terça-feira, 12 de outubro de 2010

Um tempo


Queridíssimos amigos e leitores,


Este post oficializa uma situação que já vem existindo de fato: a suspensão deste blog por algum tempo. Desde junho, quando publiquei o livro de/sobre minha mãe, a poeta Jacinta Passos, me vi envolvida em muitas atividades ligadas ao livro (três lançamentos, entrevistas, site, blog, etc.), atividades que me interessam, já que o principal objetivo do livro é justamente o de divulgar a trajetória poética e pessoal de Jacinta. Passei também por um período pessoal conturbado, envolvendo desde uma fortíssima tendinite até problemas e doenças em família. Tudo sob controle agora, mas esse tipo de coisa, vocês sabem, nos consomem tempo e energia.

Finalmente, também tenho estado empenhada em reunir, organizar e aperfeiçoar meus escritos literários, com vistas à publicação. Tenho trabalhado nos poemas e textos para crianças e também em contos para adultos. Ah, e há também as viagens, para perto e para longe, de que não abro mão enquanto saúde e recursos permitirem, pois são fonte de muito prazer e inspiração. Amanhã mesmo parto para a ilha mágica da Sicília.

Compreendo a blogosfera como uma atividade essencialmente interativa — ler e comentar os posts dos outros é tão rico e importante quanto escrever e publicar os próprios —, o que demanda disponibilidade e tempo. E o fato é que, pelo conjunto de motivos relatados, não tenho conseguido atualizar os blogs. Conseguiria aqui e ali no máximo postar um texto meu, mas não quero assim: quero meu círculo de leitores e amigos de volta, quero a beleza e a riqueza de toda essa experiência para mim maravilhosa. Tão maravilhosa que retardei o quanto pude este texto de agora, na esperança de que, na próxima semana, sim, seria possível retornar à blogsofera.

Assim, meus queridos, paro aqui, mas voltarei. Assim que possível, espero que em breve. Por ora, as flores aí de cima, o meu abraço carinhoso e o meu agradecimento a vocês todos, pelo que me proporcionaram de convívio rico, intenso, instigante, bonito, pelas lágrimas e risadas. 

Em tempo: o site e, dentro dele, o blog de Jacinta continuarão atualizados. E eu permaneço no twitter e no facebook, meios mais fáceis e descompromissados do que os blogs.

domingo, 6 de junho de 2010

Corações militantes



Há algum tempo, respondendo a um desses selinhos com perguntas que às vezes circulam entre os blogs, escrevi aqui que uma das oito coisas que desejaria fazer antes de morrer era publicar um livro com a obra completa de minha mãe, a poeta Jacinta Passos. Pois bem: nesta próxima terça-feira, dia 8 de junho, entre 18 e 21 horas, no Conjunto Unibanco de Cinema Gláuber Rocha, em Salvador, estarei realizando esse desejo antigo, que me ocupou os últimas anos de trabalho: neste dia, lançarei em Salvador Jacinta Passos, coração militante, um volume de 580 páginas, que contém todos os livros publicados em vida por minha mãe, ao lado de seus poemas esparsos, textos inéditos em verso e prosa, biografia, fortuna crítica, fotos e estudos escritos especialmente para esta publicação, iniciativa da Editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA) e Editora Corrupio, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB). 
O livro, com produção editorial de Bete Capinan e projeto gráfico de Ângela Dantas Garcia Rosa, está muito bonito. É embelezado por desenhos que o grande artista brasileiro Lasar Segall fez originalmente para Canção da Partida, um dos livros de Jacinta, agora reproduzidos graças à autorização do Museu Lasar Segall, de São Paulo.
O volume traz de volta uma mulher corajosa e uma poeta importante, falecida em 1973, que, por falta de circulação das obras, estava caindo no esquecimento. Espero que contribua para reavivar o interesse em torno da literatura e da figura de Jacinta Passos, gerando novos estudos sobre ela.
Para mim, pessoalmente, além de poder contribuir para o resgate de uma escritora, sinto um tipo de felicidade muito pessoal, difícil de traduzir. Trata-se da realização de um desejo fundo, de um sonho que já me pareceu quase impossível, porém agora é realizado: o reencontro com minha mãe (com quem não fui criada) e, por meio dele, com a minha própria história.  

