domingo, 28 de dezembro de 2008

Ainda o Natal: uma sugestão de Saramago


"Nestes dias em que se celebra o nascimento do Cristo, outra ideia me acudiu, talvez mais provocadora ainda, direi mesmo que revolucionária, e que em pouquíssimas palavras se enuncia. Ei-la. Se é verdade que Jesus, na última ceia, disse aos discípulos, referindo-se ao pão e ao vinho que estavam sobre a mesa: “Este é o meu corpo, este é o meu sangue”, então não será ilegítimo concluir que as inumeráveis ceias, as pantugruélicas comezainas, as empaturradelas homéricas com que milhões e milhões de estômagos têm de haver-se para iludir os perigos de uma congestão fatal, não serão mais que a multitudinária cópia, ao mesmo tempo efectiva e simbólica, da última ceia: os crentes alimentam-se do seu deus, devoram-no, digerem-no, eliminam-no, até ao próximo natal, até à próxima ceia, ao ritual de uma fome material e mística sempre insatisfeita. A ver agora que dizem os teólogos."
[José Saramago, O Caderno de Saramago]
Parece-me ideia muito bem pensada.
Nós, brasileiros, mantemos uma relação muito estreita com a antropofagia. Desde nossas origens mais remotas, fomos estigmatizados, por europeus, como antropófagos. A partir do século XX, desde o modernismo, resolvemos nos assumir como antropófagos, ou seja, nos assumir como aqueles que devoram e digerem dos outros o que desejam.
Por isso, acho que nós, brasileiros — preconceitos religiosos à parte —, poderemos compreender a sugestão de Saramago, e mais: brincar com ela. É a minha sugestão. Fica o convite.

* Foto daqui, da pintura "Santa Ceia", de autoria da artista Bete Brito.

sábado, 27 de dezembro de 2008

A primeira lembrança dela

[Foto daqui]

Madrugada na fazenda. Eu, no berço. Tenho um ano, um ano e pouco. Sentada sozinha no lençol branco, perninhas esticadas, camisola branca fina e sem mangas. Ao meu lado estão o travesseiro pequeno e Macaco Simão, bicho quase do meu tamanho, que adoro. De dentro do berço, vejo o mundo segmentado por grades.

Acabo de acordar. Ar quente, abafado. Sinto muito calor. Estou irritada, coço os braços. Sinto fome. Sinto sede. Estou molhada de xixi. Minha perna também coça. Quero minha mãe. Começo a chorar. Choro mais alto. Mais alto.

Ninguém aparece. Sei que a cama dela fica neste quarto. Está escuro, vejo apenas sombras. Medo. Fico de pé no berço, segurando a grade. Choro muito. Engasgo, de tanto chorar. Ninguém vem me ver. Quero minha mãe. Sozinha no escuro. Ninguém vem. Choro tudo o que posso. Ninguém vem. Ninguém está comigo. Cadê minha mãe?

Procuro a direção da cama dela, sob a janela. Então, porque cai a primeira luz da manhã, eu a vejo.

De onde estou, deste canto do meu berço, enxergo a cabeça, os ombros e os braços dela. Está deitada no seu grande travesseiro alto. Seus cabelos pretos, compridos, estão soltos. Ela se mexe sem parar, rola a cabeça no travesseiro pra lá, pra cá. Rola de novo, pra lá, pra cá. Seus braços estão levantados. Ela está abraçando... alguém! Na luz crua do início da manhã, eu enxergo: é o rosto do meu pai. Ela está lá com ele! Os dentes brancos dela estão rindo pra ele. É ele que ela abraça e beija, ela ri pra ele como não ri pra mim, rola com ele no grande travesseiro branco, na sua cama que fica perto da minha mas está tão longe agora.

Choro mais. Sozinha no berço, eu morro de chorar. E ela ri! Ri a mais não poder, a boca aberta, ela ri alto!
Eu escuto sua risada, mas ela não escuta meu choro. Eu vejo seus cabelos pretos voarem, mas ela não vê meus cabelinhos suados. Eu sinto o gozo dela, mas ela não ouve o meu choro, ela não escuta o ronco da minha barriguinha, ela não sente o cheiro do meu xixi. Ela não quer saber de mim.

Por que a minha mãe não vem?

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O truque do gênio


Hoje, Natal, é dia de festa e brincadeiras em família.

Nesse espírito, repasso a vocês este joguinho que encontrei no Idelber e achei sensacional.

Um gênio tenta acertar — e, em geral, consegue! — o personagem em que você pensou. Vale tudo: personagem vivo, morto, real, ficcional, em qualquer área.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal na ilha do Nanja















Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu
[O texto de Cecília Meireles continua aqui]

domingo, 21 de dezembro de 2008

O poeta mais importante


Celebridade
Eu sou o poeta mais importante
da minha rua.
(Mesmo porque a minha rua
é curta.)
Quer saber, quer reler quem escreveu este poema? Clicaqui!!!

sábado, 20 de dezembro de 2008

Sabedoria


Dorival Caymmi, ontem, no programa da Globo em sua homenagem:

"Nunca gostei de trabalhos pesados e estafantes.
Sempre preferi os leves e não constantes."

