quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Coração escarlate

Um segundo antes de a lâmina romper o céu e encobrir para sempre o sol, ainda conseguiu pensar que tudo aquilo era uma tremenda injustiça. Afinal, nada tinha a ver com os malditos conflitos entre muçulmanos e judeus, sendo apenas um turista, atordoado pela beleza milenar de Jerusalém. Foi seu último pensamento. Os nervos explodiram, o pescoço dilacerou-se, na calçada o sangue maculou pela bilionésima vez a terra santa. A dor infinita rasgou-lhe o corpo. Ainda levou a mão à garganta, num derradeiro gesto – inútil como a guerra. O tremor rompeu-lhe os últimos filamentos do pescoço, e então sua cabeça morena, pequena e pontuda começou a rolar ladeira abaixo, distanciando-se do corpo, no alto.
Escutou o que confusamente lhe pareceram repiques de sinos, ou trombetas misturadas a marés, e mergulhou para sempre no outro mundo. Silêncio. Leopoldo sentiu-se pairar no vácuo, ele próprio ou o que restava dele ou a sua essência – não sabia – suspenso acima do mundo. Ao mesmo tempo viu-se dentro do antigo corpo, ensangüentado em solo palestino. Percebeu-se também no interior da cabeça, estraçalhada agora contra um poste, que lhe interrompera a rolagem ladeira abaixo. Os olhos da antiga cabeça estavam arregalados de espanto e medo.
Descobrir-se em tantas dimensões confundia. Não sabendo quem era, Leopoldo deixou-se flutuar no espaço. Não sentia mais dor, só letargia. Teve certeza de que ingressara em outra dimensão quando enxergou a si mesmo – ou ao que um dia fora, ou ao que havia sido e ainda era, ou ... – de uma perspectiva aérea, e divisou lá embaixo, embaralhados entre si, fragmentos de sua vida.

Avistou-se desembarcando sozinho em Jerusalém, o cinqüentão elegante, desenvolto, habituado a circular nas altas rodas do mundo, casaco preto longo, cabelos grisalhos. Mas - de onde estava, Leopoldo agora via – dois buracos trazia por olhos, no coração, mandacarus, e aquele espanto desolado nas mãos. Ombros baixos e boca amarga, a do homem que chegara a Jerusalém.
À época, não sabia a razão da partida repentina, contrariando sócios e clientes, temerosos por sua segurança. Não era judeu nem tinha interesse especial por Israel. Aquela vontade súbita de ir, e pronto: entrara na agência de viagem, comprara a passagem, marcara hotel. Leopoldo agora vê, inscrito a sangue no corpo desembarcado há dias na cidade: saudade da morte.
“Se você está decidido a se destruir, Léo, então realmente eu não posso fazer mais nada”, revê o desespero amoroso no olhar do amigo, o único capaz de intuir sentimentos e desígnios que até ele, Leopoldo, desconhecia.
Sentia um cansaço mortal. De todos e tudo. Muros altos da rua onde morava, desertos que nunca vira. Difícil mover-se. Solidões. Vontade de detonar a ciranda de poder, sedução e dinheiro em que a vida se transformara. Quase enlouquecera o pessoal da agência. Ninguém mais o entendia. Anúncios de néon, hologramas, pop-ups, gigantescas modelos absolutamente iguais em poses para os clics, colunistas, colunáveis... Futilidades. Lixo. Ir pra onde? Procurar o quê? Interferências dos sócios, faniquitos das mulheres, brigas terríveis com todos, no trabalho, em casa, em público. Madrugadas inteiras pelas ruas úmidas de São Paulo, mãos enterradas nos bolsos, cabeça baixa em meio às putas, travestis e mendigos que sequer via, talvez por isso não o molestassem. Fedor. Entulhos. Sede, mas sede de água pura, água de mina.

Saudade insuportável de Helena, que um dia se enchera das suas traições, jogara as roupas na mala e fora embora chorando. Crateras no corpo inteiro. Helena de rosto lavado, Helena descalça, olho no olho, Helena gosto de pitanga com hortelã, cabelos secos ao vento. Helena inteira, corpo de mulher em canção de menina. Ele, mil estilhaços que feriam plantas, luas, fêmeas... Procurando o quê? Não sabia. Caríssimas garotas de programa, alpinistas sociais, portentos de quem devia puxar o saco, ninguém mais tinha nome em sua vida. Rondas de festas, clientes, jantares, fusões, poder, almoços de negócio, trabalho, cocktails, vaidades, traições, dietas, mais trabalho, recepções, disputas, liftings, trabalho insano, jantares de negócio com direito a todas as sacanagens, fortunas, prêmios, seduções. Sua vivacidade esvaindo-se em anúncios, escorrendo em outdoors, em campanhas, em sites, em marketing político... Puta que pariu!

Um dia quisera mais. Um dia sonhara com coisas realmente bonitas. Leopoldo agora admirava pipas colorindo céus, jovens ao redor de uma mesa recheada de risadas e projetos sociais, vontade de mudar o mundo, compromissos... Coisas que valiam a pena, iluminavam semblantes. Cadê Helena? Helena se casou, Helena se mudou. Cantava cirandas com olhos sorridentes. Decerto se escondeu em algum sítio poeirento, plantando chuchu sem agrotóxico. “A cara dela”, pensara com desdém, vontade de sair gritando de dor, enquanto pensava. Mãos vazias. Dois buracos em cada mão, olhos desolados e aquele desespero por onde sua energia escoava, transformada em cartão postal.

