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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Tarô pessoal, carta 8

Desamparo

Como andar pelo mundo assim sem um amor, um talismã, um cajado, sem um único amigo, um cahorro, uma ovelha, sem ao menos a lembrança de um lugar para chamar de meu? Como seguir assim trôpego e vazio, este buraco por peito, no rosto a ventania sem nome que traz areia, seca os rios e engole as lágrimas que não me descem? Como vagar assim sem liberdade, decidir sem desejo, continuar arrastando vida afora esta pesadíssima, insuportável sensação de não me sentir amado, pior ainda: não merecer ser amado?

Quando eu, a carta do Desamparo, o escolhe, amigo, não resta dúvida: é hora de você baixar armas, e sair correndo a pedir colo e abraço, onde eles estiverem. Você vai se surpreender duplamente: com a enorme quantidade de desamparados e com a enorme quantidade de amor no mundo.


* Imagens: BBC e daqui

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Tarô pessoal, carta 7


O lacre
Há muitos e muitos anos, as pessoas costumavam fechar suas mensagens com lacre de cera. Primeiro, escreviam a mensagem, com todo o cuidado para manter a caligrafia firme e bela, e não permitir que a tinta da pena extravasasse, manchando o papel. Depois, derretiam no fogo um pouco de cera colorida, e a derramavam sobre o verso do envelope, lacrando-o. Os mais refinados marcavam o lacre ainda quente com seu próprio selo ou brasão, para indicar quem era o autor da carta. E só então enviavam o envelope, via mensageiro. Quando a cera esfriava e endurecia, só era possível conhecer o conteúdo da mensagem rompendo o lacre. Isso indicava a todos que a carta fora aberta.

Todo lacre, portanto, contém um segredo e uma revelação. Algo especial foi escrito para uma determinada pessoa, aquela a quem o segredo – a mensagem lacrada – se destina.

O aparecimento da carta do lacre indica que o momento é propício para agir:

Qual segredo você deseja revelar agora? Quem é a pessoa certa para recebê-lo?
Qual lacre você deseja romper? Você está preparado para receber o segredo que alguém quer lhe contar?

Escute seu coração. Só você sabe as respostas.

* Imagem daqui - carta de fã para a escritora Jane Austen.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Tarô pessoal, carta 6


Cavalo-marinho

Como o camaleão, mudo de cor segundo as necessidades. Meus rituais de acasalamento consistem em cambalhotas. Dentro do meu grupo, os machos, não as fêmeas, é que guardam os ovos, numa bolsa situada na ... cauda! Quando esses ovos se rompem, os machos expelem as crias em violentas contrações.

Meus olhos são independentes, posso mover cada um deles separadamente, para onde, quando e como quiser. Sou chamado cavalo, porém vivo na água. Nado em pé, sempre na vertical. Ao nascer, sou transparente. Quando adulto, trago na cabeça filamentos, como crinas. Mas tenho também barbatanas. Meço cerca de um centímetro ao nascer, quando adulto sou pequeno e frágil, mas ainda assim fui escolhido pelos deuses para guiar a imponente, impressionante carruagem do grande Poseidon (Netuno), deus dos mares.
Eu sou O Improvável, aquele que tem pouquíssimas probabilidades de acontecer. No entanto aconteço, existo, sou parte da vida do planeta, encanto.
Você vai me deixar entrar em sua vida?
* Imagem daqui

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Tarô pessoal, carta 5


Heranças

Não só os ricos: todo mundo recebe herança. O ser mais miserável da Terra recebe herança. Vem dos antepassados para nós.

Quais são as suas heranças? Patos, porcos e cabras, este cheiro louco de terra? O alcoolismo da mãe? Tantos abraços, beijos, canções, tanto carinho... Arranha-céus? Ou será este medo que você herdou dos olhos dele? O cabelo em permanente revolta? Este desejo que não vai embora? Sorriso aberto? Um cantinho de jardim, pra só você cuidar? A fé inabalável? A rica, pesada tradição familiar? Quem sabe sua herança é esse devanear, essa dificuldade para aterrissar? Ou a necessidade de cuidar dos outros? A casa de adobe, o chão batido, barriga vazia? Orgulho? Honestidade? Esperteza? Aquela bola esquecida no canto do quarto? Essa sua incansável capacidade de lutar? O estalar de gravetos no fogo? A leitura e a escrita, a doença? O vício? As fotos de família? Nunca conseguir parar? Fortunas em ações, o gosto musical, a preguiça, o trabalho, o corpo atlético, a rotina? Ou nada disso, porém outras coisas mais?

Todo mundo recebe heranças. Reconhecê-las é o primeiro passo. Para então aceitá-las ou recusá-las. Tempo de você pensar no assunto: Quais são as minhas heranças? O que tenho feito delas?
Imagem daqui

sábado, 11 de julho de 2009

Tarô pessoal, carta 4


Voo de pássaro


Quando ele enche o peito e abre as asas com a envergadura da águia, o planeta inteiro se estende à sua frente. Pescoço rugoso esticado para o norte, um olho de cada lado, ele enxerga picos nevados onde águas azuis tremulam por causa do vento capaz de arrepiar o pelo dos mamutes, enxerga manadas de seres humanos correndo livremente rumo ao oceano verde-amarelo, enxerga lagoas prenhes de caranguejos e homens salobros que catam os caranguejos, enxerga marulho, horizonte, escarpas tão íngremes que alpinistas não as conseguem escalar, enxerga o barulho do cabelo molhado das mulheres, o sal, as andorinhas, enxerga o sol que cega e a lua que segreda, em seu papo azul-alaranjado ele enxerga liberdade.

