Literatura, história e o que mais der na cabeça: um blog que acredita na magia, liberdade, prazer e mistério da invenção e da criação.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Tragédia no Rio e Niterói
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Mãe que fosse

Esta se passou em Santo Amaro da Purificação e, me dizem os baianos, é verídica. Lindaura foi a Santo Amaro visitar a família da irmã, que não via há bem uns dois anos. Abraçou a irmã e o cunhado, beijou as sobrinhas, espantou-se com o crescimento do sobrinho:
— Tadeu, você está um homem, já! Quando eu lhe vi pela última vez, você era uma menino, agora já está um rapazinho! Deixa eu ver, já tem até bigode! – exclamou a tia, passando o dedo no buço de Tadeu que, do alto dos seus 13 anos de idade, abaixou a cabeça, morto de vergonha.
À noite, Tadeu levantou-se para ir ao banheiro. Atravessava o longo corredor da casa – daquelas casas antigas de Santo Amaro, salinha de entrada, longo corredor com quartos dos dois lados, ao final a sala de jantar/cozinha, onde fica a família toda e, só depois, o banheiro -, quando passou pelo quarto onde dormia a tia. Devido ao forte calor a porta estava aberta, e a tia, uma quarentona bem apanhada, dormia descoberta, deixando à mostra o corpo moreno muito bem torneado.
No auge da explosão dos hormônios, o jovem Tadeu não resistiu: entrou no quarto e caiu em cima da tia. Ela acordou assustada e, ao entender o que se passava, deu-lhe a maior bronca:
– O que é isso, menino? Que maluquice! Me respeite! Eu sou sua tia!
Ao que Tadeu respondeu:
– Mãe que fosse!
No dia seguinte, a tia contou a história em família, rindo. Em pouco tempo, toda Santo Amaro sabia do caso. Quando Tadeu passava, gritavam-lhe, para seu desespero:
- Mãe que fosse!
O apelido grudou de tal forma que, dizem, Tadeu Mãe-Que-Fosse teve de mudar-se, nunca mais voltando a Santo Amaro.
[Escrevendo da Bahia]
* Aos leitores portugueses: lembrando que, no Brasil, “apelido” é o mesmo que “alcunha”.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Notícia terrível

As circunstâncias da morte de Alcides derrubaram definitivamente esse meu fio de esperança. Alcides morreu vítima da mesma miséria da qual tentou escapar. Os assassinos – mais pobres do que ele – procuravam um vizinho seu, para um acerto de contas relativo ao tráfico de drogas. Como Alcides não soube informar onde estava o vizinho, foi assassinado com tiros ali mesmo, em frente à sua casa, no bairro pobre da Torre, no Recife, onde foi criado. Sua mãe, Maria Luíza Ferreira do Nascimento, 44 anos, desesperada, disse que não sabe mais como seguir em frente.
domingo, 17 de janeiro de 2010
O que faz você feliz?
domingo, 30 de agosto de 2009
As crianças e as ruas

No Rio onde cresci, nós, as crianças, brincávamos na rua. Isso mesmo: montes de crianças espalhadas ao mesmo tempo pelas calçadas, dá pra imaginar isso no Rio de hoje? E eu não morava em subúrbio afastado ou área semirural, não. Fui criada em Copacabana, na Av. Princesa Isabel, a rua do túnel novo. Ali, e poucos sabem disso, há duas ou três vilas, com casas. Uma senhora idosa, que morava numa delas, aborrecida com a algazarra que aprontávamos, costumava chegar à janela, furiosa, e nos enxotava:
— Saiam daqui, já!
Pois nós, mãozinhas nas cinturas, respondíamos: — O que é, hein? Tá pensando que a rua é sua, é?
A rua era nossa.
Paulatinamente, devido a uma série de fatores conjugados — crescimento da violência urbana, piora do trânsito, superpopulação, aumento do tráfico de drogas, diminuição dos espaços públicos, entre outros — as crianças foram sendo expulsas das ruas. Cada vez mais confinadas às casas, apartamentos, praças cercadas, escolas, pequenos pátios murados, isolados... Espaços não apenas menores, como internos, interiores, e muito vigiados. Neles, a presença de adultos é constante, o que deixa poucas possibilidades às crianças para interagirem livremente, descobrindo o mundo a partir de seus interesses, necessidades e desejos. E ainda cria um bocado de estresse para elas como para os adultos, pois, obrigados a conviver mais do que gostariam, se irritam e se castram mutuamente.
Os espaços urbanos foram ficando tão distantes da infância que, hoje, a expressão “meninos de rua” designa crianças muito pobres, sem estrutura nem apoio familiar, financeiro ou social. As ruas, que já foram minhas e dos meus amigos, tornaram-se espaços degradados.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Viajar é dar um tempo no blog
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Brasil bom

