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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Tragédia no Rio e Niterói


Este blog está hoje de luto, pela imensa dor dos moradores do Rio, Niterói e suas regiões metropolitanas. Um abraço solidário e comovido a todos os que perderam amigos e parentes nesta tragédia brasileira que não parece ter fim, pois se repete, em maior ou menor grau, todos os anos.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Mãe que fosse


Há histórias que eu só escuto na Bahia. Não sei se são os personagens, se é o jeito de contar, se é o enredo... sei que são histórias baianas.

Esta se passou em Santo Amaro da Purificação e, me dizem os baianos, é verídica. Lindaura foi a Santo Amaro visitar a família da irmã, que não via há bem uns dois anos. Abraçou a irmã e o cunhado, beijou as sobrinhas, espantou-se com o crescimento do sobrinho:

— Tadeu, você está um homem, já! Quando eu lhe vi pela última vez, você era uma menino, agora já está um rapazinho! Deixa eu ver, já tem até bigode! – exclamou a tia, passando o dedo no buço de Tadeu que, do alto dos seus 13 anos de idade, abaixou a cabeça, morto de vergonha.

À noite, Tadeu levantou-se para ir ao banheiro. Atravessava o longo corredor da casa – daquelas casas antigas de Santo Amaro, salinha de entrada, longo corredor com quartos dos dois lados, ao final a sala de jantar/cozinha, onde fica a família toda e, só depois, o banheiro -, quando passou pelo quarto onde dormia a tia. Devido ao forte calor a porta estava aberta, e a tia, uma quarentona bem apanhada, dormia descoberta, deixando à mostra o corpo moreno muito bem torneado.

No auge da explosão dos hormônios, o jovem Tadeu não resistiu: entrou no quarto e caiu em cima da tia. Ela acordou assustada e, ao entender o que se passava, deu-lhe a maior bronca:

– O que é isso, menino? Que maluquice! Me respeite! Eu sou sua tia!

Ao que Tadeu respondeu:

– Mãe que fosse!

No dia seguinte, a tia contou a história em família, rindo. Em pouco tempo, toda Santo Amaro sabia do caso. Quando Tadeu passava, gritavam-lhe, para seu desespero:

- Mãe que fosse!

O apelido grudou de tal forma que, dizem, Tadeu Mãe-Que-Fosse teve de mudar-se, nunca mais voltando a Santo Amaro.

[Escrevendo da Bahia]
* Aos leitores portugueses: lembrando que, no Brasil, “apelido” é o mesmo que “alcunha”.
** Imagem daqui

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Notícia terrível


Como vocês, sou bombardeada a todo instante por uma quantidade inimaginável de notícias, que me chegam pela net, televisão, jornais, celular e o escambau. A maioria das notícias é ruim, é péssima, sabemos instantaneamente de todas as desgraças do mundo inteiro. Para sobreviver a esse massacre, tentar me proteger da dor e indignação excessivas, muitas vezes visto uma couraça. Esta minha dura couraça de indiferença e esquecimento, todavia, às vezes se parte. E sou então atingida no coração, e quase morro com a força do petardo.

Minha couraça rompeu-se há poucos dias, e ainda não se fechou, desde que ouvi a notícia: mataram no Recife o jovem universitário Alcides do Nascimento Lins, de 22 anos. Em 2007, Alcides irrompera no noticiário como um exemplo, como aquele que se recusara a aceitar a vida miserável que o destino lhe reservara. Filho de uma catadora de lixo, que criava sozinha os quatro filhos, Alcides estudara apenas em escolas públicas, longe de sua casa – percorria o trajeto de muitos quilômetros a pé, sob sol ou chuva, às vezes descalço ­–, sem livros nem cadernos nem recursos próprios, aperfeiçoando-se em bibliotecas públicas. Mas, aos 19 anos de idade, Alcides acabara de ser aprovado no concorridíssimo vestibular para o curso de Biomedicina da Universidade Federal de Pernambuco. A notícia me chegou então como um sol, uma esperança, um sinal de que afinal, aqui e ali, ao nível individual era possível salvar-se do círculo inexorável da miséria, da fome, da droga, da doença, da marginalidade, para tentar alcançar algo melhor, uma vida mais digna de ser chamada de vida.