Em sessenta anos de carreira, compôs cem músicas (menos de duas, em média, por ano).
Mudou a cultura brasileira.

[O enredosetramas tá de visual novo. Vai lá conhecer!]

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Pedra, pedreira, natureza







Amélia Toledo é artista inquieta, múltipla: ao longo da vida, trabalhou em quase todas as áreas das artes plásticas —pintura a óleo, joalheria, aquarela, escultura, instalação, off-set, móbiles, serigrafia, construção de brinquedos etc. (muitos outros etc. fazem parte desta lista) — e com quase todos os materiais, como pedra, ar, papel, vidro, areia, aço, fogo, madeira, plástico, conchas, água etc. (também muitos outros etc. fazem parte desta lista!). E com pedras. Sempre gostou de pedras, por isso escreveu um lindo texto sobre elas, que acaba de virar livro. Diz a artista: “Este livro é o resultado de uma convivência íntima com o reino mineral desde quando, aos quatro anos de idade, ganhei de minha mãe uma coleção de rochas que hoje, aos oitenta e um anos, ofereço como tributo aos ensinamentos que a natureza me oferece.”

Escrito em linguagem coloquial, poética, envolvente, Das viagens do Juca pela natureza (S.Paulo: Iluminuras, 2008) conta a história de um seixo rolante, Juca, trazido da Suécia para o Brasil na bolsa de uma amiga da autora, e de suas descobertas e aventuras pelo reino mineral brasileiro. É um livro lindíssimo, de ótimo papel, todo ilustrado com fotos e invenções visuais (capa e projeto gráfico de Maína Junqueira, à altura da autora). Um livro que me levou a viajar por terras nunca dantes visitadas, descobrindo imagens e idéias e sensações e poesias insuspeitas do reino mineral, através da sensibilidade da artista. Ganhei o livro, pasmem! num sorteio, lá do Verso & Prosa, comunidade literária a que pertenço e recomendo. Das viagens do Juca pela natureza chegou ontem, gentilmente enviado pela Renata Nassif, eu já o li inteiro de um fôlego (quase sem fôlego), encantada, e hoje corri aqui para compartilhar a novidade com vocês. Um pequenino trecho dele:

“Será que as pedras, tidas como mudas, teriam também capacidades musicais? Por que se fala tanto em sons cristalinos? Teriam então, as pedras, formas de se comunicar como resto do mundo, além daquele prazer maravilhoso proporcionado a todos que têm olhos para ver, por suas cores, desenhos ou feitios, para não falar também de suas propriedades curativas, o que afinal se passa com as energias, conforme dizem os físicos?Tudo isso levou Juca a imaginar o mundo como um todo composto de inúmeras variedades numa constante e amorosa procura de comunicação.”
[*Fotos daqui e daqui]

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Meu gato

[Para crianças pequenas]

Gato gargalhada

Vocês podem não acreditar,
mas eu juro —
meu gato ri

Dá cada gargalhada!

Ri à noite, só pra mim
Rola no chão
embola o rabo
balança a pança
lambe o bigode
me pisca o olho
e

miá á á á á á á á á á
miá á á á á á á á á á
miá á á á á á á á á á

Meu gato ri!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Diálogos (im)possíveis 10


[Este diálogo foi encontrado não por mim, mas pelo Mariano, do ótimo blog A Peneira do Rato. Foi escrito por Dostoievski. Refere-se a um de meus assuntos prediletos:]

Stavrogin:
— ...no Apocalipse, os anjos juram que o tempo não mais existirá.
Kirillov:
— Sei disso.É uma verdade indiscutível, afirmada com toda clareza e exatidão. Quando a humanidade alcançar a felicidade, não existirá mais o tempo, pois dele não mais se terá necessidade. Perfeitamente verdadeiro.
Stavrogin:
— Onde vão colocá-lo, então?
Kirillov:
— Não vão colocá-lo em lugar nenhum. O tempo não é uma coisa, é uma idéia. Ele morrerá na mente.

(Dostoievski, Fiodor. Os Demônios. São Paulo: Editora 34, 2004. Em edição e tradução anterior brasileira, este mesmo livro havia sido intitulado Os Possessos]

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Hi hi hi


Meu post de ontem, expondo preguiça e rede, provocou adesões entusiasmadas e protestos francamente invejosos. Para continuar brincando, hoje envio a vista da minha varanda. Esta é a horrível paisagem que sou obrigada a enxergar todos os dias...

