domingo, 30 de novembro de 2008

Colo

Frida Kahlo, Minha ama e eu, óleo sobre tela, 1937
Fundação Dolores Olmedo, cidade do México


Tem dias, sabe, em que me sinto completamente sozinha no mundo. Tô fazendo alguma coisa — nadando, por exemplo, ou estudando —, aí me bate uma solidão absoluta. Como se ninguém mais existisse no planeta, só eu, perdida entre as altas dunas amarelas de um deserto onde o vento é tão forte que seca meu corpo e carrega pra sempre a minha alma. Nesses momentos é ótimo encontrar seus olhos escuros, atentos, atenciosos. Só eles conseguem me devolver a alegria do mundo concreto.

Às vezes me sinto muito fraca diante da vida. Todos são mais bonitos, capazes e melhores do que eu. Os meus colegas são mais espertos, as minhas amigas, mais lindas, e até Juliana, minha irmã caçula, está conseguindo muito mais sucesso do que jamais tive. Sou poeira, cisco que a ventania leva pra onde quer e deposita depois na lama, junto aos caranguejos. A mais fraca de todos os seres, nem consigo carregar meu próprio peso: ando curvada, nariz pro chão. Sugada por alguma força misteriosa, minha energia escorre por um ralo enorme que nem sei onde fica. De noite, me tranco no quarto chorando sozinha pra ninguém ver, cara enterrada no travesseiro.

Se no caminho pro quarto, porém, eu encontro você, e se você, parecendo perceber o que vai dentro de mim, ou mesmo sem perceber você me abraça, me beija, me faz carinho, então vou sentindo a vida renascer, espalhar-se pelo meu corpo, desde o centro da minha barriga. Às vezes melhoro tanto que desisto de ir chorar. Fico por ali mesmo, plugada na sua tomada, mina das minhas energias. Se você gosta de mim, diabos! não posso ser tão fraca e desprezível assim.

Lembra quando tratei você supermal, lhe fiz aquela má-criação gigante? Eu andava nervosa, tudo naquela época dava errado pra mim. Até papagaio implicava comigo! Descontei em você, a mais próxima, a primeira que me apareceu pela frente naquela noite, reclamando não me lembro mais do quê. Fui grossa demais. O pior é que nem notei, mergulhada na minha própria vidinha, no meu redemoinho particular, apartada dos sentimentos alheios.

Só dias depois percebi o tamanho da minha estupidez, e sabe como? Senti falta do seu riso. Meu astral já estava melhor, o mundo parecia aos poucos voltar aos eixos, então por que eu sentia aquela tristeza, logo na hora de jantar com você? Vi de relance seu rosto sério, cabisbaixo, riscando lentamente a toalha com a faca... Na saudade do seu riso, lembrei da minha explosão dias antes, juntei causa e conseqüência. O remorso daquela hora, eu sei, foi egoísta: “Não posso feri-la de novo”, lembro que pensei, “pois eu não suportaria viver sem o seu riso.”
Só pra terminar: até hoje, do que mais gosto na vida são dos seus colinhos. Tô sabendo — sou grande demais pra colo, nunca sei direito onde colocar esses braços e pernas desengonçados, que cresceram desmesuradamente, escapando desordenados pra todos os lados. Sei que dói em você quando pulo em cima... Mesmo assim, repito: eu, a garça pernalta, adoro até hoje o seu colinho! Ele é como um útero, acolhedor, calmo. Silencioso. Quentinho... Traz paz.

Seu colo é bom demais, minha filha!