As circunstâncias da morte de Alcides derrubaram definitivamente esse meu fio de esperança. Alcides morreu vítima da mesma miséria da qual tentou escapar. Os assassinos – mais pobres do que ele – procuravam um vizinho seu, para um acerto de contas relativo ao tráfico de drogas. Como Alcides não soube informar onde estava o vizinho, foi assassinado com tiros ali mesmo, em frente à sua casa, no bairro pobre da Torre, no Recife, onde foi criado. Sua mãe, Maria Luíza Ferreira do Nascimento, 44 anos, desesperada, disse que não sabe mais como seguir em frente.

Eu também não sei.
*Foto de Alcides do Nascimento Lins, trazida daqui.

domingo, 17 de janeiro de 2010

O que faz você feliz?

"O que faz você feliz?" Estampada na camiseta da moça que caminha pela orla, a pergunta perde seu caráter ontológico — tipo "Quem é você?", "O que faz neste mundo?", "Você tem alma?" —, para ganhar um jeito inofensivo, quase ingênuo.

"O que me faz feliz?", divago, eu também caminhando pela orla, em sentido contrário. Cada vez mais, o que me faz feliz não é inatingível ou complicado, não me exige sofrimento, planos mirabolantes nem acrobacias. Ao contrário: me faz feliz sentir o sol, a luz sobre o mar, o vento que leva a jangada, o menino que corre com a pipa... Me faz feliz um bom texto, um carinho, um abraço, uma bela obra-de-arte, um copo de vinho, o pedido de desculpas daquele amigo que se afastou sem a gente saber por quê, um beijo, me faz feliz acordar com saúde, gargalhar, dormir com meu amor, o silêncio e a paz, a música, me faz feliz entender-me com os outros (às vezes, desentender-me, também), ser solidária, não sentir culpa porque nem todo mundo é feliz e, aqui e ali, poder ajudar alguém. Miudezas. Cascalhos. Pólens. Pormenores. Minudências: são meus momentos felizes.

E você? O que faz você feliz? pergunta este blog, com a mesma leveza da moça que caminha pela orla, neste início de manhã.
* Imagem daqui

domingo, 30 de agosto de 2009

As crianças e as ruas


[Amigos, desculpem ter aparecido pouco por aqui ultimamente. Um conjunto de coisas me afastou, mas já estou de volta, alegre e com saudade.]
Fui criada no Rio de Janeiro, para onde meus pais se mudaram quando eu tinha três anos de idade. O Rio é a minha cidade afetiva, a que me traz mais memórias recuadas, aquela em que melhor me reconheço. Não este Rio de agora, dilacerado por conflitos sociais e pela degradação que atinge todas as suas esferas e teima em destruir — felizmente, ainda sem conseguir — uma das mais belas e acolhedoras paisagens do mundo.
No Rio onde cresci, nós, as crianças, brincávamos na rua. Isso mesmo: montes de crianças espalhadas ao mesmo tempo pelas calçadas, dá pra imaginar isso no Rio de hoje? E eu não morava em subúrbio afastado ou área semirural, não. Fui criada em Copacabana, na Av. Princesa Isabel, a rua do túnel novo. Ali, e poucos sabem disso, há duas ou três vilas, com casas. Uma senhora idosa, que morava numa delas, aborrecida com a algazarra que aprontávamos, costumava chegar à janela, furiosa, e nos enxotava:
— Saiam daqui, já!
Pois nós, mãozinhas nas cinturas, respondíamos: — O que é, hein? Tá pensando que a rua é sua, é?
A rua era nossa.
Paulatinamente, devido a uma série de fatores conjugados — crescimento da violência urbana, piora do trânsito, superpopulação, aumento do tráfico de drogas, diminuição dos espaços públicos, entre outros — as crianças foram sendo expulsas das ruas. Cada vez mais confinadas às casas, apartamentos, praças cercadas, escolas, pequenos pátios murados, isolados... Espaços não apenas menores, como internos, interiores, e muito vigiados. Neles, a presença de adultos é constante, o que deixa poucas possibilidades às crianças para interagirem livremente, descobrindo o mundo a partir de seus interesses, necessidades e desejos. E ainda cria um bocado de estresse para elas como para os adultos, pois, obrigados a conviver mais do que gostariam, se irritam e se castram mutuamente.
Os espaços urbanos foram ficando tão distantes da infância que, hoje, a expressão “meninos de rua” designa crianças muito pobres, sem estrutura nem apoio familiar, financeiro ou social. As ruas, que já foram minhas e dos meus amigos, tornaram-se espaços degradados.
* Imagem: Cândido Portinari, "Meninos brincando"