Quer dizer, todos os dias, não, apenas algumas horas por dia, pois, devido ao colar de arrecifes em frente à praia, as marés aqui são pronunciadas, provocando súbitas mudanças na aparência do mar. Camaleônico, num mesmo dia ele se oferece inteiramente verde, listrado de verde-claro e verde- escuro, rendado de espumas, salpicado de azul mediterrâneo, enfeitado com as jangadas dos turistas, que navegam na cheia, e com as finas canoas dos pescadores, que aproveitam a vazante, com arco-íris, sem arco-íris... De permanente mesmo só a temperatura, invariavelmente morna. Somem a tudo isso as variações da luz sobre o mar, e vocês terão uma (pálida) idéia deste meu cantinho especial na praia de Pajuçara, Maceió, Alagoas, onde em boa hora me refugiei com Luiz, após muitos anos de trabalho duro dos dois. Nossa Maceiócio.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Vida marvada











Hoje, estou sentindo uma preguiça!
Milhares de coisas pra fazer, e essa vontade de só ficar no ócio, deitada na rede,
me balançando...

Vida marvada

Você não sabe como é bom viver
Numa casinha branca de sapé
Com uma mulher a nos fazer carinho
Uma galinha, dois ou três pintinho

Se o sol tá quente a gente arranja rede
Garra a viola presa na parede
Acende o pito cospe e passa o pé
E deixa a vida como Deus quiser

Eh! vida marvada
Não adianta fazer nada
Pra que se esforçar
Se não paga a pena trabalhar!

Não sei por que aqui não nasce nada
É só capim, só mato, espinharada
Não nasce arroz nem milho nem feijão
Não sei o que existe neste chão
De manhã cedo eu olho pra rocinha
Pra ver se às vez nasceu qualquer coisinha
Mas qual o quê, não nasceu nada, não
Plantando nasce, mas não planto, não!

Eh! vida malvada... [bis]
[Deliciosa toada mineira, que expressa tudo o que sinto hoje. Letra — uma das versões — de Lúcio Mendonça de Azevedo, música do grande Almirante]

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Florbela Espanca:os sentimentos expostos


Quer conhecer ou reler Florbela Espanca, uma das mais intensas poetas portuguesas? Clicaqui!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Intimidade


(Foto daqui)

[Encontrei este post de João Grando, do ótimo João´s Opiniões, e o comentei assim:]

João, tem dias — horas, segundos — em que também me sinto assim. Água, brisa, leve e forte ao mesmo tempo, no peito janela escancarada para o horizonte, cabelos soltos ao vento, completamente pacificada por dentro, por fora. Poderosa como deusa, etérea, atada a cada migalha, inhame, rato, carambola, mandacaru, astro e ser humano do universo. Sinto as infinitas dimensões e passeio por todas elas, vôo, mergulho, dou cambalhota completamente livre, eu transcendência, aerágua em terra. Fecho os olhos devagarinho, e agradeço (minha forma de rezar) pela intimidade.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Escrever por prazer

Caricatura daqui


Uns escrevem para se expressar, outros para se suportar, outros para ensinar... Mil são as motivações para escrever. Alguns escrevem para divertir, a si mesmo e aos outros: escrevem por prazer. É o caso de Bernardo Guimarães e Maria Judith Ribeiro, no livro "Morte Abjeta" ...

(Continua aqui)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Uma casa é uma coisa que se encontra


Terminei de ler há dias o livro Os da minha rua, do angolano Ondjaki, que, ainda jovem (31 anos), é poeta, romancista e contista, e já publicou 7 livros, alguns detentores de prêmios e traduzidos em outras línguas. Comprei o livro na Fliporto e ganhei autógrafo do autor, com direito a desenho e tudo.
Este é o primeiro livro de Ondjaki que leio. Composto de capítulos curtos (que podem ser apreciados independentes uns dos outros ), o livro recria a infância do autor, de seus parentes mais chegados e de seu grupo inseparável de amigos — os da sua rua — na cidade de Luanda, década de 80.
É um livro mágico sobre infância e memória da infância, comovente sem jamais ser piegas, com cheiro de fruta, calor de abraços e deslumbramento de descobertas. Revisita a infância, esse tempo fundante do autor e de todos nós, com afeição, encantamento, humor, simplicidade, imaginação. Adorei.
Pra vocês, o trecho final do capítulo "palavras para o velho abacateiro":
“Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas majumbeiros [=fofoqueiros] que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança.
Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette.
Ficamos a olhar o verde do jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novas caminhadas. O recomeçar das coisas.
— Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.
— Vão para casa, filho.
— Tantas vezes de um lado para outro?
— Uma casa está em muitos lugares – ela respirou devagar, me abraçou. — É uma coisa que se encontra.”
(Ondjaki, Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, Coleção ponta-de-lança, 2007)

domingo, 30 de novembro de 2008

Colo

Frida Kahlo, Minha ama e eu, óleo sobre tela, 1937
Fundação Dolores Olmedo, cidade do México


Tem dias, sabe, em que me sinto completamente sozinha no mundo. Tô fazendo alguma coisa — nadando, por exemplo, ou estudando —, aí me bate uma solidão absoluta. Como se ninguém mais existisse no planeta, só eu, perdida entre as altas dunas amarelas de um deserto onde o vento é tão forte que seca meu corpo e carrega pra sempre a minha alma. Nesses momentos é ótimo encontrar seus olhos escuros, atentos, atenciosos. Só eles conseguem me devolver a alegria do mundo concreto.