Ultimamente, tenho me envergonhado um bocado do Brasil. Me sinto mal diante da nossa miséria, da nossa absurda concentração de renda e de terras, da nossa corrupção, desta violência cega que nos assola, da falta de respeito aos cidadãos, das colossais carências na educação e saúde públicas, dos nossos crimes contra o meio-ambiente. A lista enorme é do tamanho da minha amargura, vergonha, desconforto, revolta. Não vejo esses problemas como obra específica deste governo ou do anterior, vejo-os como males antigos, que governo nenhum parece tentar ou conseguir resolver.
Contudo, vez por outra sou surpreendida por alguma notícia boa. Aí me dá uma alegria, uma esperança doida de que nem tudo está perdido, de que nosso país tão grande, rico em recursos naturais, com um povo tão criativo, ainda vai resolver ou atenuar alguns de seus problemas básicos.
Ontem, me aconteceu uma dessas experiências realmente boas. Devido a um problema doloroso nos músculos e nervos das mãos e braços, que me obrigou a três pequenas cirurgias no ano passado, busquei atendimento médico na rede sarah de hospitais, em Salvador. Para quem não conhece, trata-se de uma rede nacional de hospitais públicos, com unidades em várias cidades do Brasil, voltada para o tratamento de doenças do aparelho locomotor.
Pois bem: exatamente ao contrário do que costuma acontecer em nossos hospitais públicos, tudo lá funcionou muito bem, ontem. De forma rápida, cortês e eficiente, uma funcionária fez meu cadastro e me orientou a aguardar o horário da consulta. Esperei num local sem nenhum luxo, mas agradável, amplo, arejado e impecavelmente limpo, eu e mais uma grande quantidade de pessoas, a maioria, dava para perceber, gente pobre, do povo, muitos com problemas motores seríssimos.
Aproveitei para conversar com essas pessoas a respeito de suas experiências no hospital. Pasmem, só ouvi elogios: os médicos (muito melhor remunerados do que nos outros serviços públicos do país, portanto, de muito melhor nível, no conjunto) são ótimos, competentes e compreensivos; as consultas, sessões de fisioterapia e cirurgias começam no horário marcado, ou com pequeno atraso. Ouvi frases assim: “Estou me sentindo muito melhor do que quando o tratamento começou”; “Eu já fiz cirurgia, agora estou fazendo fisioterapia”; “Fiquei internada, depois de um tempo voltava pra casa nos fins de semana, agora venho aqui três vezes por semana, e, a partir do próximo mês, só uma vez por semana – eu não andava, voltei a andar”; “Quebrei 32 ossos num acidente terrível, agora estou quase inteiro”; “O hospital empresta pra gente cadeira de rodas, muleta, andador, cama especial, o que precisar, depois a gente devolve”. Minha própria experiência ontem foi excelente: como paciente, me senti bem cuidada e orientada; como ser humano, me senti respeitada.
Acreditem: tudo isso é gratuito. Gratuito, não, pois, como escrito no site da rede sarah, a instituição “tem como objetivo retornar o imposto pago por qualquer cidadão, prestando-lhe assistência médica qualificada e gratuita, formando e qualificando profissionais de saúde, desenvolvendo pesquisa científica e gerando tecnologia.”
Não sei se a qualidade que encontrei ontem é a mesma todos os dias, em todas as unidades do sarah, para todas as pessoas. Só sei que, ontem, minha esperança no país reacendeu. Se foi possível conseguir tanto em um lugar específico, será possível conseguir a mesma qualidade e eficiência em outros lugares, atividades, setores. Pela primeira vez em muito tempo, senti orgulho do nosso Brasil. Êta sentimento bom!
*Imagem daqui
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
O lobisomem de Viçosa


quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Nunca se casaram

A última vez em que bebeu foi num aniversário da filha. Teve ajuda médica para isso, mas antes também tivera, e não adiantara. Não bebe há quase dois anos. A casa deles voltou a ser alegre. Ela se permite de novo ser um pouco irresponsável, mais leve, cabeça de vez em quando nas nuvens, na música... Ele, mais equilibrado, sabendo do que precisa, recuperou trabalho e bom humor.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Y se ama como se come