Ondas de ar concêntricas envolveram Leopoldo. Encantado, percebeu: o ser alado em que se transformara podia girar de todas as formas, em parafuso, em mergulho, em dobradura, de ponta-cabeça... Ângulos inusitados do mundo lá embaixo, da cidade santa, do seu corpo e cabeça separados em Jerusalém. Deixou-se flutuar, expandindo as novas possibilidades.
Súbito, lembranças muito antigas do seu ser. Leopoldo se viu transportado a um tempo quando flutuava nu, despreocupado, livre, nutrido por um cordão mágico que o estimulava a crescer, a explorar o útero em volta. Uma paz, uma proteção inexistentes nele, desde que fora expulso daquele vácuo primordial.
Sentiu-se puxado para baixo com violência. “Ainda não pertenço inteiramente a este mundo”, foi a sensação ou idéia ou inspiração ou reminiscência que o assaltou, enquanto despencava velozmente rumo ao corpo, desamparado em Jerusalém. Em volta dele, soavam as primeiras sirenas de polícia, passantes fugiam em todas a direções.
Momento quase religioso, o do retorno ao corpo. Pela primeira vez, Leopoldo deu-se conta da sua extrema fragilidade. Cisco no universo, capaz no entanto de carregá-lo e conferir-lhe uma identidade durante toda uma existência “Esse corpo era eu”, sentiu, ondas de amor formando-se à volta.

De repente, foi aspirado para dentro do corpo. Barulhos ensurdecedores de gases, correntezas, fluidos. Assustado, moveu-se instintivamente. Um deslocamento o jogou dentro da cavidade escura, de espessas paredes. Reconheceu aquelas paredes pelo tato e olfato. Tocou e cheirou meticulosamente cada calosidade, ruga, mancha, aspereza, curva, reentrância. Uma, duas, cem vezes. Emocionado, percebeu que eram marcas internas do tempo, calendários do seu corpo.
O buraco fétido aparecera, estava claro agora, quando completara a lucrativa fusão da sua agência com os italianos, deixando à míngua o primeiro sócio. E a ferida que ainda supura parece tão... antiga! Leopoldo enxergou o menino pequeno, rostinho colado à janela, vendo o corpo esguio da mãe, abraçado a um desconhecido, desaparecer para sempre dentro do nevoeiro de São Paulo.
Foi tragado por uma correnteza vermelha, densa, que o conduziu até o lugar mais macio, acolhedor e feliz onde jamais estivera. Enfim relaxado, pôde entregar-se às madressilvas encarnadas, aos sussurros mansos dos rios, aos foles que jamais paravam de tocar, às pétalas aladas sobre a neve, aos desvarios de bocas entreabertas, às curvas dos cachos de crianças, aos arrepios das nucas, à vegetação rarefeita dos cumes das montanhas. Soube-se instantaneamente desejado, perdoado, consolado, aceito - amado.

Do mundo das madressilvas encarnadas, Leopoldo enxergou sua antiga cabeça, espatifada contra um poste de Jerusalém. Amorosamente a envolveu - a ela, que por toda aquela vida o guiara até a fama e a fortuna, mas jamais lhe concedera sequer um segundo de amor, perdão, esperança ou compaixão. Limpou-a com cuidado de todas as sujeiras, da terra e do sangue que nela se haviam grudado, e também do seu excesso de miolos. Beijou-a, fechou-lhe para sempre os olhos e a reuniu ao antigo corpo, recompondo a figura que um dia fora ele.
Nesse momento, Leopoldo divisou a menina palestina que acabava de nascer. Vinha ao mundo num beco escuro da medina, em meio à noite de guerra, horror e mísseis. Era apenas um corpinho nu, chorando sobre a calçada. Leopoldo envolveu a menina em sua onda quente, e nela enterrou seu bem mais precioso, aquele em que acabava de se transmutar, um coração escarlate. Janaína Amado

4 comentários:

Palavras e co-lirius disse...

Menina, quase cansei de ler, mas o final valeu a pena...como dizia um bom e amigo professor, o bom conto no final sempre nos leva à catarse, a transformação. Estou definitivamente renovado.
Posso voltar?

Janaína Amado disse...

Nilson, por favor volte sempre que quiser. Desculpe o mau jeito do tamanhão do conto, também achei que o texto ficou mal no blog, desajeitado. Prometo mais concisão daqui pra frente. Gostaria de, de vez em quando, colocar só o início de um texto mais longo no blog, remetendo o resto, num link, pra outro lugar, onde algum desavisado (como você, he he), querendo, possa ler, sem pesar aqui. Mas sou neoblogueira, esse truque ainda não aprendi. Cê sabe como?
Tive lá no seu Palatus et Colirius, gostei. Posso voltar?

Leitorim disse...

Uau! Não é que a senhora sabe escrever mesmo, com estilo desajeitadamente gostoso. Continue. Vou aprendendo, lambendo os beiços.

Janaina Amado disse...

Leitorim, este conto foi difícil de escrever. O início e o final vieram bem, mas o miolo, não: demorei para tentar fugir dos lugares comuns, e até agora não tenho certeza se consegui. Mas muito obrigada por ter gostado, isto me deixou feliz.