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sexta-feira, 19 de março de 2010

Pra começar bem o dia (11)


Neste retorno de viagem, quando ainda não aterrissei completamente – imagens de lá e de cá se confundem em nuvens e estranhos sentimentos–, compartilho com vocês este poema, escrito por um poeta que admiro e sempre leio:

&

Não é sempre que estamos para papos
com anjos: o da espada
auriflamante era só engraçado.

Diz-se que até um anjo
da guarda, ao olhar-se no espelho, caiu
na gargalhada.

Mas se algum anjo bater na sua janela
ou escrever nela alguma algaravia,
não ria: talvez sejam palavras
belas.

Antônio Brasileiro, Pequenos assombros
(Bahia, Edições Cordel: 2001)


*Imagem: Domenico Beccafumi - detalhe de São Miguel caçando os anjos rebeldes, 1528.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Mundo pequeno



Mundo pequeno

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

Manoel de Barros

(Trecho de “Mundo Pequeno”, em O Livro das Ignorãças. Rio: Civilização Brasileira, 1993.)
O excelente desenho representando o poeta foi trazido daqui.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Pra começar bem o dia (10)


Rotação

As horas não ocorrem
ao mesmo tempo
em todos os cantos

Entretanto
cada canto
tem a seu tempo
as mesmas horas

Jorge Cooper

[Cultuado por pequeno grupo de poetas e aficionados da poesia, pouco conhecido ainda do público, Jorge Cooper (1911-1991), poeta alagoano filho de pai inglês, viveu no Rio de Janeiro e em Maceió. É uma das vozes refinadas da poesia brasileira do século XX.]
* Imagem: Salvador Dali, A persistência da memória

sábado, 31 de outubro de 2009

Viajar é sonhar


Amigos, muitíssimo obrigada a todos os que passaram por aqui nos últimos dias, dando uma força, deixando uma mensagem carinhosa, torcendo, rezando ou fazendo pensamento positivo pelos meus doentes. Quero lhes dizer que deu certo: meu pai está bem melhor, vai ser transferido para um quarto comum de hospital; e o jovem André teve a terrível pneumonia debelada ontem. Sinto-me grata, muito grata, feliz, otimista, coração limpo. Obrigada. É muito bom não se sentir só. Creio que dentro de poucos dias, terei a alegria de estar de volta aos blogs de vocês, leitora ávida. Por enquanto, ainda passo os dias no hospital, onde meu laptop não pega, e, mesmo se pegasse, a imaginação foge. Saúde a todos vocês!.

[Da série sobre viagens]

A viagem

Quem é alguém que caminha
Toda a manhã com tristeza
Dentro de minhas roupas, perdido
Além do sonho e da rua?
[...]
Alguém me diz toda a noite
Coisas em voz que não ouço.
- Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

João Cabral de Melo Neto, O engenheiro, 1945 (primeira e última estrofes).
* Imagem daqui

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Gatos não morrem

Já tive muitos cachorros, jamais gatos. No entanto, tenho a maior simpatia pelos gatos, animais de personalidade. Alguns de meus amigos mais queridos são apaixonados por gatos. Minha filha Janice teve um gato, que dormia com ela, os dois abraçados, apesar de ela ser alérgica. Acho que, à época do início difícil da adolescência, ela concentrou naquele gato quase todo o afeto que possuía.
Vejam que delícia este poema sobre gatos, escrito por Nelson Ascher para uma amiga cujo gato havia morrido:


Elegiazinha

Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
— se somem — é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

Nelson Ascher
(Parte alguma. São Paulo: Companhia das Letras, 2005)

* Imagem daqui

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pra começar bem o dia 7


Predestinação

— Entra pra dentro, Chiquinha!
Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que você vai
você acaba prostituta!

E ela:
— Deus te ouça, minha mãe...
Deus te ouça ...

(Ascenso Ferreira, Xenhenhém, obra do modernismo nordestino)
*Imagem: Di Cavalcanti, "As Cores do Brasil"

domingo, 23 de agosto de 2009

Viajar é perder-se


[Continuando a série sobre viagens]

Viagem

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.

