terça-feira, 30 de junho de 2009

A viagem não acaba nunca

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.”

[Último parágrafo de Viagem a Portugal, de José Saramago, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, 2003, em Portugal pelo Círculo de Leitores, 1981, e por Editorial Caminho, a partir de 1985. Conheço poucos textos com essa extraordinária capacidade de, em apenas um parágrafo, expressar os múltiplos sentidos da viagem. Já é um clássico sobre o assunto, um dos meus preferidos. Quis compartilhá-lo com vocês.]
*Imagem daqui

13 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Jana, você é a tal. Deu-me este presente. Havia lido o texto, anos e anos se passaram, já não lembrava. Super valeu.

Chorik disse...

Maravilhoso mesmo. O parágrafo final atiçou-me a vontade de ler os que o antecedem.

Anônimo disse...

JANAÍNA, se este cara não houvesse
recebido o Nobel, haveríamos de, por este parágrafo de raríssima concisão, elasticidade e alumbra- mento, concedê-lo. E que bela foto!

SIDNEY WANDERLEY

Luli Facciolla disse...

Então, "volto logo"!

Beijo

M. disse...

Achei tão bonito. Não conhecia.

Gerana Damulakis disse...

Falou em Saramago, já sabe, eu abro os olhos imediatamente. É meu escritor de cabeceira, como se dizia.
Procurei muito o jornal, precisamente 3 vezes, mas Aramis acha que naquele tempo eu nem guardava.Pena mesmo.
Quero enviar Antologia Panorâmica ( a de 2004) para você: tem seu pai.

Ana Tapadas disse...

Olá amiga:
Bom encontrar Saramago.Ainda há que diga que não é bom autor, não é? Pois...só quem não o lê!
No meu blogue há mais um prémio, se te apetecer...mas bem o mereces:
«O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogues que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores».
Beijão

Bipede Implume disse...

Sou leitora fiel de Saramago. Comecei com Memorial do Convento e nunca mais parei. Este texto pode-se aplicar aos fotógrafos. Voltar sempre o mesmo lugar e a fotografia é sempre diferente.
Querida Janaína eu e Platero estamos com muito trabalho, daí os blogues se recentirem um pouco,falhando a atenção aos amigos. Vou já dizer ao Platero para lhe matar a saudade.
Muita amizade nossa.
Beijinhos.
Isabel

Bipede Implume disse...

Quero dizer "ressentir".
Mil perdões.
Isabel

Platero disse...

Boa noite Janaina

Passei hoje por aqui para deixar uma saudação especial para vocês.

Quando sentir saudades de fotografias de Portugal, podemos marcar sempre encontro no Click Portugal! basta clicar no meu perfil e vai lá ter.

Um abraço para os dois e até à volta!

karina rabinovitz disse...

me lembrei disso:
"caminhante, o caminho se faz ao caminhar"
é isso!

bom chegar aqui, nesse caminhar.

Grace Olsson disse...

nao entendo como vc nao veio parar na Sué+cia..és bem vinda...kkkk

da proxima vez...ok?bjs e diasf elzies

Dalva M. Ferreira disse...

Dá uma angústia saber que há mais mundo lá além daquelas montanhas, e eu aqui, grudada ao chão. Quando partirei?