Minha irmã acha que o marido se apaixonou por ela ao vê-la comer uma maniçoba, deliciosa iguaria de carne de porco misturada às folhas tenras, trituradas, da mandioca. É provável: meu cunhado, ótimo cozinheiro, afeiçoa-se às morcelas, tripas, cozidos e pães da deliciosa e pesada culinária portuguesa. Minha irmã, com graça, diz que o marido acharia sexualmente desanimador ver uma mulher jantar apenas uma folhinha de alface. Ele tem razão: comer só uma folha de alface sugere mania de regime, portanto mulher excessivamente vaidosa, intolerante, triste, com tendência à anorexia, desprovida das carnes, molhos e generosidades indispensáveis ao bom sexo.
Mas, e eu, como fico nessa história de amores e comidas? Adoro saladas! No universo da exaltação das maniçobas e que tais, minha reputação amorosa, assim como a de todos os outros amantes da salada, seria atirada ao limbo? Metida em brios, faço uma apaixonada defesa das possibilidades eróticas das saladas.
Duvida? Então, comece misturando amorosamente, bem devagar, prestando atenção ao que faz, os lindos tons e subtons verdes das folhas ao vermelho-paixão da beterraba, ao alaranjado-coração da cenoura, à malícia do tomate, às azeitonas – que, antes de mordidas, devem ser saboreadas vagarosamente por toda a boca -, sem se esquecer, claro, dos picantes pimentões. Sinta o aroma inconfundível do manjericão, que, mesclado ao do orégano, fará você se perguntar onde diabos já sentiu aqueles cheiros maravilhosos, em qual jardim, qual alcova, qual marinha...
O melhor de tudo: ao final, você se sentirá leve, leve, absolutamente em forma para qualquer exercício do amor, bem ao contrário do que aconteceria após uma maniçoba...
sábado, 30 de agosto de 2008
Olhos verdes

Encontraram-se ainda muito jovens, ela quase menina, ele pouco mais velho, estudante universitário. Paixão. Descoberta da vida, adivinhação do sexo (que não fizeram, ela prometera à mãe, os tempos eram outros), conversas íntimas, sonhos de casamento, afinal os pais aprovavam, tudo nos conformes, previsível, como os pretos olhos dele.
Deu tudo errado.
Ela buscou outros chãos, curiosa aventurou-se pelo mundo, sôfrega de emoções, conhecimento, felicidade. Afundou, reergueu-se para novos mergulhos, píncaros e vales, no meio um longo casamento que deixou lembranças difíceis mas filhas lindas. Mudanças, recomeços, vitórias, realizações profissionais, pessoais. E também aquela persistente insatisfação, aquela busca que não parava nunca de pedir, de exigir dela que procurasse, que insistisse, que não desistisse. Não sabia bem o quê, do quê. E como não sabia, não encontrava. Ficava só aquele oco, o sentimento da falta.
Ele seguiu seu caminho longe, dedicou-se seriamente à carreira, chegou ao ápice ali. Casamento também longo e infeliz, também filhos lindos. E uma tristeza... que não passava. Em frente ao mar da sua cidade, muitas vezes se perguntou por onde ela andaria, em que outros mares navegava – e o que via era só horizonte vazio. Uma tristeza que nunca o deixava.
Reencontraram-se há pouco, quarenta anos depois. Tudo de repente fez sentido. Redescoberta da vida, do sexo selvagem e manso como só os experientes sabem. Quanta história pra contar! Agora caminham os dois por aí de mãos dadas, felizes, felizes. Só querem saber de namorar, nada de casamento formal. E ela descobriu que os olhos dele são, sim, verdes. Como relvas, que não agüentam o mundo mas onde ela pode se deitar, rolar, afundar no prazer, na alegria, relaxar -- enfim se aconchegar.