sábado, 29 de novembro de 2008

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Muito contente


Muito contente por estar de volta aqui. Ainda não 100%, os pontos continuam na mão direita, mas já estou livre das ataduras e podendo teclar sem exageros, o que acho ótimo. Olhe, gente, a-do-rei cada uma das mensagens deixadas nos dois blogs durante minha ausência, muito obrigada a vocês todos, que fizeram esse tempo de cirurgia passar mais rápido e de forma bem mais amena. Me senti apoiada, aconchegada — bom demais! Não vou responder a cada um apenas porque ainda não posso escrever muito.
Nesses dias, li um bocado (vou comentar os livros lidos no enredosetramas), vi tv — inclusive todo esse desastre terrível de chuvas torrenciais, cheias e desabamentos em Santa Catarina —, porém minha cabeça, a maior parte do tempo, se manteve zonza, tontona, sem se fixar em coisa alguma, como se vagasse por algum espaço que nem sei onde fica. Meu amigo Chorik comentou que isso acontece porque nosso corpo é uma unidade, cada membro ou órgão influenciando os outros: assim, o que acontece com minha mão pode, sim, influenciar minha mente (o amigo Edu disse que sentiu a mesma coisa quando teve um problema no pé). Independente de fundamento científico, gostei dessa explicação, dessa idéia de sermos um todo indivisível e interdependente (que a medicina atual teima em seccionar). Me fez bem sentir-me assim. Lembrei-me das pessoas cuja perna, braço ou mão foram amputados, mas continuam a sentir sensações neles — calor, dor, arrepios, etc —, ao que parece porque a imagem mental que têm do próprio corpo é a de um corpo completo, o que inclui, jamais exclui, o membro ausente.
Por este meu texto descosido, mal ajambrado, vagal, já deu pra sentir que ainda não aterrissei direito por aqui, né? Mas não importa, não é mesmo? Este texto é só pra lhes dizer que estou de volta a este doce batente, amo vocês, e espero continuar a postar textos que mereçam ser lidos e comentados por vocês. Assim como visitarei os seus blogs, lerei e comentarei seus textos. De volta a esta nossa gostosa, divertida e animada roda de leituras e papos!

domingo, 23 de novembro de 2008

Maneta



Amigos, muito obrigada por todas as mensagens. Minha cirurgia correu bem. Estou de molho até terça-feira, dia do primeiro curativo. Escrevo agora com os dedos esquerdos. Tenho lido um bocado, mas a cabeça anda num marasmo, numa zonzeira... nenhuma idéia! Será que, sem usar a mão direita, não penso?

terça-feira, 18 de novembro de 2008

De papo pro ar


Gente, tô me submetendo a uma pequena cirurgia na mão direita. Coisa simples: "dedo em gatilho", inflamação que dá no tendão do dedo e o deixa preso no tubo que o envolve; quando a gente curva o dedo, parece que tá apertando o gatilho de um revólver. Cruz credo, logo eu, pacifista! Os médicos têm o maior desprezo pelo meu dedo em gatilho, coisa simples, nada desafiadora para suas sapiências. Eu é que sei como dói. Minha vingança contra esses médicos é revelar que eles simplesmente não sabem a causa do problema. Sabem diagnosticar, sabem tratar, mas não sabem a causa — incerta, ignorante medicina! Pronto, já me vinguei.

Vou ficar duas semanas com pontos na mão. E como é que vou viver todo esse tempo sem escrever aqui, postar meus textos, ler os de vocês? Não posso mais viver sem isso, tô viciada em vocês! Bolei uma estratégia: escrevi alguns textos, vou ver se alguém os posta pra mim, aos poucos. Não é a mesma coisa, não tem a graça do improviso nem a riqueza do diálogo, mas ao menos diminuirá minha saudade e frustração. Vamos ver se funciona. Não sumam!

Enquanto isso, é pensar positivo: vou ter um tempo gostoso de repouso, de não fazer nada, de mordomias, água de coco, papo pro ar... Como há décadas prega esta música que acho ótima (nada a ver com minha origem baiana), composta por Joubert de Carvalho, com letra do poeta Olegário Mariano:

De papo pro ar

Eu não quero outra vida
Pescando no rio de Jereré
Tenho peixe bom
Tem siri patola
Que dá com o pé

Quando no terreiro
Faz noite de luar
E vem a saudade me atormentar
Eu me vingo dela
Tocando viola de papo pro ar

Se compro na feira
Feijão, rapadura
Pra que trabalhar
Sou filho do homem
E o homem não deve
Se apoquentar

Diálogos (im)possíveis 9

[Tenho 21 anos, estou recém casada no Rio de Janeiro. De repente Elza, a empregada, sai gritando apartamento afora, braços pra cima, agitadíssima. Logo começa a bater a cabeça na parede, com força. Elza não responde às minhas perguntas, dando a impressão de que sequer me ouve ou vê. Cada vez mais agressiva, espatifa copos no chão e esmurra os vidros das janelas.
Apavorada, sozinha com ela no apartamento, me tranco num quarto e ligo para o Instituto Pinel, hospital para doentes mentais próximo ao meu prédio. Peço que mandem com urgência enfermeiros, para buscar uma pessoa que está em surto.
Dez minutos depois, toca a campainha. Elza, que se debate na cozinha, ao ouvir a campainha imediatamente se posta ao meu lado. Quando abro a porta do apartamento, estamos nós duas juntas, de pé, frente a dois fortíssimos homens de branco e uma maca.]


— Quem é a pessoa pra ser levada ao Pinel? – pergunta um dos enfermeiros.
— Ela! –Elza e eu respondemos ao mesmo tempo, uma apontando a outra.