*Imagem: minha mãe e eu, Jacinta e Janaína.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Maria Sampaio



Retornar ao blog está sendo muito difícil para mim, pois anteontem, dia 2 de junho, perdi uma amiga muito querida: Maria Guimarães Sampaio. Nós nos conhecemos na adolescência, pois nossas famílias eram amigas e, depois que meu tio Jorge retornou para a Bahia, nossos contatos se amiudaram. Passei umas férias inesquecíveis na casa de Maria, nós duas com 16, 17 anos, soltas em Salvador, indo a carnaval, parque de diversões, praias, era uma risadaria só, nós duas e Nanã, prima dela. Os pais de Maria, Norma e Mirabeau Sampaio, ele um comerciante com alma de artista - teve uma das mais belas coleções de arte sacra do Estado, ele próprio um artista de primeira -, e seu irmão, Artur, me garantiam uma acolhida alegre e carinhosa na casa deles, inesquecível.
Maria e eu nunca nos perdemos de vista, mas a vida nos afastou, cada uma prum lado em cidades diferentes, cuidando da própria vida, tombando, recomeçando. Há alguns anos, eu já em Maceió, nos reaproximamos. Em 2005, quando apresentei uma palestra sobre a vida de minha mãe, a poetisa Jacinta Passos, foi Maria quem preparou o power point. Fotógrafa de primeira, com participação em exposições e livros, Maria Sampaio se tornara também escritora. Publicou 4 livros: A Estrela de Ana Brasila (que eu adoro) e Rosália Roseiral  (onde entremeia histórias com letras de música antigas), ambos pela Record, e Continhos para Cão Dormir I e II, ambos pela P 55, onde reuniu pequenos textos, pequenas pérolas sobre tudo o que importa na vida. Ao ler Continhos para Cão Dormir I I, lançado no início desta 2010,  ri muito - Maria era excelente contadora de causos engraçados -, mas também chorei muito, porque o senti como um livro de despedida, de adeus. Maria lutava há 10 anos contra o câncer, e nos últimos tempos estava muito difícil viver. Morreu sedada, como pediu, "pra só abrir os olhos do outro lado".
Não conheci ninguém mais valente do que ela. Não só na luta contra a doença - enfrentava suas batalhas pessoais e, no grupo Bem-Viver, ajudava os outros a suportarem as suas -, mas na atitude diante da vida, sempre destemida, fazendo e dizendo o que bem entendesse, quando e como entendesse, sem papas na língua, gostassem ou não. Era capaz das maiores zangas e das maiores ternuras, não raro as duas misturadas. Não existia meio-termo para ela. Ninguém podia ficar indiferente a Maria, acho que por isso foi tão amada, e por isso marcou tão fortemente cada pessoa de quem se aproximou, mesmo que por um breve tempo. Imaginem numa amizade de uma vida inteira.
Não consigo mais escrever sobre ela, as lágrimas caem sem que eu queira, ainda estou ferida demais da perda e da saudade. 
Para que vocês conheçam um pouco mais sobre Maria - e, aqueles que a amaram, para que se recordem novamente dela -, tomo a liberdade de colar aqui o lindo texto que Jorge Velloso escreveu sobre ela, e que a avó dele, Mabel Velloso, grande, querida amiga de Maria, com a voz embargada leu  na cerimônia do crematório de Salvador, emocionando-nos a todos que estávamos lá, e trazendo inteira a figura ímpar, inesquecível, de Maria Guimarães Sampaio.