Às vezes me sinto muito fraca diante da vida. Todos são mais bonitos, capazes e melhores do que eu. Os meus colegas são mais espertos, as minhas amigas, mais lindas, e até Juliana, minha irmã caçula, está conseguindo muito mais sucesso do que jamais tive. Sou poeira, cisco que a ventania leva pra onde quer e deposita depois na lama, junto aos caranguejos. A mais fraca de todos os seres, nem consigo carregar meu próprio peso: ando curvada, nariz pro chão. Sugada por alguma força misteriosa, minha energia escorre por um ralo enorme que nem sei onde fica. De noite, me tranco no quarto chorando sozinha pra ninguém ver, cara enterrada no travesseiro.

Se no caminho pro quarto, porém, eu encontro você, e se você, parecendo perceber o que vai dentro de mim, ou mesmo sem perceber você me abraça, me beija, me faz carinho, então vou sentindo a vida renascer, espalhar-se pelo meu corpo, desde o centro da minha barriga. Às vezes melhoro tanto que desisto de ir chorar. Fico por ali mesmo, plugada na sua tomada, mina das minhas energias. Se você gosta de mim, diabos! não posso ser tão fraca e desprezível assim.

Lembra quando tratei você supermal, lhe fiz aquela má-criação gigante? Eu andava nervosa, tudo naquela época dava errado pra mim. Até papagaio implicava comigo! Descontei em você, a mais próxima, a primeira que me apareceu pela frente naquela noite, reclamando não me lembro mais do quê. Fui grossa demais. O pior é que nem notei, mergulhada na minha própria vidinha, no meu redemoinho particular, apartada dos sentimentos alheios.

Só dias depois percebi o tamanho da minha estupidez, e sabe como? Senti falta do seu riso. Meu astral já estava melhor, o mundo parecia aos poucos voltar aos eixos, então por que eu sentia aquela tristeza, logo na hora de jantar com você? Vi de relance seu rosto sério, cabisbaixo, riscando lentamente a toalha com a faca... Na saudade do seu riso, lembrei da minha explosão dias antes, juntei causa e conseqüência. O remorso daquela hora, eu sei, foi egoísta: “Não posso feri-la de novo”, lembro que pensei, “pois eu não suportaria viver sem o seu riso.”
Só pra terminar: até hoje, do que mais gosto na vida são dos seus colinhos. Tô sabendo — sou grande demais pra colo, nunca sei direito onde colocar esses braços e pernas desengonçados, que cresceram desmesuradamente, escapando desordenados pra todos os lados. Sei que dói em você quando pulo em cima... Mesmo assim, repito: eu, a garça pernalta, adoro até hoje o seu colinho! Ele é como um útero, acolhedor, calmo. Silencioso. Quentinho... Traz paz.

Seu colo é bom demais, minha filha!

sábado, 29 de novembro de 2008

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Muito contente


Muito contente por estar de volta aqui. Ainda não 100%, os pontos continuam na mão direita, mas já estou livre das ataduras e podendo teclar sem exageros, o que acho ótimo. Olhe, gente, a-do-rei cada uma das mensagens deixadas nos dois blogs durante minha ausência, muito obrigada a vocês todos, que fizeram esse tempo de cirurgia passar mais rápido e de forma bem mais amena. Me senti apoiada, aconchegada — bom demais! Não vou responder a cada um apenas porque ainda não posso escrever muito.
Nesses dias, li um bocado (vou comentar os livros lidos no enredosetramas), vi tv — inclusive todo esse desastre terrível de chuvas torrenciais, cheias e desabamentos em Santa Catarina —, porém minha cabeça, a maior parte do tempo, se manteve zonza, tontona, sem se fixar em coisa alguma, como se vagasse por algum espaço que nem sei onde fica. Meu amigo Chorik comentou que isso acontece porque nosso corpo é uma unidade, cada membro ou órgão influenciando os outros: assim, o que acontece com minha mão pode, sim, influenciar minha mente (o amigo Edu disse que sentiu a mesma coisa quando teve um problema no pé). Independente de fundamento científico, gostei dessa explicação, dessa idéia de sermos um todo indivisível e interdependente (que a medicina atual teima em seccionar). Me fez bem sentir-me assim. Lembrei-me das pessoas cuja perna, braço ou mão foram amputados, mas continuam a sentir sensações neles — calor, dor, arrepios, etc —, ao que parece porque a imagem mental que têm do próprio corpo é a de um corpo completo, o que inclui, jamais exclui, o membro ausente.
Por este meu texto descosido, mal ajambrado, vagal, já deu pra sentir que ainda não aterrissei direito por aqui, né? Mas não importa, não é mesmo? Este texto é só pra lhes dizer que estou de volta a este doce batente, amo vocês, e espero continuar a postar textos que mereçam ser lidos e comentados por vocês. Assim como visitarei os seus blogs, lerei e comentarei seus textos. De volta a esta nossa gostosa, divertida e animada roda de leituras e papos!