Orides Fontela (do livro Rosácea, 1986)

Apesar de pouco conhecida do público, a paulista Orides Fontela (1940-98) é uma das melhores poetas brasileiras do século XX. Teve uma vida difícil, devido a problemas ecônomicos e mentais — faleceu em um sanatório —, mas sua poesia mereceu prêmios importantes, como o Jabuti e o da Associação Paulista de Críticos de Arte. A obra de Orides Fontela está agrupada no volume póstumo Poesia reunida (S.Paulo: 7 Letras/Cosacnaify, 2008), um livro em que vale a pena viajar, redescobrir-se, perder-se.
*Imagem: "Scape", pintura de Stephen Linhart

sábado, 8 de agosto de 2009

Boa notícia!


Amigos, recebi ontem uma notícia muito boa, que desejo compartilhar com vocês: a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) aprovou o pedido que fiz de apoio à publicação do livro Jacinta Passos – Canção Atual.

Jacinta Passos (1914-1973) foi uma expressiva intelectual da Bahia, que publicou quatro livros de poemas e se tornou uma das mais ativas jornalistas do Estado. Seus livros — elogiados à época por intelectuais do porte de Mário de Andrade, Antônio Cândido, Aníbal Machado e muitos outros — estão esgotados há vários anos. Sua vida, marcada por tragédia pessoal e pela luta incansável em prol de justiça social, transformações políticas e melhoria da situação das mulheres, é pouco conhecida.

Além dos poemas publicados em vida, acrescidos de notas explicativas, a edição aprovada trará a produção jornalística de Jacinta Passos, seus textos inéditos, sua biografia e a fortuna crítica sobre sua obra, ao lado de ensaios escritos especialmente para a publicação, de autoria de intelectuais conhecidos. O volume será publicado pela Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba) e pela Editora Corrupio.

No dia 11 de setembro, assinarei o convênio com a Fapesb, e a partir daí trataremos da edição. Jacinta Passos é minha mãe. Sinto enorme alegria em ter podido contribuir para que sua arte, pensamentos e trajetória biográfica possam estar de novo ao alcance de leitores — novos leitores, que decerto saberão amá-la, compreendê-la e estudá-la.
*Foto de Jacinta Passos, início da década de 1940. Fotógrafo desconhecido.

sábado, 6 de junho de 2009

Pra começar bem o dia 5



Memória amorosa

Quando ele aparece
bonito e mudo se posta
entre moitas de murici.
Faz alto-verão no corpo,
no tempo dilatado de resinas.
Como quem treina para ver a Deus,
olho a curva do lábio, a testa,
o nariz afrontoso.
Não se despede nunca.
Quando sai não vejo,
extenuada por tamanha abundância:
seus dedos com unhas, inacreditáveis!

Adélia Prado

Não é absolutamente lindo este poema? Surpreendente, original? Gosto muito dele, por isso hoje o compartilho com vocês.

[Adélia Prado. Poesia reunida. S.Paulo: Siciliano, 1991, p. 346.]

terça-feira, 2 de junho de 2009

Mulher do peito de grama



Meu peito é meu
medidor de sentimentos
esta ferida imensa ferida
custa a cicatrizar

Mas hoje está
hoje está
nascendo grama em meu peito

Fecho os olhos na cama
me cobre um negro céu de estrelas
ah!
mulher do peito de grama

Janaína Amado
[Este blog está me deixando inteiramente incauta, insensata, desmiolada: além de andar cometendo poemas, ainda os posto aqui!]
* Imagem: Marc Chagall, detalhe de vitral, Museu Chagall, Nice, França

domingo, 21 de dezembro de 2008

O poeta mais importante


Celebridade
Eu sou o poeta mais importante
da minha rua.
(Mesmo porque a minha rua
é curta.)
Quer saber, quer reler quem escreveu este poema? Clicaqui!!!