-1965) é um dos maiores poetas brasileiros. Com humor, sátira e originalidade, criou versos definitivos a partir de temas populares. É urgente a republicação de sua obra integral.
* Imagem daqui.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Tarô pessoal, carta 5


Heranças

Não só os ricos: todo mundo recebe herança. O ser mais miserável da Terra recebe herança. Vem dos antepassados para nós.

Quais são as suas heranças? Patos, porcos e cabras, este cheiro louco de terra? O alcoolismo da mãe? Tantos abraços, beijos, canções, tanto carinho... Arranha-céus? Ou será este medo que você herdou dos olhos dele? O cabelo em permanente revolta? Este desejo que não vai embora? Sorriso aberto? Um cantinho de jardim, pra só você cuidar? A fé inabalável? A rica, pesada tradição familiar? Quem sabe sua herança é esse devanear, essa dificuldade para aterrissar? Ou a necessidade de cuidar dos outros? A casa de adobe, o chão batido, barriga vazia? Orgulho? Honestidade? Esperteza? Aquela bola esquecida no canto do quarto? Essa sua incansável capacidade de lutar? O estalar de gravetos no fogo? A leitura e a escrita, a doença? O vício? As fotos de família? Nunca conseguir parar? Fortunas em ações, o gosto musical, a preguiça, o trabalho, o corpo atlético, a rotina? Ou nada disso, porém outras coisas mais?

Todo mundo recebe heranças. Reconhecê-las é o primeiro passo. Para então aceitá-las ou recusá-las. Tempo de você pensar no assunto: Quais são as minhas heranças? O que tenho feito delas?
Imagem daqui

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A menina e a boneca


Quando o tio lhe estende um embrulho do seu tamanho, arregala os olhos, morta de medo que seja mentira. Aquilo é mesmo pra ela? Mesmo? Sim, vários adultos sorridentes balançam a cabeça ao mesmo tempo. Antes que tudo vire mentira, joga a caixona no chão e começa rápido a rasgar o papel de presente, pedaços coloridos de papel voam pela sala, ela louca pra saber o que tem dentro daquela caixa. Jamais ganhou um presente assim tão grande. Faz tempo que não recebe presente algum.

Quando seus dedinhos grossos conseguem finalmente erguer a tampa da caixa, quase sem respirar grita É uma menina! Ganhei de presente uma menina! E se desconcerta, porque os adultos em volta riem, e detesta que riam dela. Como assim boneca, se as suas bonecas são pequenas e moles, de pano, só a cara têm de louça, seus grandes olhos pintados não se mexem, mas esta... Ah, esta dorme e acorda, acorda e dorme, esta tem cabelos cacheados de fada — a menina sente incontrolável arrepio de satisfação, ao tocar os cabelos da boneca —, esta mexe os braços pra cima e pra baixo, veja! O tio lhe mostra que a boneca... anda como eu! Usa batom e rouge e veste um vestido cor de rosa de festa e um chapéu de festa e sapatos e meias rendadas de festa tão lindos como eu nunca tive nem nunca vou ter na vida.

A menina abraça a boneca-menina, as duas do mesmo tamanho. Abraça mais forte, abraça muito forte, olhos fechados. Sente tanto medo da boneca desaparecer pra sempre, ficarem sozinhos de novo ela e os avós, como antes dos tios surgirem na sua vida. Ainda de olhos fechados, numa espécie de teste dá um beijo tímido na bochecha da boneca, sente sua textura um pouco dura: Ela não foi embora! Desta vez, de tanta felicidade nem escuta a risada dos adultos.

Abraçada à boneca, pela primeira vez na vida a menina sente-se grave. Esta é a sua boneca. Dali em diante caberá a ela, só a ela, cuidar da boneca-menina. Dar-lhe comida, levá-la pra passear, brincar todos os dias com ela na praça, nunca deixar que se quebre, pentear seus cabelos, ajeitando os fios todos na mesma direção, ser sua professora, arrumar seu vestido e chapéu tão elegantes, enchê-la de beijinhos e carinhos, segurar sua mão para que não caia, guiá-la, colocá-la para fazer xixi, protegê-la dos primos assassinos...

A menina percebe a solenidade do momento. Sabe que a partir de agora um outro ser depende dela. Nunca mais será a mesma. Seus olhos ganham pausa, seu peito estreito, que carrega o coração ainda leve, torna-se de repente atento, a boca pensativa, neste instante agarra-se a seus ombros aquela responsabilidade orgulhosa de ter de proteger os outros que carregará vida afora, até a morte.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Para os meus amigos


Pra mim, amigos são as pessoas mais importantes do mundo. Eu não sobreviveria sem eles. Pelos meus amigos, faço qualquer coisa. Amizade, para mim, é o mais precioso dos sentimentos.

Nós, brasileiros, somos amigueiros. Temos lindas músicas sobre amizade. "Amigo é coisa pra se guardar / do lado esquerdo do peito", canta inesquecivelmente Milton Nascimento. E vejam a beleza desta canção de Capiba e Hermínio Bello de Carvalho, Amigo é Casa, na interpretação de Zélia Duncan e Simone — dedico-a a vocês:

http://www.youtube.com/watch?v=3v73ecjopiQ


quarta-feira, 22 de julho de 2009

Cabeça-pipa





















Desde que cheguei de viagem tenho a cabeça solta no ar, flutuante, cabeça voadora, itinerante, andarilha, intermitente, cabeça que se recusa a fixar-se no que quer que seja, blog incluído, cabeça-pluma, imagética, cabeça-menina navegante entre cores, fluidos, soçobros, liberdades, espaçonaves, panelas, segredos, cabeça-pipa.
Escolhi estas imagens do artista australiano Shaun Tan para tentar expressar como anda a minha cabeça hoje. Alguém aí já se sentiu assim?

*Para conhecer o maravilhoso espaço de Shaun Tan, clique aqui.