domingo, 23 de novembro de 2008

Maneta



Amigos, muito obrigada por todas as mensagens. Minha cirurgia correu bem. Estou de molho até terça-feira, dia do primeiro curativo. Escrevo agora com os dedos esquerdos. Tenho lido um bocado, mas a cabeça anda num marasmo, numa zonzeira... nenhuma idéia! Será que, sem usar a mão direita, não penso?

terça-feira, 18 de novembro de 2008

De papo pro ar


Gente, tô me submetendo a uma pequena cirurgia na mão direita. Coisa simples: "dedo em gatilho", inflamação que dá no tendão do dedo e o deixa preso no tubo que o envolve; quando a gente curva o dedo, parece que tá apertando o gatilho de um revólver. Cruz credo, logo eu, pacifista! Os médicos têm o maior desprezo pelo meu dedo em gatilho, coisa simples, nada desafiadora para suas sapiências. Eu é que sei como dói. Minha vingança contra esses médicos é revelar que eles simplesmente não sabem a causa do problema. Sabem diagnosticar, sabem tratar, mas não sabem a causa — incerta, ignorante medicina! Pronto, já me vinguei.

Vou ficar duas semanas com pontos na mão. E como é que vou viver todo esse tempo sem escrever aqui, postar meus textos, ler os de vocês? Não posso mais viver sem isso, tô viciada em vocês! Bolei uma estratégia: escrevi alguns textos, vou ver se alguém os posta pra mim, aos poucos. Não é a mesma coisa, não tem a graça do improviso nem a riqueza do diálogo, mas ao menos diminuirá minha saudade e frustração. Vamos ver se funciona. Não sumam!

Enquanto isso, é pensar positivo: vou ter um tempo gostoso de repouso, de não fazer nada, de mordomias, água de coco, papo pro ar... Como há décadas prega esta música que acho ótima (nada a ver com minha origem baiana), composta por Joubert de Carvalho, com letra do poeta Olegário Mariano:

De papo pro ar

Eu não quero outra vida
Pescando no rio de Jereré
Tenho peixe bom
Tem siri patola
Que dá com o pé

Quando no terreiro
Faz noite de luar
E vem a saudade me atormentar
Eu me vingo dela
Tocando viola de papo pro ar

Se compro na feira
Feijão, rapadura
Pra que trabalhar
Sou filho do homem
E o homem não deve
Se apoquentar

Diálogos (im)possíveis 9

[Tenho 21 anos, estou recém casada no Rio de Janeiro. De repente Elza, a empregada, sai gritando apartamento afora, braços pra cima, agitadíssima. Logo começa a bater a cabeça na parede, com força. Elza não responde às minhas perguntas, dando a impressão de que sequer me ouve ou vê. Cada vez mais agressiva, espatifa copos no chão e esmurra os vidros das janelas.
Apavorada, sozinha com ela no apartamento, me tranco num quarto e ligo para o Instituto Pinel, hospital para doentes mentais próximo ao meu prédio. Peço que mandem com urgência enfermeiros, para buscar uma pessoa que está em surto.
Dez minutos depois, toca a campainha. Elza, que se debate na cozinha, ao ouvir a campainha imediatamente se posta ao meu lado. Quando abro a porta do apartamento, estamos nós duas juntas, de pé, frente a dois fortíssimos homens de branco e uma maca.]


— Quem é a pessoa pra ser levada ao Pinel? – pergunta um dos enfermeiros.
— Ela! –Elza e eu respondemos ao mesmo tempo, uma apontando a outra.

[Juro que aconteceu].

domingo, 16 de novembro de 2008

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Eu sou


Eu sou

Quando os adultos me perguntam
— O que você vai ser quando crescer?

Morro de ódio.

Sinto vontade de responder:
— Vou ser tudo, menos você!

Será que os adultos não sabem?
Eu
já sou!

("Eu sou", de Janaína Amado - licenciado sob Creative Commons)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Pra começar bem o dia 2


Senhora Gramática

Senhora gramática
perdoai os meus pecados gramaticais.
se não perdoardes
senhora
eu errarei mais.