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Viajar é dar um tempo no blog

Amigos, escrevi tanto sobre viagem nos últimos tempos, viajei tanto em sonhos, imaginação, desejos, que cá estou eu no interior de São Paulo, em visita à família do marido, que se tornou minha também. Esse cantinho do Estado de São Paulo (área próxima a Ribeirão Preto, conhecida como "oeste paulista", mas que na verdade fica no leste - era oeste em relação ao Estado do Rio de Janeiro, onde as plantações de café começaram, para alastrar-se depois pelas terras férteis do interior paulista, trazendo consigo as estradas- de-ferro), este cantinho paulista, tão diverso do meu Nordeste natal e do Rio de Janeiro da minha infância e juventude, incorporou-se à minha vida desde que, há anos, fui aqui trazida pelo Luiz, paulista de Araraquara, com muito orgulho, sim senhor.

O interior paulista é um país à parte, costumo dizer, como outros países também temos no Brasil. Terra de gente muito hospitaleira, com aquele ar gostoso de abraço, mesa farta, bolos, doces, quitandas, sua gente calma e de gostos rurais, mesmo quando na cidade. Mas também terra de progresso, dinheiro, intensa circulação de mercadorias, terra de transformações econômicas rápidas - hoje vejo aqui um mar de cana, estimulado principalmente pelo programa do etanol, e criado em apenas poucos anos -, uma gente com um pé bem fincado aqui e um olho na capital, no estudo, na mudança. Terra de índios (as Piracicaba, Ipuã, Nuporanga, Ituverava, Guará estão aí para lembrar o massacre dos primeiros habitantes do lugar, que no entanto revivem no cabelo corredio, nos olhos puxados e na pele maravilhosamente lisa de alguns), terra de negros, terra de imigrantes, de italianos a japoneses, a coreanos, a portugueses, a espanhóis, a árabes...

Existem muitos velhos, principalmente velhas, na nossa família. Nesses dias tenho ouvido delas histórias emocionantes, um pedacinho aqui - a gente adivinhando o resto, entre pães de queijo e bolinhos de fubá -, um olhar furtivo ali, um meio sorriso mais adiante, uma gargalhada que escapuliu...

Na falta de tempo - cadê possibilidade de correr até a lan house, com tanta atividade que esse povo arruma pra gente? - registro agora apenas a história da tia cansada de, todos os dias, durante décadas, ficar à disposição do marido às cinco horas da tarde, para servir-lhe a janta, que ele, homem metódico, exige às seis, porém exige fresca, recém preparada por ela (a comida do almoço não lhe serve), mas, muitas vezes, contrafeito, ou desinteressado, não come. Pois essa tia, cansada da doméstica obrigação, anteontem deu seu grito de independência, viajando conosco para a cidade vizinha, onde nasceu e passou a infância, sem horário - sem horário, vejam bem - para retornar ao marido e à sua janta das seis. Desejava realizar um sonho, pasmem, de anos - perambular um pouco pelas ruas da cidadezinha natal, reconhecer nos velhos prédios, na estação, na praça principal partes do próprio passado, decerto para tentar conferir algum sentido, alguma forma à existência ali vivida: quem sabe a de uma colcha colorida de retalhos, tão bem feita pelas velhas do lugar? Assim a tia fez, andando sozinha o quanto quis. Depois reuniu-se a nós na casa de uma sobrinha, para boas gargalhadas, que a família é palhaça, até as oito, as nove, as dez, sei lá até a que horas da noite, daquela noite que escolheu para ser unicamente dela.

Tive a maior admiração pela tia. Para mim, seu tímido, pessoal, rouco e abafado grito de independência foi tão importante quanto os feitos das outras mulheres nossas mais famosas. As vidas de muitas mulheres ainda se passam exclusivamente entre os estreitos corredores familiares, e toda conquista ali, na obscuridade e submissão da cozinha e da alcova, é tão impressionante quanto as mais retumbantes vitórias coletivas femininas.

