sábado, 30 de janeiro de 2010

Hoje acordei ... 2


Hoje acordei...
… lagarta.
A borboleta nem está no meu futuro.



Hoje acordei...

… apaixonada.
Duas pérolas nos olhos
e uma risada na cara.



Hoje acordei...

... centopéia.
Cem passos pra frente,
noventa e nove pra trás.



Hoje acordei…

… com saudade
de um amor que não tive. Era
moreno, dançava salsa e merengue.
E tinha olhos de espanto.
Imagens (de cima para baixo) daqui, daqui, daqui e daqui

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Hoje acordei ...


Hoje acordei...
novidadeira.
Tenho um segredo
em cada orelha.


Hoje acordei…

… onda de mar.
Espuma, movimento,
e essa vontade doida
de me espreguiçar.


Hoje acordei…

… encantada.
Pingo de luz na madrugada.

Imagens (de cima para baixo): daqui, daqui e daqui.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Mundo pequeno



Mundo pequeno

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

Manoel de Barros

(Trecho de “Mundo Pequeno”, em O Livro das Ignorãças. Rio: Civilização Brasileira, 1993.)
O excelente desenho representando o poeta foi trazido daqui.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A nova habitante da casa






Desde ontem habita nosso apartamento esta simpática leoa. Foi feita pelas mãos de Ivanilson, de um tronco de jaqueira. Ivanilson aprendeu seu ofício com mestre Manuel da Marinheira, hoje com 92 anos, natural de Boca da Mata, interior de Alagoas. Manuel da Marinheira passou à família e à gente próxima a ele, habitantes de Boca da Mata, sua grande habilidade em esculpir, principalmente animais, aqueles que ele conhece – como tatus e calangos –, e aqueles de que apenas ouviu falar em histórias, como leões, tigres e leoas. Seus descendentes (como o filho André da Marinheira) continuam o belo artesanato, que já virou tradição.
Minha leoa, comprada na Artnor, em Maceió, ainda não tem nome. Aceitam-se sugestões.
* Fotos de Luiz Carlos Figueiredo.

domingo, 17 de janeiro de 2010

O que faz você feliz?

"O que faz você feliz?" Estampada na camiseta da moça que caminha pela orla, a pergunta perde seu caráter ontológico — tipo "Quem é você?", "O que faz neste mundo?", "Você tem alma?" —, para ganhar um jeito inofensivo, quase ingênuo.

"O que me faz feliz?", divago, eu também caminhando pela orla, em sentido contrário. Cada vez mais, o que me faz feliz não é inatingível ou complicado, não me exige sofrimento, planos mirabolantes nem acrobacias. Ao contrário: me faz feliz sentir o sol, a luz sobre o mar, o vento que leva a jangada, o menino que corre com a pipa... Me faz feliz um bom texto, um carinho, um abraço, uma bela obra-de-arte, um copo de vinho, o pedido de desculpas daquele amigo que se afastou sem a gente saber por quê, um beijo, me faz feliz acordar com saúde, gargalhar, dormir com meu amor, o silêncio e a paz, a música, me faz feliz entender-me com os outros (às vezes, desentender-me, também), ser solidária, não sentir culpa porque nem todo mundo é feliz e, aqui e ali, poder ajudar alguém. Miudezas. Cascalhos. Pólens. Pormenores. Minudências: são meus momentos felizes.

E você? O que faz você feliz? pergunta este blog, com a mesma leveza da moça que caminha pela orla, neste início de manhã.
* Imagem daqui

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Diálogos (im)possíveis 15

[Este foi verídico, aconteceu em Salvador, Bahia – e onde mais poderia ter acontecido? Só os nomes foram trocados:]

A senhora entrou no táxi, disse o endereço. O taxista deu partida no carro, olhou com cuidado a passageira pelo retrovisor, e perguntou, com um sorriso:
— Dona Amélia, a senhora não está me reconhecendo?
Ela viu por trás a cabeça raspada do jovem, o pescoço grosso, braços fortes ao volante...

