sábado, 28 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Diálogos (im)possíveis 12


— Aquele ali é teu pai?
— Não, é o segundo marido da minha mãe.
— Sei. E a que está com a mão no queixo, é tua mãe?
— Aquela? Não, não — aquela é a filha mais velha do meu antigo padrasto.
— Tua mãe, cadê?
— É aquela lá atrás, a que está carregando o neném.
— Estou vendo! Bonita, a tua mãe. O neném que ela carrega é teu irmão?
— É, sim, mas não do jeito que você pensa. O neném é filho do meu pai com a terceira mulher dele, aquela que está do outro lado da sala, brincando com minha única irmã por parte de mãe. As outras crianças, em volta dela, são primos dos meus primos, que também considero meus primos.
— !
— Ué, de repente você ficou mudo!
— É que estou achando a minha família tão sem graça...
[Pequenina explicação, só porque o assunto deu o que falar aqui: o parênteses do título indica que esses diálogos (im)possíveis podem ou não existir ou ter existido, dependendo do diálogo - isto é, de quem falou -, e dos leitores - isto é de quem ouviu, rs. Tudo, assim, é possível, como tudo é impossível: depende. Sempre acreditando no truque, he he ... ]
* Imagem daqui

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Máscaras


Máscaras

Carnaval acabou.
Tiro as minhas máscaras
uma a uma, lentamente.
Dói.

Resta a derradeira, justo
a máscara mais antiga.
Ganhei-a quando nasci:
a única em que
eu não me reconheço.
(Máscaras, de Janaína Amado - Creative Commons)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O livro da minha vida


Este post integra a ótima blogagem coletiva proposta pela Vanessa em Fio de Ariadne, sobre o livro da sua vida — não necessariamente o mais bem escrito ou o ...
(Este texto continua aqui)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Canção do amor livre

Canção do amor livre

Jacinta Passos

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.


Jacinta Passos [1914-1973], escritora baiana, publicou quatro livros de poemas - Momentos de poesia, Canção da Partida, Poemas políticos e A Coluna – e foi jornalista atuante. Feminista, comunista, internada em sanatórios como louca, enfrentou duros estigmas, com coragem e coerência.
Jacinta Passos é minha mãe. Ando feliz porque, em breve, sairá publicada sua obra completa. Irei dando notícia a vocês. Sua poesia - etérea, improvável, inútil segundo alguns - sua poesia permanece.

*Imagem: Amor e Psyché, de Alberto Canova, daqui

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Diminuindo o preju


Gente, li isto no blog do Edu, e copio aqui embaixo. Achei importante pra todos nós: abaixo os abusos na tarifa de telefone! Se a gente não se mexer, tá perdido. Beijos a todos.


CANCELAMENTO DA TAXA TELEFÔNICA de R$ 40,37 (residencial) e R$ 56,08 (comercial). Eu acabei de fazer, é seguro, é rápido!!!
Quando se trata do interesse da população, nada é divulgado.Ligue 0800-619619. Digite 1 (um) para falar com a atendente. Diga que é para votar a favor do cancelamento da taxa de telefone fixo.
O Projeto de Lei é o de n.º 5476, do ano de 2001. Esse tipo de assunto NÃO é veiculado na TV ou no rádio, porque eles não têm interesse e não estão preocupados com isso. Então nós é que temos de correr atrás, afinal quem paga somos nós! O telefone a ser discado (0800-619619, de segunda à sexta-feira das 08 às 20h00) é da Câmara dos Deputados Federal. Passe para frente esta mensagem para o maior número possível.
Entrando em vigor esta lei, você só pagará pelas ligações efetuadas, acabando com esse roubo que é a assinatura mensal. Este projeto está tramitando na 'COMISSÃO DE DEFESA DO CONSUMIDOR', na Câmara."

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Dissolver-se


De repente, a enxurrada. As comportas de aço do meu peito subitamente se escancaram, não tenho tempo de fugir. Só ouço trovões, e já vejo as águas chegando. É de novo o dilúvio, penso apavorada. Corro, mas as águas correm muito mais depressa do que eu. Essas águas, que estavam represadas — represadas onde, em qual invisível comporta, em qual dor, qual desespero, dentro de qual silêncio, qual floresta, qual memória assassinada, qual ruga, em qual fogo elas estavam? —, de repente todas as águas do mundo despencam aqui dentro do meu peito. Tudo. Cachoeira, cascata, queda d´água, itororó, catarata, roncador, véu-de-noiva, com uma força que eu não suspeitava que as águas possuem.
Mas – juro por esta luz que me alumia — , quando chegaram, chegaram mansas. As águas pousaram calmas no meu peito, se espalhando sem nenhuma pressa, derramando seu frescor. Muito aos poucos assumiram a forma do meu peito, isto é, a minha forma. As águas envolveram cada órgão meu, cada músculo e nervo, envolveram o meu coraçãozinho tolo apressado de medo, líquidas transparentes transparecidas águas.
Água benta, aguarrás, água-marinha, água-de-cheiro, água de cana, de castanha, de colônia... Lavanda lava esta ponta de pedra aqui, este cotoco de breu, este bloco de ferro, este grito, esta foto tão incômoda, esta pontada que dói dói dói, água-benta purifica inveja, saudade do que nunca existiu, desejo mal satisfeito, culpa, malefício... Água doce bate na enorme pedra verde-escura bem no centro do meu peito, água alisa a pedra, água mole em pedra dura tanto bate até que fura, mas fura com carinho, fura limpando, dissolvendo, vem cachoeira vem, águas de março, dezembro e fevereiro, águas-marinhas, águas de rio, de mar azul e verde, riachinho... Água, simplesmente: a minha lágrima.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Brasil bom