[Solano Trindade. O Poeta do povo. São Paulo, Ediouro/Editora Segmento Farma, 2008. Solano Trindade, *1908-+1973, poeta popular pernambucano, foi autor engajado, preocupado com questões sociais, principalmente as dos negros como ele. Fundou e dirigiu movimentos culturais, sobretudo na área do teatro. Este poema é da faceta menos conhecida de sua obra, a do humor cotidiano. Sua família acaba de publicar este volume com as obras completas do poeta. Solano foi um dos homenageados da IV Fliporto].

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

As nossas áfricas

(Maracatu final da aula-espetáculo de Ariano Suassuna - de branco, no canto do palco. Foto de Luiz Carlos Figueiredo)

Só pra assistir à abertura já valeu a pena ter ido à Fliporto, a IV Feira Literária de Porto de Galinhas, PE. Consistiu de uma aula-espetáculo do grande escritor Ariano Suassuna, atualmente com 81 anos de idade, que é Secretário de Cultura do Estado. Com inteligência, originalidade, humor imbatível e vitalidade, Ariano conduziu o espetáculo Nau - Sagração nº 2, um passeio...

(O texto continua aqui)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Até breve






Amigos, a partir de quinta, 6 de novembro, até pelo menos domingo à noite, 9 de novembro, estarei ausente daqui. Vou assistir à Fliporto, Feira Literária Internacional de Porto de Galinhas, PE, cujo tema, este ano, me pareceu particularmente interessante: a diáspora africana e o diálogo literário entre África e América Latina. Estarão presentes vários escritores africanos e brasileiros, além de gente que gosta de ler, durante quatro dias reunidos no belo litoral pernambucano. Depois eu conto. Abraços.

Yes, we can!


Amigos, cliquem neste link para ver uma emocionante entrevista no interior do Quênia com Sarah Onyango Obama, a avó africana de Barack Obama. Há legendas em inglês, o que facilita nossa compreensão. Esta é a avó que, quando o jovem Obama a visitou pela primeira vez, lhe contou a história de seu pai e de sua família, colocando-o em contato com suas raízes e promovendo a reconciliação dele com a figura paterna. O túmulo de Obama pai está no quintal da casa de Sarah.

Foi muito emocionante ontem, não foi? E continua sendo. É muito raro, nos Estados Unidos e no mundo, assistirmos hoje a algo que nos comova a todos, nos una e nos traga ou devolva a esperança, este doce, louco e melhor motor para nossos corações e mentes.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Diálogos (im)possíveis 8

(Imagem daqui)
— Qual é a sua ilha?
—Santa Catarina.
— E a sua?
— Itamaracá.
— A sua?
— São Luiz.
— A minha é Ilha Bela.
— Pois a minha é a ilha-do-faz-de-conta, entre o sertão e o mar, a que tem chão de esteira, búzios sem conta e cabelos ao vento, ilha-de-dentro, ilha-mar, onde Judas não perdeu as botas nem o gato comeu a língua, ilhéu, ilhaminha, ilhatua, lua de mar, caramujos, ilhotinha, ilhão — Ítaca, Itacaré, Itacarezinho, terra dos jacarés, nossilha, nonossa, tuilha, trilha, trilhas conduzem ao vulcão de fogo que não queima, cheiro de pão quente saído indagorinha do forno, espirais, brisa, brasas, labareda, água, casa e maresia, algumas cabras, estandarte, biscoitos de polvilho doce, muita imaginação e louvor.

sábado, 1 de novembro de 2008

A esperança se chama Barack Obama


Barack Obama será eleito presidente dos Estados Unidos (toc, toc, toc). Trajetória incrível, a deste homem. Em um país partido pelas diferenças raciais, onde brancos e negros dificilmente convivem entre si, ele nasceu no mais distante Estado americano, o Havaí, filho de mãe branca e pai negro, do Quênia. Foi criado pela mãe e avós maternos, naturais do Estado do Kansas, brancos como ...
(O texto continua aqui)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Diálogos (im)possíveis 7

[Minha mãe era comunista, defensora ardorosa das idéias do PCB. Meu pai também, embora tenha se desligado do Partidão em 1957. Informações sobre as maravilhas do mundo comunista eram comuns na minha família desde que eu me entendi por gente. As bonecas russas de madeira que saíam uma de dentro da outra, ao lado de fotos e distintivos da Cortina de Ferro, misturavam-se às minhas bonecas brasileiras de pano.
Minha mãe tratou logo de reforçar esses ensinamentos, durante as aulas que me deu para o exame de admissão ao ginásio (relatadas no último post). Ela aproveitou bem o tempo para concluir a doutrinação da filha.
Na prova oral de geografia, aconteceu o seguinte diálogo:]



— Diga o nome de três países europeus com suas capitais, ordenou o professor.
— União Soviética/ Moscou, Tchecoslováquia/Praga, Polônia/Varsóvia, respondi na bucha, sem pestanejar.