— Meu filho, não estou reconhecendo, não. Desculpe, estou velha, não enxergo mais direito, a memória falha…

— Pois eu sou o Neto, filho da Maria, que trabalhou na sua casa!

— Claro, meu filho, agora me lembro! Nunca lhe esqueci! Mas como é que eu podia lhe reconhecer, se a última vez em que lhe vi você era um menino? Tinha o quê, uns 12 anos? Pois é! Que coisa boa lhe rever, que moço bonito você ficou! E como vai sua mãe?

A partir daí desenvolveu-se entre os dois intenso e amistoso diálogo. Neto havia passado a infância na casa de dona Amélia, até os doze anos de idade, quando sua mãe decidira voltar para o interior, e ele a acompanhou. Mais tarde resolvera tentar a vida em Salvador, ralara um bocado até virar taxista, agora estava casado, com dois filhos… Já dona Amélia enviuvara, seus filhos haviam se formado e se casado, ela tinha netos e até uma bisneta… A conversa ia longe, muito animada, um contando pro outro as novidades, quando o táxi chegou ao destino.
— Meu filho, sempre que quiser, apareça, quero conhecer sua família. E diga a sua mãe para, quando vier a Salvador, vir me visitar. Quanto foi a corrida, Neto?
E o Neto, voz calorosa:

— Ora, dona Amélia, vá tomar no cu! E eu lá vou cobrar corrida da senhora?

domingo, 10 de janeiro de 2010

Pra começar bem o dia (10)


Rotação

As horas não ocorrem
ao mesmo tempo
em todos os cantos

Entretanto
cada canto
tem a seu tempo
as mesmas horas

Jorge Cooper

[Cultuado por pequeno grupo de poetas e aficionados da poesia, pouco conhecido ainda do público, Jorge Cooper (1911-1991), poeta alagoano filho de pai inglês, viveu no Rio de Janeiro e em Maceió. É uma das vozes refinadas da poesia brasileira do século XX.]
* Imagem: Salvador Dali, A persistência da memória

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Tarô pessoal, carta 7


O lacre
Há muitos e muitos anos, as pessoas costumavam fechar suas mensagens com lacre de cera. Primeiro, escreviam a mensagem, com todo o cuidado para manter a caligrafia firme e bela, e não permitir que a tinta da pena extravasasse, manchando o papel. Depois, derretiam no fogo um pouco de cera colorida, e a derramavam sobre o verso do envelope, lacrando-o. Os mais refinados marcavam o lacre ainda quente com seu próprio selo ou brasão, para indicar quem era o autor da carta. E só então enviavam o envelope, via mensageiro. Quando a cera esfriava e endurecia, só era possível conhecer o conteúdo da mensagem rompendo o lacre. Isso indicava a todos que a carta fora aberta.

Todo lacre, portanto, contém um segredo e uma revelação. Algo especial foi escrito para uma determinada pessoa, aquela a quem o segredo – a mensagem lacrada – se destina.

O aparecimento da carta do lacre indica que o momento é propício para agir:

Qual segredo você deseja revelar agora? Quem é a pessoa certa para recebê-lo?
Qual lacre você deseja romper? Você está preparado para receber o segredo que alguém quer lhe contar?

Escute seu coração. Só você sabe as respostas.

* Imagem daqui - carta de fã para a escritora Jane Austen.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

Coco maduro


[Imagens que me surgem de repente, sem eu pedir, como relâmpagos, e logo desaparecem. Algumas, consigo registrar.]

COCO
É coco maduro, casca dura, ligeiramente peluda, todo marrom (já foi verde). Casca muito dura. A mulher joga o coco no chão com toda a força, ele se abre em dois, exibe o interior: branco, tenro, fértil de sabores e misturas com outras comidas. A casca do coco, inútil agora — nem protege nem impede. Quanta coisa neste coco.