“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.”
[Último parágrafo de Viagem a Portugal, de José Saramago, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, 2003, em Portugal pelo Círculo de Leitores, 1981, e por Editorial Caminho, a partir de 1985. Conheço poucos textos com essa extraordinária capacidade de, em apenas um parágrafo, expressar os múltiplos sentidos da viagem. Já é um clássico sobre o assunto, um dos meus preferidos. Quis compartilhá-lo com vocês.]
[Último parágrafo de Viagem a Portugal, de José Saramago, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, 2003, em Portugal pelo Círculo de Leitores, 1981, e por Editorial Caminho, a partir de 1985. Conheço poucos textos com essa extraordinária capacidade de, em apenas um parágrafo, expressar os múltiplos sentidos da viagem. Já é um clássico sobre o assunto, um dos meus preferidos. Quis compartilhá-lo com vocês.]
*Imagem daqui