[Juro que aconteceu].

domingo, 16 de novembro de 2008

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Eu sou


Eu sou

Quando os adultos me perguntam
— O que você vai ser quando crescer?

Morro de ódio.

Sinto vontade de responder:
— Vou ser tudo, menos você!

Será que os adultos não sabem?
Eu
já sou!

("Eu sou", de Janaína Amado - licenciado sob Creative Commons)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Pra começar bem o dia 2


Senhora Gramática

Senhora gramática
perdoai os meus pecados gramaticais.
se não perdoardes
senhora
eu errarei mais.

[Solano Trindade. O Poeta do povo. São Paulo, Ediouro/Editora Segmento Farma, 2008. Solano Trindade, *1908-+1973, poeta popular pernambucano, foi autor engajado, preocupado com questões sociais, principalmente as dos negros como ele. Fundou e dirigiu movimentos culturais, sobretudo na área do teatro. Este poema é da faceta menos conhecida de sua obra, a do humor cotidiano. Sua família acaba de publicar este volume com as obras completas do poeta. Solano foi um dos homenageados da IV Fliporto].

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

As nossas áfricas

(Maracatu final da aula-espetáculo de Ariano Suassuna - de branco, no canto do palco. Foto de Luiz Carlos Figueiredo)

Só pra assistir à abertura já valeu a pena ter ido à Fliporto, a IV Feira Literária de Porto de Galinhas, PE. Consistiu de uma aula-espetáculo do grande escritor Ariano Suassuna, atualmente com 81 anos de idade, que é Secretário de Cultura do Estado. Com inteligência, originalidade, humor imbatível e vitalidade, Ariano conduziu o espetáculo Nau - Sagração nº 2, um passeio...

(O texto continua aqui)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Até breve






Amigos, a partir de quinta, 6 de novembro, até pelo menos domingo à noite, 9 de novembro, estarei ausente daqui. Vou assistir à Fliporto, Feira Literária Internacional de Porto de Galinhas, PE, cujo tema, este ano, me pareceu particularmente interessante: a diáspora africana e o diálogo literário entre África e América Latina. Estarão presentes vários escritores africanos e brasileiros, além de gente que gosta de ler, durante quatro dias reunidos no belo litoral pernambucano. Depois eu conto. Abraços.

Yes, we can!


Amigos, cliquem neste link para ver uma emocionante entrevista no interior do Quênia com Sarah Onyango Obama, a avó africana de Barack Obama. Há legendas em inglês, o que facilita nossa compreensão. Esta é a avó que, quando o jovem Obama a visitou pela primeira vez, lhe contou a história de seu pai e de sua família, colocando-o em contato com suas raízes e promovendo a reconciliação dele com a figura paterna. O túmulo de Obama pai está no quintal da casa de Sarah.

Foi muito emocionante ontem, não foi? E continua sendo. É muito raro, nos Estados Unidos e no mundo, assistirmos hoje a algo que nos comova a todos, nos una e nos traga ou devolva a esperança, este doce, louco e melhor motor para nossos corações e mentes.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Diálogos (im)possíveis 8

(Imagem daqui)
— Qual é a sua ilha?
—Santa Catarina.
— E a sua?
— Itamaracá.
— A sua?
— São Luiz.
— A minha é Ilha Bela.
— Pois a minha é a ilha-do-faz-de-conta, entre o sertão e o mar, a que tem chão de esteira, búzios sem conta e cabelos ao vento, ilha-de-dentro, ilha-mar, onde Judas não perdeu as botas nem o gato comeu a língua, ilhéu, ilhaminha, ilhatua, lua de mar, caramujos, ilhotinha, ilhão — Ítaca, Itacaré, Itacarezinho, terra dos jacarés, nossilha, nonossa, tuilha, trilha, trilhas conduzem ao vulcão de fogo que não queima, cheiro de pão quente saído indagorinha do forno, espirais, brisa, brasas, labareda, água, casa e maresia, algumas cabras, estandarte, biscoitos de polvilho doce, muita imaginação e louvor.

sábado, 1 de novembro de 2008

A esperança se chama Barack Obama


Barack Obama será eleito presidente dos Estados Unidos (toc, toc, toc). Trajetória incrível, a deste homem. Em um país partido pelas diferenças raciais, onde brancos e negros dificilmente convivem entre si, ele nasceu no mais distante Estado americano, o Havaí, filho de mãe branca e pai negro, do Quênia. Foi criado pela mãe e avós maternos, naturais do Estado do Kansas, brancos como ...
(O texto continua aqui)