Ainda hoje me lembro da expressão surpresa do professor Almir, seguida de um sorrisinho, cabeça baixa. Acho que ele era simpatizante...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Como eu soube que ela me amava


Eu só senti que ela me amava aos dez anos de idade. Minha mãe chegou ao Rio de supetão, sem avisar ninguém. Ao saber que eu decidira pular a quinta série, e em breve prestaria exame de admissão ao ginásio, arregaçou as mangas, colocando seu lado professora em ação. Passou a me dar aulas todas as tardes, na sala do apartamento onde eu morava com papai. Foi excelente professora: metódica, paciente, clara, exigente. Ensinava principalmente matemática, sua especialidade, justo a matéria em que eu era mais fraca. Lembro-me com muito prazer dessas nossas aulas. Eu gostava de estudar, e ela, de ensinar. Em volta da grande mesa preta, junto à janela da sala, nós duas fomos nos conhecendo melhor, começando a nos admirar, nos reencontrando.

Fiz os exames escritos. Junto com os outros candidatos, certo dia compareci ao colégio. Todas as crianças em fila, a diretora começou a ler os nomes dos aprovados, que deveriam passar ao segundo andar, para os exames orais. De jeito nenhum eu queria ficar ali, no meio dos reprovados, cidadã de segunda classe, escória do mundo! Demorou uma vida pra diretora chegar ao “J” e chamar meu nome.

Deixei a fila toda orgulhosa, os pesados sapatos pretos batendo no cimento do chão, plaft, plaft. Ali, no primeiro degrau da escada, encostada na parede, de repente eu a vi. Até perdi a respiração, de tanta surpresa, confusão, descoberta.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

Foi a única vez em que vi minha mãe chorar.

domingo, 26 de outubro de 2008

Minúsculos assassinatos

(Foto de Alex de Jesus, neste site)

Blogueira recente, eu não conhecia o famoso drops da Fal (http://dropsdafal.blogbrasil.com/ ). Li há poucos dias uma entrevista da autora no Amálgama, visitei seu blog, comprei pela internet seu último livro (Fal Azevedo. Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite. Editora Rocco, 2008), acabei de lê-lo ...

(O texto continua aqui)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sosígenes Costa

(Foto daqui)

Sosígenes Costa lhe parece nome de remédio?
Está com saudade do grande poeta?
Então clicaqui!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Graciliano


Fico contente quando vejo iniciativas culturais importantes. Ontem, fiquei. Na terra de Graciliano Ramos, Alagoas, foi lançada Graciliano, revista de cultura e ciência destinada ao público universitário e àqueles que desejam mais informações e pontos de vista sobre os assuntos tratados. Dirigida pelo historiador e sociólogo Luiz Sávio de Almeida, com visual moderno e atrativo criado por Fernando Rizzotto, com artigos assinados por especialistas, porém escritos em linguagem clara, atraente, a revista é uma publicação da Imprensa Oficial, presidida por Marcos Kümmer e atualmente subordinada à Secretaria de Planejamento e Orçamento, sob a batuta do secretário Sérgio Moreira. Bom ver o dinheiro retornar à sociedade em forma de cultura, multiplicador de conhecimentos.
O primeiro número é inteiramente dedicado a Graciliano Ramos. O segundo será sobre teatro. Vida longa à revista, muitos e muitos gracilianos!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pra começar bem o dia

João, João
você filosofa, filosofa,
mas não tem essência.
Você é purinho
plano de imanência.

(Noemi Jaffe, Todas as coisas pequenas. S.Paulo, Hedra, 2005)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Convite para viagem


Você está convidado, você está convidada a embarcar numa viagem que começa hoje, aqui. Como toda viagem, esta a gente só sabe quando começa, mas não tem a menor idéia de onde, quando, muito menos de como acaba. Viagem é descoberta, aventura, estranhamento, transformação —travessia. Vem, que o vapor já tá saindo e a companhia é boa.

Em tempo:

Eu já estou pronto para a viagem, aguardando o vapor aqui no cais de atracação do rio Paraguaçu. Sinto-me um pouco ansioso, nervoso, mãos suando, neste 5 de abril de 1933. Sou jovem, só tenho quatro meses de jornal. Fui destacado para cobrir a viagem do dr. Otto Billian, cientista e industrial alemão, pelo interior do Estado. Desconfio que me escolheram porque ninguém mais no jornal aceitaria missão tão espinhosa. Não importa: esta é minha primeira oportunidade de me distinguir na profissão. Estou decidido a fazer da cobertura desta viagem meu passaporte definitivo para o mundo do jornalismo. Na foto, sou o rapaz alto, o do centro, de terno e chapéu, voltado para a câmera. Ao meu lado, de terno branco, está o dr. Otto Billian, personagem principal desta expedição. Não perdi tempo, já o estou entrevistando!
(A foto é do Valter Ribeiro, conhecido como Valter Cachaça, nosso fotógrafo, que embarca também.)