Se você tirou esta carta, é porque hoje, agora, neste momento tem direito a um voo de pássaro. Desfrute-o.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Tarô pessoal, carta 3


O outro
Imagine você me conhecendo, olhando meu olho, bem dentro, bem fundo. Imagine o susto, o
grande susto do abismo. Um passo em falso na escada, você me vendo. Um lance de dados, jogado completamente ao acaso. Palavras que somem, pernas tropeçando no escuro, e o muro, o grande muro. Imagine o absurdo: alguém sem forma sair do limbo. Para quê? Tal coisa só se pergunta ao Destino. De preferência em silêncio.
Aeronauta

Feche os olhos. Concentre-se bem. Sinta seu coração. Escute seus batimentos, entenda o que eles estão lhe dizendo. Agora pergunte ao Destino, em silêncio: quem é este outro que eu faço tudo para ignorar e destruir, mas insiste em viver, em me ver, em me olhar bem dentro do meu olho? Ele me liberta ou me sufoca?

[A primeira parte (até “De preferência em silêncio.”) foi copiada do blog aeronauta, do post “em silêncio”, com concordância da autora, a quem agradeço. Acho um texto lindo, como outros de aeronauta, esta que vive entre nuvens e segredos. A segunda parte (“Concentre-se... sufoca?”) foi escrita por mim, e serve ao tarô pessoal, minha trajetória de vivências e descobertas que estou construindo e partilhando
com vocês. Falando nisso: quem é mesmo esse outro que te habita?]


* Imagem: theyxas, photobucket.

terça-feira, 24 de março de 2009

Tarô pessoal, carta 2


Nunca tiro meus olhos do alvo. Tenho sempre os olhos no meu alvo. Nunca me distraio. Nada escuto, não converso. Só enxergo o alvo. O meu desejo é o alvo. Tenho de acertá-lo. Meu prazer é atirar exatamente no centro do alvo. Sou O Arqueiro.

Observe que tudo de importante acontece antes da flecha partir. Quando a flecha se solta veloz no ar, seu trajeto já está decidido. Ela vai para onde eu a enviei. Tenho de concentrar-me no antes. Que arqueiro eu sou? Qual o meu alvo? Move-se? Modifica-se? Está a qual distância? Que vento sopra agora? O que a posição do meu corpo está me dizendo? Minha flecha é a adequada? Sobretudo: qual arco eu tenho? Pois a flecha parte, mas o arco fica. E o arco é flexível.

Você me chamou. Isto significa que deseja e precisa concentrar todas as energias no seu alvo. Não importa como o fará. Você decide se atira flechas como no antigo Egito, se é um indígena da América, um arqueiro medieval inglês ou um participante das Olimpíadas. Mas não se esqueça: neste período da sua vida, você é O Arqueiro.

[Criei cinco direções, cinco “naipes” para meu tarô pessoal, quatro direções naturais e uma sagrada. As quatro naturais são (nomes provisórios): Labareda, Nuvem , Raiz, Espuma. A direção sagrada é a Fantasia. A qual delas vocês acham que O Arqueiro pertence? Tenho uma intuição, mas gostaria de ouvi-los.]

[Recebi e-mail de uma velha amiga: “Janaína, você endoideceu com essa história de tarô? O que é isso? Não a reconheço, você está se perdendo de si mesma...” (e por aí ela foi). Minha resposta para a velha amiga é: “Endoideça comigo, querida”.]
[Imagem daqui]

sábado, 14 de março de 2009

Meu tarô





















[Inspirada nos posts de aeronauta e Bernardo Guimarães sobre palavras que não podem ser ditas, inicio hoje um projeto maluco, a criação de um tarô pessoal. Adoro o universo simbólico e mítico do tarô, e, se tivesse algum senso prático, seria taróloga, não historiadora, rs Como não sei desenhar, vou utilizar por enquanto imagens da net. Abaixo, a descrição da primeira carta do meu tarô. Ainda não decidi seu título, então ela vai assim mesmo, sem título. Também estou em dúvida quanto à melhor imagem para o texto: qual das duas vocês preferem? PS – Claro, nem Bernardo nem aeronauta têm a menor responsabilidade pelo que eu estou fazendo aqui. Eles só escreveram lindos textos, que vale a pena ler.]
Eu sou aquele que não se nomeia, a palavra que nunca se pronuncia. Eu sou O Oculto, O Tabu, O Segredo. Sou aquele que está ao mesmo tempo nas estrelas, no fundo da concha e no mais íntimo de cada ser. Eu sou O Desprezado, pois, mesmo me conhecendo, me soterram.
Se lhe apareço agora, é porque você quer me ver. Você está pronto para me ver. Olhe bem para mim, assim: dentro do abismo dos meus olhos. Sinta meu cheiro álacre. Feche seus olhos e me apalpe inteiro. Isto. Muito bem.
Agora, ainda de olhos fechados, procure, enterrada dentro de você, a palavra perdida, a única que me nomeia. Você está pronto a revelar-me, a revelar-se.
(Texto sob licença Creative Commons)