Volto a contatar de Maceió. Se dispuser de algum tempo antes disso, retorno daqui para contar-lhes a história da tia que foi a primeira da região a se casar com um japonês e a ter de adaptar-se àquela distante (hoje muito mais próxima) cultura.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Brasil bom



Ultimamente, tenho me envergonhado um bocado do Brasil. Me sinto mal diante da nossa miséria, da nossa absurda concentração de renda e de terras, da nossa corrupção, desta violência cega que nos assola, da falta de respeito aos cidadãos, das colossais carências na educação e saúde públicas, dos nossos crimes contra o meio-ambiente. A lista enorme é do tamanho da minha amargura, vergonha, desconforto, revolta. Não vejo esses problemas como obra específica deste governo ou do anterior, vejo-os como males antigos, que governo nenhum parece tentar ou conseguir resolver.
Contudo, vez por outra sou surpreendida por alguma notícia boa. Aí me dá uma alegria, uma esperança doida de que nem tudo está perdido, de que nosso país tão grande, rico em recursos naturais, com um povo tão criativo, ainda vai resolver ou atenuar alguns de seus problemas básicos.
Ontem, me aconteceu uma dessas experiências realmente boas. Devido a um problema doloroso nos músculos e nervos das mãos e braços, que me obrigou a três pequenas cirurgias no ano passado, busquei atendimento médico na rede sarah de hospitais, em Salvador. Para quem não conhece, trata-se de uma rede nacional de hospitais públicos, com unidades em várias cidades do Brasil, voltada para o tratamento de doenças do aparelho locomotor.
Pois bem: exatamente ao contrário do que costuma acontecer em nossos hospitais públicos, tudo lá funcionou muito bem, ontem. De forma rápida, cortês e eficiente, uma funcionária fez meu cadastro e me orientou a aguardar o horário da consulta. Esperei num local sem nenhum luxo, mas agradável, amplo, arejado e impecavelmente limpo, eu e mais uma grande quantidade de pessoas, a maioria, dava para perceber, gente pobre, do povo, muitos com problemas motores seríssimos.
Aproveitei para conversar com essas pessoas a respeito de suas experiências no hospital. Pasmem, só ouvi elogios: os médicos (muito melhor remunerados do que nos outros serviços públicos do país, portanto, de muito melhor nível, no conjunto) são ótimos, competentes e compreensivos; as consultas, sessões de fisioterapia e cirurgias começam no horário marcado, ou com pequeno atraso. Ouvi frases assim: “Estou me sentindo muito melhor do que quando o tratamento começou”; “Eu já fiz cirurgia, agora estou fazendo fisioterapia”; “Fiquei internada, depois de um tempo voltava pra casa nos fins de semana, agora venho aqui três vezes por semana, e, a partir do próximo mês, só uma vez por semana – eu não andava, voltei a andar”; “Quebrei 32 ossos num acidente terrível, agora estou quase inteiro”; “O hospital empresta pra gente cadeira de rodas, muleta, andador, cama especial, o que precisar, depois a gente devolve”. Minha própria experiência ontem foi excelente: como paciente, me senti bem cuidada e orientada; como ser humano, me senti respeitada.
Acreditem: tudo isso é gratuito. Gratuito, não, pois, como escrito no site da rede sarah, a instituição “tem como objetivo retornar o imposto pago por qualquer cidadão, prestando-lhe assistência médica qualificada e gratuita, formando e qualificando profissionais de saúde, desenvolvendo pesquisa científica e gerando tecnologia.”
Não sei se a qualidade que encontrei ontem é a mesma todos os dias, em todas as unidades do sarah, para todas as pessoas. Só sei que, ontem, minha esperança no país reacendeu. Se foi possível conseguir tanto em um lugar específico, será possível conseguir a mesma qualidade e eficiência em outros lugares, atividades, setores. Pela primeira vez em muito tempo, senti orgulho do nosso Brasil. Êta sentimento bom!