Ultimamente, tenho me envergonhado um bocado do Brasil. Me sinto mal diante da nossa miséria, da nossa absurda concentração de renda e de terras, da nossa corrupção, desta violência cega que nos assola, da falta de respeito aos cidadãos, das colossais carências na educação e saúde públicas, dos nossos crimes contra o meio-ambiente. A lista enorme é do tamanho da minha amargura, vergonha, desconforto, revolta. Não vejo esses problemas como obra específica deste governo ou do anterior, vejo-os como males antigos, que governo nenhum parece tentar ou conseguir resolver.
Contudo, vez por outra sou surpreendida por alguma notícia boa. Aí me dá uma alegria, uma esperança doida de que nem tudo está perdido, de que nosso país tão grande, rico em recursos naturais, com um povo tão criativo, ainda vai resolver ou atenuar alguns de seus problemas básicos.
Ontem, me aconteceu uma dessas experiências realmente boas. Devido a um problema doloroso nos músculos e nervos das mãos e braços, que me obrigou a três pequenas cirurgias no ano passado, busquei atendimento médico na rede sarah de hospitais, em Salvador. Para quem não conhece, trata-se de uma rede nacional de hospitais públicos, com unidades em várias cidades do Brasil, voltada para o tratamento de doenças do aparelho locomotor.
Pois bem: exatamente ao contrário do que costuma acontecer em nossos hospitais públicos, tudo lá funcionou muito bem, ontem. De forma rápida, cortês e eficiente, uma funcionária fez meu cadastro e me orientou a aguardar o horário da consulta. Esperei num local sem nenhum luxo, mas agradável, amplo, arejado e impecavelmente limpo, eu e mais uma grande quantidade de pessoas, a maioria, dava para perceber, gente pobre, do povo, muitos com problemas motores seríssimos.
Aproveitei para conversar com essas pessoas a respeito de suas experiências no hospital. Pasmem, só ouvi elogios: os médicos (muito melhor remunerados do que nos outros serviços públicos do país, portanto, de muito melhor nível, no conjunto) são ótimos, competentes e compreensivos; as consultas, sessões de fisioterapia e cirurgias começam no horário marcado, ou com pequeno atraso. Ouvi frases assim: “Estou me sentindo muito melhor do que quando o tratamento começou”; “Eu já fiz cirurgia, agora estou fazendo fisioterapia”; “Fiquei internada, depois de um tempo voltava pra casa nos fins de semana, agora venho aqui três vezes por semana, e, a partir do próximo mês, só uma vez por semana – eu não andava, voltei a andar”; “Quebrei 32 ossos num acidente terrível, agora estou quase inteiro”; “O hospital empresta pra gente cadeira de rodas, muleta, andador, cama especial, o que precisar, depois a gente devolve”. Minha própria experiência ontem foi excelente: como paciente, me senti bem cuidada e orientada; como ser humano, me senti respeitada.
Acreditem: tudo isso é gratuito. Gratuito, não, pois, como escrito no site da rede sarah, a instituição “tem como objetivo retornar o imposto pago por qualquer cidadão, prestando-lhe assistência médica qualificada e gratuita, formando e qualificando profissionais de saúde, desenvolvendo pesquisa científica e gerando tecnologia.”
Não sei se a qualidade que encontrei ontem é a mesma todos os dias, em todas as unidades do sarah, para todas as pessoas. Só sei que, ontem, minha esperança no país reacendeu. Se foi possível conseguir tanto em um lugar específico, será possível conseguir a mesma qualidade e eficiência em outros lugares, atividades, setores. Pela primeira vez em muito tempo, senti orgulho do nosso Brasil. Êta sentimento bom!

*Imagem daqui

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Meme - Confissões


Mal acabo de postar o conto abaixo (longo demais, eu sei, eu sei, mas me deu vontade, fazer o quê? Tá inteiro no enredosetramas), e me dou conta de que devo postar de novo: fui indicada (honrada!) por Maria Sampaio, Bernardo Guimarães, aeronauta e Martha Galrão para um meme, cujo selo é este ao lado. Preciso confessar seis coisas sobre mim, e em seguida indicar mais seis blogs para brincar também.
Vamos primeiro às confissões:
1ª) Sei fazer pouquíssimas coisas, duas ou três, no máximo. No resto todo, sou negação total.
2ª) Só quero viver em mundo inventado.
3ª) Sou profundamente apaixonada por certo homem.
4ª) 3 “d”: desajeitada, distraída, desafinada. Tinha vontade demais de saber cantar.
5ª) Sinto que existe um precipício bem aqui ao meu lado, posso vê-lo, ele nunca desaparece. Isso é que é viver perigosamente!
6ª) Estou aprendendo a me cobrar cada vez menos. Isso é vontade de ser feliz.
Agora, os blogs: há blogs que eu não deixo de ler, de jeito nenhum, como os quatro acima que me indicaram. Mas, como eles e outros já entraram nesta brincadeira (eu, distraída como sempre, só agora é que me enturmei), decidi indicar blogs de que gosto e sempre visito, mas ainda não participaram desta ciranda. Vamulá (endereços ao lado):
. Perplexoinside, Valter Ferraz
. Rara avis, Ana Tapadas
. Hippos, Lucy Lacey
. João´s Opiniões, João Grando
. O meu jeito de ser, Aninha Pontes
. Textos do coelho, Rafael Coelho
É isso aí!

Desejos (como todos os dias)



— Pai, afasta de mim a tentação...

Dolores sussura mais uma vez a súplica, apressando o passo em frente à padaria. Não posso vê-lo de novo, não posso, não agüento... Esmaga o dinheiro na mão, procurando fixar o pensamento nas compras do...

[Este texto continua aqui]