Tucão está em novo estúdio



Se fossem reveladas fotografias de nossos corações hoje, com certeza sairiam sem cor, sem preto nem branco. Afinal, nossa fotógrafa, nossa companheira de farra, nossa tia, nossa amiga, nossa Maria Sampaio se despediu. Cansou, se retou (como ela mesmo gostava de falar) e foi fazer novos retratos, num estúdio lá por cima.
Se a internet do Céu estiver em boas condições, com certeza logo veremos fotos de São Jorge passeando de cavalo no blog de Maria. Com certeza veremos fotos de São Francisco brincando com Tieta e outros cachorros no Continhos para Cão Dormir. Veremos fotos de Dona Zélia com Jorge ao lado de Dona Norma e Dr. Mirabeau...

Ah! Com certeza, essa hora Maria está toda enturmada. Já deve ter arranjado um monte de empregos free lancers e está toda serelepe fazendo até foto 3x4 de Jesus Cristo, enquanto Voltaire Fraga faz de São Benedito.

Lá por cima deve estar um salseiro, porque do jeito que Maria era aqui embaixo, ela já deve ter contado um monte de casos engraçados que ela ouvia em Santo Amaro e claro, já deve ter mandado um monte de anjo chato à merda, porque muito puritanismo com ela não cola.

    Só espero que ela não olhe aqui para baixo porque Maria vai se retar se vir que estamos todos tão tristes, tão saudosos e com a fotografia da saudade estampada no peito. Ela pediu que os amigos estivessem reunidos na hora que ela mudasse para o estúdio do primeiro andar, e aqui estamos, mas é nosso dever fazermos o possível para colocar pelo menos um pouco de cor no retrato deste adeus.

Uma boa saída é lembrarmos as gargalhadas de Maria. Assim, instantaneamente já vamos ser contagiados com o flash da felicidade e colocaremos um pouco de cor na foto de um dia tão triste.


Siga em paz, Tucão, e obrigado por ter dado tanto bem-querer a mim e à minha família. Ah! Quando eu te encontrar no novo estúdio vou querer que você faça fotos minhas tão bonitas como as que fez no meu casamento.

Jorge Velloso

* Foto de Maria Sampaio feita por Adenor Gondim, publicada no jornal A Tarde, Salvador,3/06/2010.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Volto já

Amigos, estou saindo para uma viagm básica. Não demoro! Abraços a todos vocês.

* Imagem daqui.

sábado, 1 de maio de 2010

Maceió, cidade-poesia


No último dia 29, a capital de Alagoas foi envolvida pela poesia. Iniciativa do Projeto Papel no Varal, que já vem acontecendo há um ano na cidade. A idéia é simples, por isso mesmo funciona: folhas de papel com poemas – de diversos autores e épocas – são penduradas em cordas, à moda de varais, para as pessoas lerem. Até agora, os varais poéticos ficavam no local onde iria acontecer o evento – restaurante, livraria, casa de cultura, parque etc. No dia marcado, as pessoas ali se reuniam, e quem quisesse pegava no varal o poema que desejasse, e o lia para os outros. Alguns eventos foram temáticos: erótico, infantil, etc. Sucesso total.

Desta vez, o acontecimento se espalhou pela cidade inteira, virou intervenção urbana, com o mote “Poesia de todo canto, poesia pra todo mundo”. Foram preparados muitos varais, quem quisesse pegava o seu em local indicado e o pendurava onde quisesse, para a população ter acesso a eles. Houve colaboração de escolas, grupos de teatro, grupos de bicicleta, poetas, faculdades, atores, lojas, os jovens aderirindo em massa… Eu me senti orgulhosa de morar em Maceió.

O assunto ganhou matéria no Bom-Dia Brasil e no Estadão. O Papel do Varal é coordenado pelo poeta, engenheiro e professor Ricardo Cabús; a coordenação desta Intervenção Urbana foi de Tayra Macedo. Fotos de Alice Jardim.


Bicicletas e poemas


 Parada de ônibus poética.


Poemas em locais improváveis....

Vídeo aqui

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Hoje acordei (8)



Hoje acordei…

… olhos verdes.
Transparentes mistérios
e este fundo de mar.



Hoje acordei…

… esfomeada.
Gangorra de melancia
Professora de sorvete
Caderno de macarrão
Nintendo de chocolate


Hoje acordei…
… curiosa:
o que será que o mundo tem
além, mais além
do colo da minha mãe?