*Imagem daqui

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O lobisomem de Viçosa






















(Fotos: Luiz Carlos Figueiredo)

Adoro lobisomens. O principal personagem masculino de meu romance Dandara é um faiscador que, nas noites de lua cheia dos meses de trinta dias, se transforma em lobisomem. Escrevi um livro para crianças, intitulado... Lobisominho. Jamais duvidei da existência desses seres enigmáticos que incendeiam nossas imaginações, confrontando-nos com nossos medos e instintos básicos. Lobisomens estão por aí há séculos, já foram vistos por milhares — bem, talvez centenas — de pessoas. Entre elas, meu filho Bernardo, aos três anos de idade, e meu sogro Deodato, ótimo pescador, que me fizeram relatos detalhados, saborosíssimos, de seus encontros com lobisomens. Há quem desacredite do relato de crianças e pescadores, mas é evidente que esses incréus nada sabem da vida.
Ainda recentemente, conheci um novo lobisomem. Foi na cidade de Viçosa, interior de Alagoas (já notaram que lobisomens não nascem em litorais? Vai ver, têm medo d´ água), quando visitávamos a movimentada feira de sábado, capitaneados pelo poeta Sidney Wanderley, conhecedor de tudo e todos em sua terra natal. Nos deliciávamos com a profusão de cores, odores, sabores, entre queijos, jacas, cocos, melancias, macaxeiras — nada se compara a uma feira de sábado no interior do Nordeste —, quando Sidney cumprimenta vivamente um passante e o faz parar , nos dizendo: “Este é meu amigo José Neto, pintor de profissão. Ele conhece o lobisomem de Viçosa.”
Então acontece bem ali à nossa frente o milagre, epifania. Zé Neto, pacífico avô a fazer compras na feira, de repente se transforma no lobisomem que descreve e conhece tão bem. Não é mais ele quem está ali, em sua camiseta escrita em inglês e enormes óculos escuros, mas um aterrador, enlouquecido lobisomem que em noites de lua cheia sai dos becos para assombrar os moradores da cidade, imenso, peludo, dentes pontiagudos, assim ó, garras à mostra, arfante, dono de um urro ouvido até em Capela, até em Mar Vermelho tem gente que escuta o urro deste lobisomem esfomeado, pelos da cara espetados, focinho tremendo, sempre pronto a atacar as pessoas, a morder, a estraçalhar... Uma noite ele correu atrás da mãe, queria comer a própria mãe! Sim, todos aqui sabem quem é este perigoso lobisomem: umpobre que gosta de ficar vagando sozinho, à noite. Não, ele não concorda que seja o lobisomem, mas ninguém acredita nele, afinal todo mundo aqui já viu...
A platéia cresce, crianças se aproximam para ouvir Zé Neto. O poeta Sidney se empolga, ao recordar o medo que o menino Sidney sentia do monstro. Por um breve tempo, ele também se transmuta em lobisomem.
Desse encontro ancestral saio encantada. Prometo voltar, pois Zé Neto informa que em Viçosa vive também uma lobismulher.
[Pra comprovar a veracidade do relato, aí vão as fotos: Zé Neto/lobisomem mostrando as garras; lobisomem em posição ereta; lobisomem com a pata fechada; a platéia aumenta; o poeta também conta sua história; vista parcial de Viçosa: em qual dessas casas habita o terrível lobisomem?]

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Nunca se casaram


Nunca se casaram. Quando se conheceram, no trabalho, ela era recém separada, se arrepiava só de pensar em casamento. Ele, jovem rebelde com causa, também não fazia questão nenhuma. Gringo recém desembarcado, tonto com os violentos sabores e a bagunça brasileira, apaixonou-se de cara pela morena séria e linda, linda como jamais vira uma, oclinhos de aro fino, bloco na mão a secretariar os diretores da empresa, e uma ginga e um perfume e uma pele completamente lisa que o enlouqueciam.
Deixava-se ficar depois do expediente só pra terem uma chance de conversar, mas ela era difícil, não dava papo. Foi salvo por um comentário distraído, “Tenho de aperfeiçoar meu inglês, a empresa vai entrar agora numa área que não conheço”. Mais que depressa lhe ofereceu a aula de inglês mais barata da cidade, e ainda topou chegar ao trabalho mais cedo, no único horário livre dela.

Aula prá cá, aula prá lá, ela também caiu de amores pelo gringo aventureiro e bem-humorado, dono de um português arrevesado mas carinhoso, o único pra quem sua filha pequena corria rindo, braços abertos antecipando o abraço. Abandonou por uns tempos seriedade, equilíbrio, responsabilidade, pesos que desde pequena carregava nos ombros, como sina. Com ele saltou de pára-quedas, escalou montanhas, matou dia de trabalho, fez trilhas em matas, tomou banho de mar sob a lua, nua. Quando ele recebeu uma proposta de trabalho em outra cidade, foram morar juntos. Mas não se casaram, nem mesmo quando nasceu a filha.