sábado, 18 de outubro de 2008

Mais tempo do que eu poderia suportar


Quer saber por que voltei à literatura? Clicaqui!
Não quer saber? Então não clicaqui, ora!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Diálogos (im)possíveis 6



[Ainda sobre lobisomens. Num livro on line que escrevi para crianças, intitulado Lobisominho, a cada quinze dias um capítulo ia ao ar. Ao final de cada capítulo, eram feitas perguntas às crianças, para conhecer suas impressões e estimular sugestões sobre o desenrolar da história. Essa experiência de contato direto com os leitores, aliás, foi sensacional. Aprendi muito com as crianças sobre construção de personagens, desenvolvimento de enredos, sobre o que gostam ou não de ler, etc. Aproveitei muitas das suas sugestões, oferecidas sempre com generosidade, entusiasmo e enorme imaginação, livre das limitações adultas.]

No final do primeiro capítulo, perguntei às crianças:
— Você acredita em lobisomem?
Resposta enviada por uma menina de oito anos:
— Eu acredito. Mas eles não existem.
(Ilustração de Fábio Moino para Lobisominho)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O lobisomem de Viçosa






















(Fotos: Luiz Carlos Figueiredo)

Adoro lobisomens. O principal personagem masculino de meu romance Dandara é um faiscador que, nas noites de lua cheia dos meses de trinta dias, se transforma em lobisomem. Escrevi um livro para crianças, intitulado... Lobisominho. Jamais duvidei da existência desses seres enigmáticos que incendeiam nossas imaginações, confrontando-nos com nossos medos e instintos básicos. Lobisomens estão por aí há séculos, já foram vistos por milhares — bem, talvez centenas — de pessoas. Entre elas, meu filho Bernardo, aos três anos de idade, e meu sogro Deodato, ótimo pescador, que me fizeram relatos detalhados, saborosíssimos, de seus encontros com lobisomens. Há quem desacredite do relato de crianças e pescadores, mas é evidente que esses incréus nada sabem da vida.
Ainda recentemente, conheci um novo lobisomem. Foi na cidade de Viçosa, interior de Alagoas (já notaram que lobisomens não nascem em litorais? Vai ver, têm medo d´ água), quando visitávamos a movimentada feira de sábado, capitaneados pelo poeta Sidney Wanderley, conhecedor de tudo e todos em sua terra natal. Nos deliciávamos com a profusão de cores, odores, sabores, entre queijos, jacas, cocos, melancias, macaxeiras — nada se compara a uma feira de sábado no interior do Nordeste —, quando Sidney cumprimenta vivamente um passante e o faz parar , nos dizendo: “Este é meu amigo José Neto, pintor de profissão. Ele conhece o lobisomem de Viçosa.”
Então acontece bem ali à nossa frente o milagre, epifania. Zé Neto, pacífico avô a fazer compras na feira, de repente se transforma no lobisomem que descreve e conhece tão bem. Não é mais ele quem está ali, em sua camiseta escrita em inglês e enormes óculos escuros, mas um aterrador, enlouquecido lobisomem que em noites de lua cheia sai dos becos para assombrar os moradores da cidade, imenso, peludo, dentes pontiagudos, assim ó, garras à mostra, arfante, dono de um urro ouvido até em Capela, até em Mar Vermelho tem gente que escuta o urro deste lobisomem esfomeado, pelos da cara espetados, focinho tremendo, sempre pronto a atacar as pessoas, a morder, a estraçalhar... Uma noite ele correu atrás da mãe, queria comer a própria mãe! Sim, todos aqui sabem quem é este perigoso lobisomem: umpobre que gosta de ficar vagando sozinho, à noite. Não, ele não concorda que seja o lobisomem, mas ninguém acredita nele, afinal todo mundo aqui já viu...
A platéia cresce, crianças se aproximam para ouvir Zé Neto. O poeta Sidney se empolga, ao recordar o medo que o menino Sidney sentia do monstro. Por um breve tempo, ele também se transmuta em lobisomem.
Desse encontro ancestral saio encantada. Prometo voltar, pois Zé Neto informa que em Viçosa vive também uma lobismulher.
[Pra comprovar a veracidade do relato, aí vão as fotos: Zé Neto/lobisomem mostrando as garras; lobisomem em posição ereta; lobisomem com a pata fechada; a platéia aumenta; o poeta também conta sua história; vista parcial de Viçosa: em qual dessas casas habita o terrível lobisomem?]

domingo, 12 de outubro de 2008

O ovo do mundo

(Foto daqui)

O ovo do mundo

Galinha, pato, passarinho
nascem de ovos
Dinossauros, também!

Será que o mundo
nasceu de um ovo?

Devia ser gigante,
o ovo do mundo!

Dentro dele tinha
gema? Clara? Ou
dentro dele tinha
gente?

Quem será que botou
o ovo do mundo?