* Imagens (de cima para baixo): daqui, daqui e foto de Rose Guaditano (Brazil Photo Bank),

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Poema contraditório


Poema contraditório

Você acredita em bruxa?
Eu, não. Mas elas existem.

E você, acredita? Eu acredito.
Mas elas não existem.

[Da série "Poemas para crianças", que estou escrevendo.]

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Diálogos (im)possíveis 17





com o que é que a gente sonha antes de morrer
biblia Raquel mostra os peitos
hostilizo meus ocos
documento de abandono de tratamento ortodontico
cacete do fred flintstones
homem bate a cabeça e abre ao meio em concreto ao tentar um
quanto uma mulher tem que medir de peito
como chegar humilhar com estilo menina xingando menino
quando morreu Milor Fernandes
arcadesenho da garça engolindo o sapo e o sapo apertando o p
contos de xoxota da tia
acordei as 4 horas
cursos de costura industrial

Não, (ainda) não enlouqueci. As frases acima são palavras-chave, keywords que leitores desavisados registraram no google e, sabe-se lá Deus por que, os conduziram até meus blogs. Acontece com vocês também?

*Imagem daqui

terça-feira, 20 de abril de 2010

A menina e o aniversário

A menina sabe: neste dia mágico tudo é para ela, por causa dela, em função dela, por ela. Não tem coisa melhor no mundo do que aniversário. Bastante tempo antes, já começa a perguntar: Falta muito pro meu aniversário? Mas pouco, quanto? É amanhã? E o meu bolo vai ser bonito? O que você vai me dar de presente? E você? Eu não quero surpresa nenhuma, eu quero saber qual é o meu presente de aniversário agora!

A ansiedade aumenta, alcança níveis quase insuportáveis, mas a menina entende que é ansiedade boa, vontade de chegar logo o grande dia, quando ela – que normalmente se sente pequena, insegura, solitária – de repente se transforma numa linda princesa, amada e poderosa.

Para a menina, o melhor do aniversário são os presentes. Hi hi hi, não tem nada melhor na vida do que ganhar presente, não tem não, a menina ri inteira enquanto rasga o papel de embrulho, louca para descobrir o que há ali dentro, o que estão lhe ofertando, qual dádiva lhe cabe. Tão feliz, tão feliz, tão feliz, todo mundo em volta de mim, todo mundo me amando! E ela pula de alegria pela casa inteira, no meio dos convidados.

Suas festas de aniversário são modestas, os pais não as incentivam muito, mas quem se importa? A menina as considera enormes, coloridas, animadas, sente a cidade inteira comemorar junto com ela, com bolo, guaraná e brigadeiro em casa, nas ruas as bandas de música, as praias lotadas, bandeirinhas, balões, parques de diversão cheios de crianças… No dia do seu aniversário, não vai à escola. Nem meus pais trabalham, só pra ficar comigo, conta para a amiguinha, derretendo-se de satisfação.

O aniversário também representa uma das piores desilusões da menina.

Está no primeiro ano de escola, sentada junto aos coleguinhas, na sala de aula. A professora lhes pergunta: “Quem sabe por que no próximo 21 de abril é feriado?” Silêncio total, expressão da mais profunda ignorância. Mas eis que um dedinho se levanta...

“Viram, crianças? A menina sabe! Diga, menina, fale bem alto para todos os seus colegas ouvirem: por que o dia 21 de abril é feriado nacional?”

Peitinho inchado de orgulho, a menina responde: Porque é meu aniversário, ora!

Mas… por que a professora tá rindo? Hã? O quê? Qual Tiradentes? Que Inconfidência Mineira? Que diabos essa professora tá dizendo? Não estou entendendo nada, não pode ser!

Respira fundo e, já com os olhinhos cheios de lágrimas, balbucia, inteiramente perdida:

Mas e o meu aniversário? E eu???

Até hoje não se recuperou direito do momento em que perdeu a primeira infância.


Imagens: Bilhete e foto da menina aos 5 anos.

domingo, 18 de abril de 2010

Pra começar bem o dia (12)


Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.


Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre

[Leia trecho de entrevista do grande escritor português Manuel Alegre aqui.]
*Imagem: Brigitte Bouron, Barque sur la Mer

quarta-feira, 14 de abril de 2010

sábado, 10 de abril de 2010

Hoje acordei... 7


Hoje acordei...

… o poderoso amarelo.
Raio de sol, doce-de-leite
(ambrosia na panela)
e na janela canários.


… chuva.
Vim te molhar,
vim te refrescar
— te fertilizar.


Hoje...

... não acordei.
Um olho semicerrado,
e o outro
ainda…
fechado!


Hoje acordei…

… enluarada.
Maré cheia, dor minguante,
vida nova, amor crescente.

* Imagens, de cima para baixo: daqui, daqui, daqui e daqui.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Tragédia no Rio e Niterói


Este blog está hoje de luto, pela imensa dor dos moradores do Rio, Niterói e suas regiões metropolitanas. Um abraço solidário e comovido a todos os que perderam amigos e parentes nesta tragédia brasileira que não parece ter fim, pois se repete, em maior ou menor grau, todos os anos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Tarô pessoal, carta 8

Desamparo

Como andar pelo mundo assim sem um amor, um talismã, um cajado, sem um único amigo, um cahorro, uma ovelha, sem ao menos a lembrança de um lugar para chamar de meu? Como seguir assim trôpego e vazio, este buraco por peito, no rosto a ventania sem nome que traz areia, seca os rios e engole as lágrimas que não me descem? Como vagar assim sem liberdade, decidir sem desejo, continuar arrastando vida afora esta pesadíssima, insuportável sensação de não me sentir amado, pior ainda: não merecer ser amado?

Quando eu, a carta do Desamparo, o escolhe, amigo, não resta dúvida: é hora de você baixar armas, e sair correndo a pedir colo e abraço, onde eles estiverem. Você vai se surpreender duplamente: com a enorme quantidade de desamparados e com a enorme quantidade de amor no mundo.


* Imagens: BBC e daqui

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Mãe que fosse


Há histórias que eu só escuto na Bahia. Não sei se são os personagens, se é o jeito de contar, se é o enredo... sei que são histórias baianas.

Esta se passou em Santo Amaro da Purificação e, me dizem os baianos, é verídica. Lindaura foi a Santo Amaro visitar a família da irmã, que não via há bem uns dois anos. Abraçou a irmã e o cunhado, beijou as sobrinhas, espantou-se com o crescimento do sobrinho:

— Tadeu, você está um homem, já! Quando eu lhe vi pela última vez, você era uma menino, agora já está um rapazinho! Deixa eu ver, já tem até bigode! – exclamou a tia, passando o dedo no buço de Tadeu que, do alto dos seus 13 anos de idade, abaixou a cabeça, morto de vergonha.

À noite, Tadeu levantou-se para ir ao banheiro. Atravessava o longo corredor da casa – daquelas casas antigas de Santo Amaro, salinha de entrada, longo corredor com quartos dos dois lados, ao final a sala de jantar/cozinha, onde fica a família toda e, só depois, o banheiro -, quando passou pelo quarto onde dormia a tia. Devido ao forte calor a porta estava aberta, e a tia, uma quarentona bem apanhada, dormia descoberta, deixando à mostra o corpo moreno muito bem torneado.

No auge da explosão dos hormônios, o jovem Tadeu não resistiu: entrou no quarto e caiu em cima da tia. Ela acordou assustada e, ao entender o que se passava, deu-lhe a maior bronca:

– O que é isso, menino? Que maluquice! Me respeite! Eu sou sua tia!

Ao que Tadeu respondeu:

– Mãe que fosse!

No dia seguinte, a tia contou a história em família, rindo. Em pouco tempo, toda Santo Amaro sabia do caso. Quando Tadeu passava, gritavam-lhe, para seu desespero:

- Mãe que fosse!

O apelido grudou de tal forma que, dizem, Tadeu Mãe-Que-Fosse teve de mudar-se, nunca mais voltando a Santo Amaro.