Então ele começou a beber. No início socialmente, um chopp aqui, um whisky ali, depois dois, três copos, cinco, oito, vinte. Apaixonou-se pela cachaça, experimentando todas. A seguir já bebia sozinho noite adentro, em casa primeiro, depois solitário pelas ruas. Voltava de manhã, sujo, rasgado, sem dinheiro e sem estima. Quase morreu, em dois acidentes que provocou. Perdeu tudo: emprego, bens, ela, as filhas, alegria virou vergonha, culpa. Buraco. Um dia, decidiu voltar para seu país. Colocou tudo o que possuía numa mochila e foi ao encontro da mãe, velha e quase cega, que não via há anos.

Sozinha, duas filhas para terminar de criar, ela se valeu da responsabilidade, seriedade, organização, coragem e capacidade de trabalho que nunca a haviam abandonado. Foi em frente. Tocou a vida, pagando as contas, orientando as filhas, um caso amoroso aqui, outro ali – continuava linda –, no coração um vazio danado. Ele ligava com frequência, interessado nela, nas meninas, perguntando dos amigos, contando vagamente de sua vida, estava sendo importante voltar às origens... Ainda não podia ajudá-las financeiramente, ganhava o mínimo. Às vezes, ele falava enrolado – e ela sabia o cheiro do álcool pelo telefone.
Num aniversário da filha, ele apareceu de surpresa. Passou uma semana com elas. A convivência foi muito boa. “Parece até que a alegria voltou aqui pra casa”, ela se pegou devaneando no jardim. Mas se crispou ao ouvir o portão bater duro lá fora: começava mais uma rodada noturna dele. No ano seguinte, ela e as filhas foram visitá-lo, afinal as meninas sentiam muita falta dele. Não bebeu naqueles dias, ao menos que ela visse.
No Natal, recebeu de presente uma passagem, para encontrá-lo na Espanha, lugar especial na história deles. Foi sob os arcos romanos de Segóvia que voltaram a fazer amor, cada um sentindo de novo aquele gosto inconfundível na boca, na alma. A partir daí passaram a viajar juntos uma vez por ano, pelo Brasil e exterior, dependendo das finanças dele, às vezes em companhia das filhas. Ele continuava bebendo, embora menos. Procurava se controlar, mas um belo dia largava tudo e saía sozinho na noite rumo ao seu inferno pessoal. Como se viam só por uma semana, um mês no máximo, e como esses dias eram em geral deliciosos, ela suportava. Só não queria viver junto, muito menos se casar. As amigas invejavam: “Esse é o casamento ideal!”.

Ele esteve presente em todas as datas importantes da família. A cada vez deixava um pouco mais de coisas, pois sabia que voltaria em breve. Quando a filha resolveu se casar, tomou a decisão: retornou de vez ao Brasil, não queria ver o futuro neto crescer longe. Ela concordou com uma permanência curta dele na casa, até que se ajeitasse em algum outro lugar. A permanência foi se estendendo, ficando longa, longa... E ela não podia deixar de sentir como era bom acordar ao lado dele.

A última vez em que bebeu foi num aniversário da filha. Teve ajuda médica para isso, mas antes também tivera, e não adiantara. Não bebe há quase dois anos. A casa deles voltou a ser alegre. Ela se permite de novo ser um pouco irresponsável, mais leve, cabeça de vez em quando nas nuvens, na música... Ele, mais equilibrado, sabendo do que precisa, recuperou trabalho e bom humor.
Eu disse "nunca se casaram"? Pois se casaram há pouco, quando souberam que ganhariam um neto. Acharam que, afinal, não ficava bem se tornarem avós solteiros...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Y se ama como se come


