sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Diálogos (im)possíveis 15

[Este foi verídico, aconteceu em Salvador, Bahia – e onde mais poderia ter acontecido? Só os nomes foram trocados:]

A senhora entrou no táxi, disse o endereço. O taxista deu partida no carro, olhou com cuidado a passageira pelo retrovisor, e perguntou, com um sorriso:
— Dona Amélia, a senhora não está me reconhecendo?
Ela viu por trás a cabeça raspada do jovem, o pescoço grosso, braços fortes ao volante...

— Meu filho, não estou reconhecendo, não. Desculpe, estou velha, não enxergo mais direito, a memória falha…

— Pois eu sou o Neto, filho da Maria, que trabalhou na sua casa!

— Claro, meu filho, agora me lembro! Nunca lhe esqueci! Mas como é que eu podia lhe reconhecer, se a última vez em que lhe vi você era um menino? Tinha o quê, uns 12 anos? Pois é! Que coisa boa lhe rever, que moço bonito você ficou! E como vai sua mãe?

A partir daí desenvolveu-se entre os dois intenso e amistoso diálogo. Neto havia passado a infância na casa de dona Amélia, até os doze anos de idade, quando sua mãe decidira voltar para o interior, e ele a acompanhou. Mais tarde resolvera tentar a vida em Salvador, ralara um bocado até virar taxista, agora estava casado, com dois filhos… Já dona Amélia enviuvara, seus filhos haviam se formado e se casado, ela tinha netos e até uma bisneta… A conversa ia longe, muito animada, um contando pro outro as novidades, quando o táxi chegou ao destino.
— Meu filho, sempre que quiser, apareça, quero conhecer sua família. E diga a sua mãe para, quando vier a Salvador, vir me visitar. Quanto foi a corrida, Neto?
E o Neto, voz calorosa:

— Ora, dona Amélia, vá tomar no cu! E eu lá vou cobrar corrida da senhora?

17 comentários:

Gerana Damulakis disse...

É história verdadeira? Nossa, fiquei pasma. E a reação da senhora?

giramundo disse...

As palavras...! Às vezes nos chocam. noutras nos ferem, principalmente quando o diálogo se
dá entre gerações e classes sociais
opostas. Em qualquer cidade ou país
de nosso planeta!
Muito interessante esse teu "diálogo" bastante possível...
Bj

Janaina Amado disse...

Respondendo: a velha senhora ficou surpesa com a resposta do rapaz, claro, mas depois achou muita graça da história, contando-a aos amigos. Apesar do humor meio grosso, eu também gosto da história, por isso a postei aqui: para divertir, porque expressa uma maneira de falar e ser do nosso povo, especialmente do baiano, onde o palavrão não entra para xingar, mas para... acarinhar!

Thiago Maia disse...

Ainda bem que você pensa assim. Estou, claro, desde domingo encantado e pensando em nossa conversa. Mas arrependido por ter dito "você arregou" em vez de "você se arrependeu", quando relembrávamos a Oficina : )

Um abração e obrigado de novo.

Maria Muadiê disse...

muito engraçado o diálogo....
plausível, e no contexto plenamente compreensível.

Marcus Gusmão disse...

História com desfecho exatamente igual aconteceu com dona Detinha, mulher do então governador Lomanto Junior, quando ousou perguntar quanto devia a Baianão pelo conserto imediao do salto de um sapato, numa festa, diante de várias pessoas. Baianão é um daueles típicos agregados políticos pau pra toda obra que vivem na cozinha dos políticos do interior.

aeronauta disse...

Levei um susto no final. Você construiu tão bem os diálogos, Janaína, que eu me senti dentro do táxi, assistindo a tudo! Bjos.

Bipede Implume disse...

Querida Janaína
Esta linguagem, embora grosseira, é ingénua, sem maldade. Faz-me lembrar certas expressões que se usam no Norte de Portugal,ouvimo-las na boca de crianças que são enormes palavrões para nós, mas entre eles são apenas palavras sem ofensa. São ditas com tamanha naturalidade que pasmamos como diz a Gerana.
Beijinhos e um sereno fim de semana.
Isabel

Gerana Damulakis disse...

É isso mesmo, baiano usa palavrão quase como carinho. Fiquei pasma porque se tratava de uma senhora das antigas.

maria guimarães sampaio disse...

Jana, já conhecia a história, no "papel" ficou ótima. Lembro uma com tia Magá comprando sorvete para os netos na porta de casa, carrinho da Kibon. A conta deu maior do que a tabela, ela reclamou. O vendedor: - Ora minha senhora... eu sou nenhum fila-da-puta pra trabalhar debaixo desse sol quente e cobrar só o preço da tabela?

Dalva disse...

Nossa!!! imagino a cena e o choque de Dona Amélia!

Bjs.

Nydia Bonetti disse...

He he he... me fez lembrar as histórias que meu pai contava. Sabe que me deu uma boa idéia. Se eu criar coragem, qualquer dia eu conto. Adoro estas histórias! :)

beijos, bom fim de semana, Janaina!

Ana Tapadas disse...

Linda a história Janaína! eu que sou do sul e «púdica» de linguagem casei com um minhoto...quando comecei a ir ao norte era um choque mas, como diz a Isabel, é assim mesmo: palavrão com carinho! E aguenta sorrindo.
Beijinho

Sonia disse...

Cada qua´l é gentil ao seu modo, não é?

Chorik disse...

Quando a pessoa é mais íntima, eu costumo dizer "vai se ferrar" ou "vai à merda" nessas situações. Mas "vai tomar no cu" não falo nem pra Zezé.

Edu O. disse...

Adorei, adoro essa expressão e nesse caso foi em forma de carinho. hahahahahhaa muito bom!!!!

Nilson disse...

Baianíssima! Vive acontecendo!