[Escrevendo da Bahia]
* Aos leitores portugueses: lembrando que, no Brasil, “apelido” é o mesmo que “alcunha”.
** Imagem daqui

domingo, 28 de março de 2010

Conversa a dois

Imagem de autoria do maravilhoso artista australiano Shaun Tan.
O que será que estes dois conversam? me peguei perguntando.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Hoje acordei...6

Hoje acordei…

… a deusa Nu Wa.
Arrasto meu corpo
querendo brincar
.


Hoje acordei…

… com vontade de voar
.



Hoje acordei…

… bolha de sabão.
Ar que flutua na
imaginação.



Hoje acordei…

sapo-cururu.
Inveja da borboleta!

segunda-feira, 22 de março de 2010

Não confio mais no sedex



Há dias tento escrever este texto, mas não consigo. Não sei se devido à minha frustração com o assunto, ao fato de eu chorar toda a vez em que penso nele, à minha profunda sensação de impotência... Vou tentar vencer ...
(O texto continua aqui)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Pra começar bem o dia (11)


Neste retorno de viagem, quando ainda não aterrissei completamente – imagens de lá e de cá se confundem em nuvens e estranhos sentimentos–, compartilho com vocês este poema, escrito por um poeta que admiro e sempre leio:

&

Não é sempre que estamos para papos
com anjos: o da espada
auriflamante era só engraçado.

Diz-se que até um anjo
da guarda, ao olhar-se no espelho, caiu
na gargalhada.

Mas se algum anjo bater na sua janela
ou escrever nela alguma algaravia,
não ria: talvez sejam palavras
belas.

Antônio Brasileiro, Pequenos assombros
(Bahia, Edições Cordel: 2001)


*Imagem: Domenico Beccafumi - detalhe de São Miguel caçando os anjos rebeldes, 1528.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O último dinossauro da Terra

O dinossauro chegou bem devagar
com aqueles olhos mansos
balançando o corpo pesado
cabeçona caída, boca fechada.
De tão encolhido, nem se via o rabo.

Estava muito triste, o dinossauro.

Solitário. Há mais de cinquenta anos
caminhava em seu passo firme e lento
pelas savanas africanas — e nada.
Não encontrara nenhum companheiro.
Nenhum bicho igual a ele.

Descobrira zebras girafas leoas javalis
que, aborrecido, derrubava com o
dedo mindinho da pata esquerda
— e às vezes, desgostoso,
nem comia.

Tigres camelos mastodontes
— isso sim havia. Jacarés
também. Simpatizou com estes.
Mas jacarés não são dinossauros
não senhor. A verdade crua:
no mundo não existia
um único dinossauro como ele.
Nem unzinho.

Cinquenta anos de solidão nas
savanas africanas é tempo demais,
até para um ser habituado
às durezas da vida um
casca-grossa como ele.

Arrasado0 vazio entristecido
o último dinossauro da Terra
desistiu de viver. Por que habitar
um mundo sem amigos um
mundo onde não havia ninguém
para tocar as estrelas, junto a ele?

O dinossauro deitou-se sobre folhas,
à sombra da mais alta árvore da África.
Encolheu lentamente as patas
largou no chão o pescoço grosso
e fechou para sempre os olhos cansados.
Virou pássaro.

PS - Amigos, viajo hoje - para o interior, paulista e mineiro. Volto daqui a uma semana, até lá.
* Imagem daqui.