Ama-se como se come, diz o ditado.
Minha irmã acha que o marido se apaixonou por ela ao vê-la comer uma maniçoba, deliciosa iguaria de carne de porco misturada às folhas tenras, trituradas, da mandioca. É provável: meu cunhado, ótimo cozinheiro, afeiçoa-se às morcelas, tripas, cozidos e pães da deliciosa e pesada culinária portuguesa. Minha irmã, com graça, diz que o marido acharia sexualmente desanimador ver uma mulher jantar apenas uma folhinha de alface. Ele tem razão: comer só uma folha de alface sugere mania de regime, portanto mulher excessivamente vaidosa, intolerante, triste, com tendência à anorexia, desprovida das carnes, molhos e generosidades indispensáveis ao bom sexo.
Mas, e eu, como fico nessa história de amores e comidas? Adoro saladas! No universo da exaltação das maniçobas e que tais, minha reputação amorosa, assim como a de todos os outros amantes da salada, seria atirada ao limbo? Metida em brios, faço uma apaixonada defesa das possibilidades eróticas das saladas.
Duvida? Então, comece misturando amorosamente, bem devagar, prestando atenção ao que faz, os lindos tons e subtons verdes das folhas ao vermelho-paixão da beterraba, ao alaranjado-coração da cenoura, à malícia do tomate, às azeitonas – que, antes de mordidas, devem ser saboreadas vagarosamente por toda a boca -, sem se esquecer, claro, dos picantes pimentões. Sinta o aroma inconfundível do manjericão, que, mesclado ao do orégano, fará você se perguntar onde diabos já sentiu aqueles cheiros maravilhosos, em qual jardim, qual alcova, qual marinha...
Antes de saber a resposta, você já estará acrescentando as uvas, que não embriagam mas conduzem certamente ao mundo excitante dos vinhos e suas semi-verdades. Ao final, derrame em tudo bastante azeite da melhor qualidade – o método deve variar, de uma só vez só, ou gota a gota, bem devagarinho. Não se esqueça de envolver toda a salada no azeite, para que fique bem molhadinha, com aquele inconfundível ar mediterrâneo. Polvilhe finalmente sal, porque sem sal a vida não tem graça.
O melhor de tudo: ao final, você se sentirá leve, leve, absolutamente em forma para qualquer exercício do amor, bem ao contrário do que aconteceria após uma maniçoba...

sábado, 30 de agosto de 2008

Olhos verdes


A mãe dela dizia sempre: “Os olhos dele são verdes”, mas ela sabia que não. “São pretos, tá me ouvindo? Eu é que sei”, respondia, naquela irritação típica de adolescente com mãe. Às vezes pensava: “Os olhos pretos dele são como rochas, que suportam o mar, o mundo. Me protegem. Com os olhos pretos dele, nunca vou afundar na vida”.
Encontraram-se ainda muito jovens, ela quase menina, ele pouco mais velho, estudante universitário. Paixão. Descoberta da vida, adivinhação do sexo (que não fizeram, ela prometera à mãe, os tempos eram outros), conversas íntimas, sonhos de casamento, afinal os pais aprovavam, tudo nos conformes, previsível, como os pretos olhos dele.
Deu tudo errado.
Ela buscou outros chãos, curiosa aventurou-se pelo mundo, sôfrega de emoções, conhecimento, felicidade. Afundou, reergueu-se para novos mergulhos, píncaros e vales, no meio um longo casamento que deixou lembranças difíceis mas filhas lindas. Mudanças, recomeços, vitórias, realizações profissionais, pessoais. E também aquela persistente insatisfação, aquela busca que não parava nunca de pedir, de exigir dela que procurasse, que insistisse, que não desistisse. Não sabia bem o quê, do quê. E como não sabia, não encontrava. Ficava só aquele oco, o sentimento da falta.
Ele seguiu seu caminho longe, dedicou-se seriamente à carreira, chegou ao ápice ali. Casamento também longo e infeliz, também filhos lindos. E uma tristeza... que não passava. Em frente ao mar da sua cidade, muitas vezes se perguntou por onde ela andaria, em que outros mares navegava – e o que via era só horizonte vazio. Uma tristeza que nunca o deixava.
Reencontraram-se há pouco, quarenta anos depois. Tudo de repente fez sentido. Redescoberta da vida, do sexo selvagem e manso como só os experientes sabem. Quanta história pra contar! Agora caminham os dois por aí de mãos dadas, felizes, felizes. Só querem saber de namorar, nada de casamento formal. E ela descobriu que os olhos dele são, sim, verdes. Como relvas, que não agüentam o mundo mas onde ela pode se deitar, rolar, afundar no prazer, na alegria, relaxar -- enfim se aconchegar.