terça-feira, 2 de março de 2010

Bicharada, ou os tempos da história




Foram só 80 km até lá, mas meus amigos e eu tivemos a impressão de ter feito uma longuíssima viagem no tempo, rumo è época em que os mitos eram absolutos. O lugar é Boca da Mata, pequena cidade no interior de Alagoas. Ali mora a família de Manoel da Marinheira, hoje com 93 anos, artista popular que criou a arte de esculpir feras, felinos e outros animais em troncos de jaqueira. Ele ensinou o ofício aos 20 filhos, e alguns deles, entre os quais André (de camiseta vermelha na foto de cima), Sebastião e Manoel Filho (de óculos escuros e camiseta azul), seguem sua arte.
Ao chegarmos, surpreendemos Manoel da Marinheira Filho esculpindo na madeira um lobisomem devorando um carneiro. Sua mãe, Nancy (de vestido estampado), alegre e afetiva, logo nos foi contando muitas histórias de lobisomens que, sim, vivem ali mesmo em Boca da Mata (nome apropriado, pensei), e sim, devoram pessoas e depois desviram em gente, e… As histórias se sucediam, contadas pelos membros da família, que nos envolveram a todos naquele mundo afetivo de bichos que existem e bichos que não existem, de frutas e rios, mesclados aos fatos da vida contemporânea – membro da família que migra para São Paulo, retorna e remigra, japonês de São Paulo trazido por um familiar que abre em Boca da Mata, sem sucesso, um restaurante japonês, gente pobre lutando para melhorar de vida... Histórias de vários tempos, em torno da beleza dessa arte única em madeira, que eles criam.


Manoel da Marinheira, o inventor de tudo, já velhinho, recebe o carinho dos bisnetos.

Na saída da cidade, no Balneário Águas de São Bento, uma bela fazenda, está exposta a coleção particular de Jorge Tenório, industrial nascido em Boca da Mata, contendo peças de Manoel da Marinheira, de seus filhos e discípulos. Pasmem: catalogada, bem cuidada e aberta ao público, a coleção tem mais de 850 peças! É uma bicharada sem fim, uma beleza de arte deste Brasil quase desconhecido.


Sala dos bichos deitados.

Os bichos são variados!



Olhem só esta porca e seus porquinhos. Há também jacarés, pássaros, elefantes... o que couber na imaginação.


Sala dos móveis : mesas , bancos de jardim que mais parecem tronos, belezas sem fim.
* Fotos: Luiz Carlos Figueiredo

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Hoje acordei...5

Hoje acordei…
… estrela-do-mar.
Quem contou a mentira
que mar e céu nunca se tocam?



Hoje acordei…
gavinha. Abraçada
a todas as outras plantinhas.


Hoje acordei…

… com saudade da minha mãe.
Corri, dei um beijo nela, mas a saudade…
aumentou!

Hoje acordei…

… alegria da madrugada. Samba,
carnaval e batucada.


Imagens (de cima para baixo): daqui, daqui, daqui, e de Stephen Hess, do site Brazilphotobank.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Qualquer coisa que cresce e que transborda


"O cabelo faz da mulher um ser misterioso que carrega na cabeça, na parte do corpo que é mais nítida e mais marcada, uma coisa recebida como um mar e confusa como uma floresta. Está fora do corpo, é uma espécie de jardim privado, onde o dono exerce à vontade sua fantasia e sua desordem. É qualquer coisa que cresce e que transborda como se estivesse livre do domínio da alma."

Gustavo Corção
(Três alqueires e uma vaca, Rio: Ed. Agir, 1961)


Sou de uma geração que não gosta nem um pouco das idéias de Gustavo Corção, o pensador católico ultraconservador, que defendeu tudo o que nós queríamos mudar: o modelo único da família nuclear, o catolicismo tradicional, a política de direita, a propriedade privada como base da sociedade, a ortodoxia, etc. Isso não me impede de encantar-me com este pequeno trecho de autoria de Corção, achando-o bonito, sensível, original. Como somos todos múltiplos e contaditórios... ainda bem.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O mundo é colorido

Amei este vídeo, recebido da e-amiga Cirandeira. Compartilho-o com vocês.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Hoje acordei...4


Hoje acordei…

… amalucada.
Não vês a pena vermelha
na minha roupa de padre?



Hoje acordei...

... letra X. O xóxima
xuaxalha o xucuru-cariri.



Hoje acordei…

… espinho.
E sem flor.

Hoje acordei…

...amor-perfeito. Então
por que esta dor aguda
no meu….?

Imagens (de cima para baixo): daqui, daqui, daqui e daqui.